Exposição em Belo Horizonte questiona relação do tempo e o homem

A artista plástica Lais Myrrha abre a exposição Entre-tempos na Galeria de Arte GTO do Sesc Palladium. Mostra reúne desenhos, gravuras digitais, vídeos e instalações

por Walter Sebastião 01/11/2014 12:30

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Videobrasil/Divulgação
Teoria das Bordas: instalação de Lais Myrrha que integra mostra na galeria do GTO (foto: Videobrasil/Divulgação)


Colocar em fricção o tempo da vida, da história e da memória. Esse motivo, aponta a artista plástica Lais Myrrha, cruza os trabalhos da exposição Entre-tempos, na Galeria de Arte GTO do Sesc Palladium. “Não represento o tempo, ele age de fato nos trabalhos”, observa Lais. E exemplica: a instalação Teoria das bordas coloca no chão duas áreas com pós de cores diferentes – no caso, preto e branco –, separadas nitidamente, que o andar das pessoas vai misturando. O mesmo vale para o vídeo em que a artista tenta fazer desenho de observação dos números de relógio digital em funcionamento, mas nunca dá tempo para concluir a imagem.

A questão do “conflito dos tempos”, como gosta de dizer a artista, é recorrente em sua obra. Existe em trabalhos do começo da carreira, ainda no fim dos anos 1990, nos quais o motivo vem sob a forma de sedução, erosões e apagamento das coisas. Isso implica em noção temporal, observa Laís. O mesmo vale para Podium para ninguém, obra recente, construção só com cimento e sem água, que vai se desfazendo. “Sinto que vivemos várias temporalidades que não coincidem.” Ela recorda que o filósofo italiano Giorgio Agamben sugere que o contemporâneo é exatamente o sentimento de não coincidir com o nosso tempo.

O motivo do tempo na sociedade contemporânea traz muitas questões, destaca Lais. Pode ser o sentimento de estar sempre atrasado ou o foco exclusivo no relógio, que faz com que deixemos de prestar atenção em outros modos de entender a temporalidade – pela natureza, pelo arco do sol e pelas fases da lua. “Vivemos em uma sociedade que tem dificuldade de lidar com a memória e que esquece o que era para ser rememorado”, diz. A banalizacão da morte, continua ela, convive com recusa de imagens ou situações que mostram que as pessoas vão morrer. “Reintroduzo o motivo da morte no trabalho, porque isso traz escala mais humana e talvez relação menos arrogante com o mundo”, afirma.

Beto Novaes/EM/D.A Press
"Reintroduzo o motivo da morte no trabalho, porque isso traz escala mais humana e talvez uma relação menos arrogante com o mundo", diz Lais Myrra (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)


Lais Myrrha não foge de tema que desafia muitos pensadores: as relações entre a arte e a eternidade. Ser eterna, para ela, não é questão primordial da arte. “Nada é atemporal. Há trabalhos que têm capacidade de significar durante longo período histórico, por vários motivos. O museu tem papel nessa percepção. Há casos em que o sentido do trabalho só aparece com força algum tempo depois que foi feito e o contrário também ocorre”, argumenta. Ela prefere ver a arte como exceção e desvio. Está na exposição, vale registrar, série de gravuras digitais que ecoa o argumento: páginas com textos da Constituição Federal em que aparece a palavra “exceção”.

CONEXÃO
Lais Myrrha tem 40 anos, vive e trabalha em Belo Horizonte. É mestre em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG e formada na Escola Guignard, da Uemg. Tem recebido importantes reverências pelo que vem realizando. Desde participação na 8ª Bienal do Mercosul até ter sido selecionada por projetos importantes dedicados à arte contemporânea – Bolsa Pampulha (MG), Rumos Visuais (SP), Trajetórias (PE), Projeteis (RJ, Atos Visuais (DF), entre outros. “São oportunidades de mostrar o trabalho. Artista não trabalha só para ele mesmo, quer estar no mundo. Em cada exposição ouve-se coisas inesperadas, o que faz perceber que a obra está viva.”

Lais Myrrha, desde criança, gostou de pintar e desenhar. Em momento que se achava um pouco indecisa, ouviu do pai a sugestão para que fizesse curso na Escola Guignard. “Surpreendida com o que vi e conheci sobre arte contemporânea, comecei a estudar. E decidi que era aquilo que queria fazer”, recorda. “A arte podia aplacar a minha curiosidade, que não era pouca. Possibilitava-me envolvimento com várias áreas de conhecimento que me interessavam: arte, história, astronomia, ciências e política, além de conectar esses campos de forma mais livre”, conclui.



Entre-Tempos
Desenho, impressões, vídeo e instalação de Lais Myrrha. Galeria de Arte GTO do Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3270-8100. Terça a domingo, das 9h às 21h. Até dia 11 de janeiro. Entrada franca.

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