Aos 83 anos, Ruth Rocha se mantém ativa e não perde a alegria de escrever para crianças

A formação em ciências sociais e a obra de Monteiro Lobato são suas maiores influências

por Ana Clara Brant 26/10/2014 00:13

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A paulistana Ruth Rocha, de 83 anos, é uma das principais autoras para crianças do país e ganhadora de vários prêmios no gênero. Terceira entrevistada da série Escultores de sonhos, que o Estado de Minas está publicando com mestres da literatura infantojuvenil, ela lembra com detalhes como criou seu primeiro livro e lá se vão 45 anos. Era 1969, um domingo ensolarado em São Paulo, e ela foi passar o dia na casa da amiga Sônia Robatto, escritora, produtora e atriz, responsável pela revista Recreio, da Editora Abril. Sônia havia gostado de uma historinha que Ruth havia escrito para a filha Mariana, então com 6 anos, e publicado na revista, sobre duas borboletas, uma amarela e outra azul, que não podiam brincar juntas porque tinham cores diferentes.


“Minha filha não gostava dessas histórias convencionais de Gata Borralheira e Chapeuzinho Vermelho, e um dia me perguntou por que preto era pobre. Fiquei besta com aquele questionamento. E disse para mim mesma: ‘Vou ter que começar a falar de preconceito com ela’. Aí inventei essa coisa da borboleta, sendo cada uma de uma cor. Era como Romeu e Julieta”, lembra a escritora.

Sônia Robatto adorou a ideia e, no dia em que a amiga foi visitá-la, levou-a até um dos quartos da casa, deu a ela uma máquina de escrever, uma pilha de papel, fechou a porta e mandou que ela escrevesse a história. “Achei aquilo muito surreal e engraçado, e foi assim que surgiu a primeira das minhas criações. Romeu Julieta, a borboleta, que saiu na Recreio e anos depois se transformou em livro”, recorda. O apoio de Sônia e de seu marido, Caloca Fernandes, que foi diretor da revista Claudia, veículo em que Ruth Rocha escreveu durante alguns anos, foi fundamental para que ela despontasse como um dos principais nomes da literatura voltada para crianças e jovens.

O livro mais conhecido da autora, Marcelo, marmelo, martelo, lançado em 1976, que, segundo a escritora, já vendeu mais de 3 milhões de exemplares, foi e ainda é um sucesso entre os pequenos e certamente é o personagem mais querido entre todos que a autora criou. Ruth diz que o protagonista não é inspirado em nenhum Marcelo que ela tenha conhecido, mas que na época em que a obra foi publicada o nome estava na moda.

“A história do Marcelo é de 1969 e foi publicada primeiro na revista Recreio. Tudo começa com essa mania de perguntar. Era uma brincadeira que eu gostava muito: Barriga da perna tem um umbigo? Céu da boca tem estrelas? Essas bobagens que criança gosta de saber. E ainda tinha esse impulso de esmiuçar a língua, e por isso fiz o marmelo e o martelo”, detalha.

Sociologia Educadora e orientadora vocacional, Ruth Rocha é formada em ciências sociais e acredita que a sociologia influenciou bastante sua literatura. Temas como o preconceito, a preocupação com o próximo, a política e o feminismo são bastante presentes em seus trabalhos. “Sei dizer as coisas que me preocupam. Sem dúvida que a formação foi muito importante e ela emerge nas narrativas”, salienta.

Sem falar que sua admiração por Monteiro Lobato também está presente nos textos. “Ele fazia uma porção de coisas que faço também. Não faço igual ao Lobato, primeiro, porque não estou à sua altura, e também porque não copio ninguém. Faço o que me cabe, o que sei e penso. Mas não nego sua interferência na minha vida. Acho que aprendi a respeitar muito as mulheres por meio do Monteiro Lobato, porque ele é um apreciador do gênero. Grandes figuras de seus livros são mulheres, como a dona Benta, a Narizinho, a tia Nastácia, a Emília. Ele criou esse senso de liberdade, além da valorização da cultura e do conhecimento”, ressalta Ruth, que integra a Academia Paulista de Letras.

