Tecnologia cria atrativos paralelos para as produções culturais

Celulares e tablets, além de plataformas de exibição, se tornam ferramentas que ampliam a linguagem de músicos, atores e cineastas, gerando novas experiências para o público

por Carolina Braga 25/10/2014 00:13

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Jair Amaral/EM/D.A Press
'Não temos mais a MTV, temos o YouTube' (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
O guitarrista e compositor John Ulhoa, do Pato Fu, não tem dúvidas: “É mais divertido do que quando começamos”, garante. Poliana Tuchia, uma das palhaças do Grupo Trampulim, tem certeza do quanto a internet tem despertado uma “nova forma de estar em cena”. Já o cineasta Éder Santos usa a rede para complementar a experiência de Deserto azul, seu novo filme.

Artistas de várias áreas têm se aproximado da tecnologia mobile para oferecer novas experiências estéticas a seus públicos. “Todo mundo está propondo maneiras diferentes de pensar a sua arte. Não é só publicar algo novo, mas proporcionar experiência”, afirma Daniel Negreiros, diretor de criação da Plan B, agência especializada em comunicação digital.

Tanto é que, às vésperas do lançamento de Não pare pra pensar, o 14º álbum do Pato Fu e o primeiro de inéditas depois de Daqui pro futuro (2007), não sobra espaço para saudosismos na banda. “A gente mandava para as pessoas fitas k-7 e, na maioria das vezes, o retorno era um silêncio ensurdecedor”, lembra John. Agora, está tudo dominado.

“Em primeiro lugar, lançar um CD completo, um álbum físico com capa e tudo o mais, é uma vontade da própria banda. Tenho certeza que a maioria das bandas ainda tem essa vontade, esse objeto de desejo. O problema é que quase não se vende, o jeito então é criar esse tanto de atrativos paralelos, que fazem um lançamento ficar mais relevante do que uma mera postagem no Facebook. Ficar contando likes pode ser cansativo quando você não consegue transformar isso numa carreira verdadeira”, diz John Ulhoa.

Arte/EM
(foto: Arte/EM)
Mesmo que o disco cheio do Pato Fu ainda nem tenha chegado às lojas, as músicas já trafegam nas redes sociais dos fãs. Cerca de 20% da audiência do site da banda vem de celulares ou tablets. Inclusive o novo design foi pensado para responder de maneira diferente, de acordo com o dispositivo de acesso. O que é visto no notebook é bastante distinto do que é oferecido a quem visita a página de um telefone celular ou de um tablet. “É um número muito expressivo que mostra o quanto é preciso fazer um trabalho específico para cada público”, afirma Daniel Negreiros, responsável pela campanha.

Os clipes das canções Cego para as cores e You have to outgrow rock n’roll já estão no mundo. Os vídeos estão disponíveis no YouTube e também no site oficial da banda. Quem optar por assistir por lá, ainda tem “autorização” para interferir na narrativa. Para John Ulhoa, tudo não passa de extensões da música do Pato Fu. Afinal, são produtos que, de uma maneira ou de outra, também têm valor artístico.

John Ulhoa comemora esse momento e aposta que vem muita novidade por aí. E, para ele, não se trata de futurismo, mas de realismo. “Acho que somos pragmáticos. Não temos mais uma MTV, temos o YouTube. Acho que ainda faltam algumas coisas para esse novo modelo ficar pronto, mas já derrubamos o velho faz muito tempo.” E a incorporação da tecnologia à arte, com suas consequências na linguagem dos espetáculos e produtos, não se resume à música.

Em cena Descobrir o valor artístico de uma ação que nasceu na internet foi justamente a virada de chave para o grupo de teatro Trampulim fazer da tecnologia a protagonista da próxima montagem. Tudo começou quando a trupe embarcou na sugestão da produtora Plan B, de colocar um “detector de palhaços” no site oficial da companhia. Funcionava assim: ao acessar o endereço de um computador com câmera, aparecia um nariz de palhaço no rosto da pessoa. “Isso gerou uma vontade de fazer mais coisas”, conta Poliana Tuchia, também responsável pela comunicação da companhia.

PancadaRia, a próxima montagem do Trampulim, já nasceu pensada de outra forma. Cada palhaço terá nos braços e tornozelos dispositivos que receberão comandos do público. Os primeiros testes foram feitos com um console parecido com o de um videogames. “A ideia é conectar totalmente esse espetáculo. Poder ver em live stream e permitir que o espectador, mesmo de casa, possa controlar o palhaço pelo celular. Mas isso ainda não foi feito”, conta Poliana. O projeto de PancadaRia está aprovado em leis de incentivo, atualmente em fase de captação.



