Guru da "autoajuda cabeça" decifra as artes para ensinar vida mais plena a leitores

Midiático, desenvolto e eloquente, Alain de Botton criou a 'The school of life', uma "grife" mundial de palestras, terapias e livros

por Fellipe Torres 28/10/2014 09:31

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 Vincent Starr/Divulgação
O filósofo adaptou algumas obras próprias para a televisão, entre elas 'Ansiedade de status',' A arte de viajar' e 'Como Proust pode mudar a sua vida' (foto: Vincent Starr/Divulgação)
Já há anos a seção de autoajuda das livrarias passou a ir além do estereótipo água com açúcar. Nas prateleiras, surgem com frequência obras híbridas, cujo conteúdo é baseado em áreas do conhecimento como psicologia, filosofia, medicina, economia, física. Não importa o quão complexa seja a fonte primária. Se o autor é capaz de esmiuçar o tema e oferecer aplicações cotidianas, vale tudo. A autoajuda "cabeça" colocou em evidência escritores como Malcom Gladwell ('Blink: A decisão num piscar de olhos'), Steven Levitt ('Freakonomics - O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta') e Steven Pinker ('Como a mente funciona'). Mas ninguém se apropriou do nicho de mercado tão bem quanto o suíço Alain de Botton.

Midiático, desenvolto e eloquente, o filósofo criou a 'The school of life', uma "grife" mundial de palestras, terapias e livros (escritos por ele e outros cinco gurus). Adaptou algumas obras próprias para a televisão, entre elas, 'Ansiedade de status', 'A arte de viajar' e 'Como Proust pode mudar a sua vida'. Agora, em parceria com John Armstrong ('Como se preocupar menos com dinheiro'), de Botton faz incursão pelo universo das artes (sobretudo das plásticas/visuais) para oferecer compensações para "fragilidades psicológicas" dos leitores. Sem arrodeio, 'Arte como terapia' (Intrínseca, 240 páginas, R$49,90) é definida pelos autores como "ferramenta para uma vida mais plena, capaz de ajudar a guiar, incentivar e consolar o espectador".

O livro seleciona obras de artistas conhecidos mundialmente – Picasso, Monet, Banksy, Da Vinci, Michelangelo – e analisa os propósitos por trás de cada uma. As interpretações filosóficas sugerem, por exemplo, como ser um bom amante a partir de quadro do pintor Niccolò Pisano e como encarar o trabalho com base na tela pintada por Nicolas Poussin.

ARTE REMÉDIO


Como o escritor identifica problemas e propõe "soluções artísticas" para os males humanos

Editora Intrínseca/reprodução
Estudo de cirros (1822), John Constable (foto: Editora Intrínseca/reprodução)
MEMÓRIA


Fragilidade psicológica
Esquecemos o que importa, não conseguimos reter experiências importantes e fugazes.

Antídoto
A arte torna os frutos da experiência memoráveis e renováveis.

Estudo de cirros (1822), John Constable
"O quadro nos convida a contemplar, com mais atenção do que o normal, as formas e texturas próprias de cada nuvem (...) A arte reduz a complexidade e ajuda a nos concentrarmos, mesmo que por pouco tempo, nos aspectos mais significativos."

Editora Intrínseca/reprodução
Dança (II) (1909), de Henri Matisse (foto: Editora Intrínseca/reprodução)
ESPERANÇA

Fragilidade psicológica
Somos sensíveis demais ao que há de ruim na vida. Perdemos esperanças

Antídoto

A arte mantém à vista as coisas alegres e agradáveis.

Dança (II) (1909), de Henri Matisse
"As figuras dançando não negam os problemas do planeta; e, do ponto de vista de nossa relação imperfeita e conflituosa – mas habitual – com a realidade, podemos encontrar encorajamento na atitude delas. Põem-nos em contato com uma faceta nossa jovial e despreocupada, que pode nos ajudar a lidar com as inevitáveis rejeições e humilhações".

Editora Intrínseca/reprodução
O último dia no velho solar (1862) %u2013 Robert Braithwaite (foto: Editora Intrínseca/reprodução)
REEQUILÍBRIO


Fragilidade psicológica
Somos desequilibrados e deixamos de enxergar os nossos melhores aspectos.

Antídoto
A arte codifica a essência das nossas boas qualidades para ajudar a reequilibrar nossa natureza

O último dia no velho solar (1862) – Robert Braithwaite
"A arte edificante é moral sem ser ‘moralista’ e sabe como é fácil sentir atração pelas coisas erradas. Pessoas cometem erros. No quadro, os problemas do marido decorrem de apostas e da bebida, e ele passa os vícios para o filho. Mas não é um monstro. Quer deixar todos felizes, mas se desencaminha com facilidade. (...) A obra transmite a vergonha e a tristeza da situação de uma maneira que possa afetar nossa própria conduta, pois muitos de nós abrigamos na psique algumas tendências desse homem".

Editora Intrínseca/reprodução
Sioblan no meu espelho (1992), de Nan Goldin (foto: Editora Intrínseca/reprodução)
SOFRIMENTO


Fragilidade psicológica
Somos propensos a sentimentos de isolamento pois não temos senso de que as dificuldades são normais.

Antídoto
A arte nos lembra o lugar legítimo do sofrimento, para sentirmos menos pânico nas dificuldades, que são parte de uma existência nobre

Sioblan no meu espelho (1992), de Nan Goldin
"Até recentemente, a homossexualidade ficava excluída do campo da arte. No quadro, ela aparece em papel redentor como um dos temas centrais. (...) É o retrato de uma pessoa jovem, lésbica, examinando-se ao espelho. (...) A ênfase está no modo como ela se produziu. É no espelho que a vemos como ela quer ser vista: vistosa e elegante, a mão aprazível e eloquente".


Editora Intrínseca/reprodução
Vista do Osterbro em Dosseringen (1838), de Christen Kobke (foto: Editora Intrínseca/reprodução)
COMPREENSÃO DE SI


Fragilidade psicológica
É difícil que os outros nos conheçam: somos misteriosos para nós mesmos

Antídoto
A arte pode nos ajudar o que é central para nós, mas difícil de expressar em palavras

Vista do Osterbro em Dosseringen (1838), de Christen Kobke
"Partilhar experiências com palavras é difícil. Seria complicado descrever um passeio junto a um lago numa tarde amena sem o auxílio de imagens. (...) Kobke capta esses aspectos da experiência difíceis de verbalizar (...) Criou uma imagem que tem amor pela pacatez".

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