Outro ponto importante que aprendeu com o autor de O sítio do pica-pau amarelo foi o bom humor. Na verdade, Ruth Rocha sempre se considerou uma pessoa engraçada desde menina, mas essa qualidade foi se aprimorando ao longo dos anos e aprendida, sobretudo, com personagens como a Emília. “Sempre adorei o jeito espevitado dela. O humor nos meus livros é uma marca forte que aprendi também com Lobato”, reitera.

Principais obras

>> Palavras muitas palavras (1976)
>> Marcelo, marmelo, martelo (1976)
>> O reizinho mandão (1978)
>> Quem tem medo de monstro? (1986)
>> Uma história de rabos presos (1989)
>> Os diretos das crianças segundo Ruth Rocha (2002)

Marcelo, marmelo, martelo

“Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo:
– Papai, por que a chuva cai?
– Mamãe, por que o mar não derrama?
– Vovó, por que o cachorro tem quatro pernas?
As pessoas grandes às vezes respondiam.
Às vezes, não sabiam como responder.
– Ah, Marcelo, sei lá…”


Números
45 anos de carreira
100 títulos traduzidos
200 livros publicados (entre didáticos, paradidáticos, ficção e um dicionário)
3 milhõesde exemplares vendidos de Marcelo, marmelo, martelo
Fotos: Túlio Santos/EM/D.A Press
Ruth Rocha garante que ler é seu maior prazer e, mesmo com problemas de visão, lê de tudo, todos os dias (foto: Fotos: Túlio Santos/EM/D.A Press)

Alegria de viver

Produtiva e sempre de alto astral, Ruth Rocha ainda está na ativa e tem se dedicado muito aos livros didáticos. Ela afirma que nunca se sentiu à vontade para escrever para adultos, mesmo quando faz prefácios ou apresentações, e que seu negócio é mesmo a criançada. A escritora está com problemas de visão e, por isso, tem participado com menos frequência de palestras e encontros com a garotada.

Ela, entretanto, não se esquece dos causos que os meninos e meninas lhe proporcionaram, como um ocorrido na época da ditadura militar. “Criança é sempre interessante, autêntica. Certa ocasião, estava contando a história do livro O rei que não sabia de nada, e uma menina perguntou: ‘Esse rei aí é o presidente da República, não é?’. Fiquei meio sem graça e respondi: ‘É… pode ser o presidente da República. Ou um pai mandão, um irmão mandão’. E ela insistiu: ‘Mas é o presidente da República’. Tive que confirmar. E então ela me questionou: ‘Mas você não tem medo da polícia?’. E eu respondi: ‘Tenho muito’. E eu tinha medo mesmo, né. Porque publicavam cada coisa. É um episódio que nunca esqueci”, recorda.

Ruth revela que não tem acompanhado a nova geração de autores infantojuvenis e que raramente recebe livros de colegas. Ela também não é muito fã das sagas e dos best-sellers adolescentes, como Harry Potter, A culpa é das estrelas ou O senhor dos anéis, por exemplo. Mas é a favor de as crianças e os jovens lerem de tudo.

“Ler é sempre bom, seja jornal, revista, porque isso desenvolve a capacidade de leitura. Particularmente, não gosto de Harry Potter, mas não sou contra. Meus netos leram, adoraram. Acho isso muito positivo. Mas não é muito meu estilo, tem essas coisas mágicas… Lia de tudo quando era criança. Lia muito quadrinhos também, que era uma coisa meio proibida na época. Queimavam quadrinhos em praça pública, mas na minha casa era diferente. E os meninos da vizinhança todos iam para lá para ler gibi e era uma grande festa”, relembra.