Quando as telas se completam

O espectador de Deserto azul, novo longa do cineasta mineiro Éder Santos, recebe na entrada do cinema um convite curioso. “Em vez de desligar, pedimos que as pessoas deixem os celulares ligados”, conta o diretor. Isso porque os interessados podem se conectar a uma rede privada dentro da sala e, durante a projeção, receber informações sobre o que veem na tela.

“Nosso filme tem a participação de 11 artistas plásticos e as pessoas às vezes nem percebem isso”, diz Éder. Deserto azul aborda o tema da transcendência e a ideia é usar o celular para justamente transcender a narrativa tradicional cinematográfica. O cineasta teve a ideia no dia em que percebeu que os jovens não conseguem se concentrar em uma só tela. “Se mandar desligar o celular, acho que o jovem prefere ir para outro lugar, onde possa ficar com o aparelho ligado. Aí pensei em como fazer com que aquela tela grande interaja com a pequena”, detalha.

O projeto de Éder Santos é criar um aplicativo que possa ser executado junto com o longa. Por enquanto, a interação se dá por meio de uma rede privada e a mediação é feita por um profissional. Até agora, foram três sessões com o sistema: na estreia no Festival do Rio, na abertura da Mostra Cine BH e na Mostra Internacional de São Paulo. O espectador, ao assistir uma cena com alguma referência estética, como a presença da obra de um artista que ele não conhece, é informado em tempo real pelo celular, o que torna sua fruição mais completa. O mesmo ocorre com outros elementos do filme, como as locações, a trilha sonora e o figurino.


PELO MUNDO

Biophilia
Pioneira no conceito álbum-aplicativo, a cantora Björk faz de seu Biophilia um ponto de encontro para a comunidade de fãs. Além de música, ela utiliza o espaço para experimentações visuais. Passou da fase de ser gratuito. Quem quiser participar tem que pagar U$S 12,99.

Djay
Um dos DJs mais badalados do planeta, David Guetta libera geral no aplicativo Djay. Em versões para Ios e Android, permite que o usuário pegue samplers de algumas músicas do disco Nothing but the beat e reconstrua como quiser. Também não sai de graça: U$S 7,99.

Decode
O rapper Jay-Z lançou um aplicativo para quem quiser ler a biografia dele. Com o mesmo nome do livro, Decode traz a obra completa e permite ainda ter acesso às músicas, vídeos e conteúdo exclusivo sobre a carreira do artista. São mais de 26 mil fotos disponíveis. O download custa U$S 1,99.


Três perguntas para...

Patrícia Weiss
Publicitária e consultora em transmídia

Qual o impacto que a web, em especial aplicativos mobile, têm hoje na criação audiovisual no Brasil?
A web representa amplitude, expansão e liberdade criativa, e permite que todo tipo de ideia se viabilize e circule pelo mundo, independente de recurso financeiro e reconhecimento profissional, com possibilidade para todos os tipos de autores, ideias e desenvolvedores de projetos audiovisuais. Mas, apesar de viabilizar, isso não necessariamente significa qualidade de conteúdo criado, perante o volume de projetos que surgem. Vejo isso potente em toda a América Latina.

Acredita que a possibilidade de gravar, editar e distribuir filmes feitos pelo celular esteja gerando uma linguagem própria para esta plataforma?
Talvez gere muito mais uma quebra de padrões e técnicas, uma acelerada no ritmo da concepção de diversidade de ideias e formatos, mas não acredito que concretiza uma linguagem própria, como vivenciamos com o cineasta Glauber Rocha, por exemplo. É fantástico o mundo de possibilidades que se desenha com a web, provocando o surgimento de talentos que ficariam escondidos, à espera da descoberta pela indústria do entretenimento e dos investimentos. Isso não tem fim e representa oportunidade.

Já temos no Brasil mão-de-obra especializada nesse tipo de linguagem ou quem faz filmes para celular e com celular ainda são profissionais da TV e do cinema?

Mais do que mão-de-obra especializada, é fundamental um ajuste na perspectiva e concepção de ideias. Muitos diretores já estabelecidos no mercado até exercitam o formato, mas esse tipo de produção se evidencia ainda no Brasil como algo mais alternativo, paralelo. É um fluxo natural, que vem da audiência, que mudou profundamente, não é mais passiva, assumiu o poder e hoje é autora, coautora, produz e circula seus próprios conteúdos e histórias pela web. Há um abalo no modelo tradicional de broadcast da indústria de mídia e entretenimento.


Cel.u.cine
As inscrições para a próxima edição do Festival Cel.u.cine terminam em 2 de novembro. Serão aceitas obras de micrometragem, com duração entre 30 segundos e três minutos, realizadas em 2014, gravadas em qualquer mídia digital e oriundas de qualquer país de língua portuguesa. O tema é livre e a competição será dividida nas categorias ficção, documentário e animação. Informações: www.celucine.com.br

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