Minas Gerais Ruth é filha de cariocas e entre seus avós está uma mineira de Barbacena. “Vovó Rosa, que era de Minas, era meio doidona, muito engraçada. Gostava de jogar baralho e tomar uísque”, diverte-se. Quando estava no primeiro ano da faculdade de ciências sociais, Ruth Rocha fez uma excursão a Minas Gerais, que passou por Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana. A viagem ficou na lembrança da estudante. Um dos professores que acompanhou os alunos foi ninguém menos do que o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, autor de Raízes do Brasil e pai do compositor Chico Buarque.

“Ele era muito moço, devia ter uns 40 anos, era uma figura muito interessante e foi uma companhia maravilhosa. Sérgio tocava piano, brincava conosco de escravos de jó e até cantava músicas antigas de carnaval”, recorda. O mais curioso é que o professor ficou impressionado como Ruth sabia de cor todas aquelas letras e indagou: “Menina, mas você nem era nascida quando essas canções foram feitas. Como você sabe cantá-las?”, conta a escritora.

Ruth explicou que desde menina sua avó e suas tias a ensinaram as modinhas imperiais e as marchinhas de “Lamartine Babo, Braguinha e companhia limitada”, e que chegou a soltar a voz em um programa infantil na Rádio Cultura, de São Paulo. “Até hoje sei cantar. Nunca me esqueci das músicas e nem daquela viagem. Visitamos as igrejas, museus, a Mina do Chico Rei”, cita.

E sorri, como quem pensa em mais uma história para contar.

Alimento da alma
Ruth Rocha não perde a alegria, mesmo com o problema de visão que lhe dificulta fazer o que mais gosta na vida: ler. Sem se deixar abater, ainda lê de tudo para se inspirar. “Enxergo mal e é um sacrifício, mas ainda leio vorazmente. E acho que isso dá muitas ideias. Leitura sacode o cérebro, os neurônios todos se mexem, se ligam. Tiro muito dos livros, do que leio, do teatro, do cinema, de tudo que é arte. Tudo isso alimenta a gente.”

Como surgem suas histórias?
Quem é que sabe? Não tem explicação. Eu não sei dizer. Se eu soubesse, juro que contava (risos). É um dom que a gente tem misturado com uma história de vida. Eram muitas histórias dentro de casa. Meu avô era um contador de histórias maravilhoso e foi muito inspirador para mim. Minha mãe também gostava de ler e lia para a gente. Foi ela que descobriu Monteiro Lobato na minha casa. Fui criada com histórias, mas também atribuo esse meu jeito de escrever porque sempre fui uma leitora voraz.

Qual o seu método de trabalho?
Escrevo à mão até hoje. E tenho uma secretária ótima, que digita tudo para mim. Adorava escrever à máquina, mas parei quando ganhei uma elétrica. Não acertei de jeito nenhum. E aí, não gostava, escrevia um pouco à mão e aí veio o computador. E acabei escrevendo só à mão. Gosto de escrever na minha casa e sou de pensar muito nos meus livros. Mas quando vou escrever, já vou corrigindo, apontando os caminhos e quando acabo já está pronto mesmo. Sem precisar de mais considerações ou reescrever. Já o tempo de produção varia muito. Tive livro que demorou um ano, livro que demorou uma semana.

Como você desenvolve seus personagens?
Sou uma escritora muito espontânea, muito instintiva. Não sou uma escritora acadêmica. Faço tudo por impulso. Acho que é assim também que surgem os personagens.

Você lembra qual o primeiro livro que você leu?
O primeiro livro foi do Monteiro Lobato, mas foi um livro estranho chamado O garimpeiro do Rio das Garças. E quando li, aos 6, 7 anos, não tinha noção de que era Monteiro Lobato. E, anos depois, fui a uma exposição sobre ele e este livro estava lá. Aí me toquei: “Gente, conheço esse livro!”. Acabei comprando numa livraria, só que, infelizmente, roubaram da minha estante. E ele sumiu. Era a história de um garimpeiro que descobre um diamante e os bandidos correm atrás dele. Era um livro muito engraçado e muito bem ilustrado. Lembro-me muito bem das ilustrações.

 

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