Concretizar ideias é mais importante que talento, diz especialista em processo criativo

Professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, Charles Watson ministra esta semana, no Recife, o workshop O processo criativo

por Diário de Pernambuco 13/10/2014 19:33

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(foto: Lead/Divulgação)
Para atingir a excelência em qualquer área de atuação, é preciso pelo menos 10 mil horas de trabalho. Ou dez anos. É o tempo médio levado por alguém para internalizar dados suficientes para “formular perguntas cruciais”. E o aumento do acesso à informação não muda muita coisa. Para o pesquisador escocês Charles Watson, especialista em processo criativo, a internet pode ser considerada um “imenso receptáculo de possíveis respostas para problemas ainda não formulados”.

Ter talento também não encurta o caminho. Mais importante é ser curioso, ousado, inquieto, destemido, inovador. Essas características não garantem sucesso, mas colocam o indivíduo na trilha certa para realizar uma produção de destaque. “Personalidades notáveis como Mozart, Tiger Woods, Picasso, Jaqueline Du Pré, Ayrton Senna, Serena Williams, Michelangelo e Masaccio começaram a estudar os seus respectivos assuntos ainda muito jovens”.

Talento existe? Qual a importância dele no processo criativo?

Essa é uma questão discutida há quatro décadas. As principais autoridades nessa área concordam que, se talento existe, ele parece não ser muito importante em uma vida produtiva em termos criativos. Se talento é uma facilidade inata, intrínseca, o que mais acontece quando a gente faz as coisas facilmente? Tudo se torna automático. E uma postura automatizada não combina com criatividade. Pessoas criativas tendem a ter uma relação passional com o que fazem e a trabalhar muito. Contudo, a maioria das pessoas que deram contribuições significativas em suas áreas de atuação têm, em média, nove a onze anos de experiência. É a chamada regra dos dez anos ou das 10 mil horas. Mas isso não quer dizer que talento não existe.

Quais características são mais desejáveis do que talento?

Trabalho há 40 anos com jovens artistas que representam o Brasil internacionalmente. Em nenhum momento me ocorreu que essas pessoas fossem talentosas. Elas possuíam qualidades como intensa curiosidade, capacidade de trabalho, alta tolerância a ambiguidades, predisposição ao pensamento divergente. Também são pessoas inquietas e não satisfeitas em ficar se repetindo.

A repetição artística é uma crítica recorrente feita pelo senhor. Como evitar esse hábito?

A gente vê isso o tempo todo. Você tem seus heróis de música pop ou rock, fica espantado com o disco de estreia e depois percebe como o segundo disco é uma versão diluída do primeiro. As pessoas precisam desenvolver a capacidade de agir como se não tivessem nada a perder, quando na verdade têm tudo a perder. Precisam aprender a tolerar risco, desconforto intelectual (no sentido cognitivo).

Agir assim torna o artista mais propenso ao sucesso?

Depende. É preciso entender sucesso como o momento em que o artista está na iminência de atingir o que ele pretende com o trabalho. A priori, o que define se ele será bem- sucedido é o tamanho da plateia, mas a gente sabe que nem sempre a plateia de pessoas criativas é grande. Quando Albert Einstein lançou a teoria geral da relatividade, em 1905, só havia três pessoas no mundo capazes de entender o que ele falava. Você não vai duvidar do sucesso de Einstein por causa disso. Ele foi fundamental, as ideias dele revolucionaram a maneira como entendemos o cosmos. Van Gogh é outro exemplo. Só teve três pessoas. Mas isso não diminui a importância do trabalho dele.

Que espécie de instruções são passadas em seus cursos?

Em primeiro lugar, tento devolver a autonomia para as pessoas sobre a criatividade. Enquanto você achar que o talento foi dado por Deus, ou que veio da genética, ou que apenas gênios fazem isso, você não vai fazer nada. Todo produto e ato extraordinário é fruto de ações ordinárias ou normais. Não é questão divina. Se você é uma pessoa curiosa, se trabalha muito, se é capaz de enfrentar suas dificuldades ao invés de ficar remoendo suas conquistas, você tende a ter uma produção notável em sua área. Óbvio, também há fatores sociais, históricos e culturais. Meu curso lida com a questão pessoal, com o que faz a pessoa transcender a norma no seu pensamento ou na sua ação.

Ter iniciativa conta mais do que ser criativo?

Sem energia e investimento nada acontece. Não existe ideia criativa. Todo mundo tem boas ideias, mas o diferencial da pessoa criativa é concretizar ideias. Ninguém é maluco de achar que é o único no mundo que pensou algo. Muitas pessoas pensam e poucas pessoas fazem. Dou ênfase ao agir, ao fazer, ao não ficar sentado no sofá pensando.

O perfil dos alunos do curso é bem vasto. As lições são as mesmas para artistas e empresários, por exemplo?

O curso é multidisciplinar, fala sobre arte, literatura, cosmologia. São exibidas entrevistas com coreógrafos, escritores, matemáticos, todos dizendo a mesma coisa. Você percebe que a semelhança entre os criativos é maior que a diferença entre as linguagens. Para um empresário, penso em uma abordagem mais convergente, linear. Mas quando você avalia quem são os empresários que fazem a diferença, você vê que é a mesma coisa. Quando se trata de arte, nem todo mundo é criativo. Quem faz a diferença é uma minoria. Mas eles fazem a diferença por terem as mesmas qualidades de atitude (curiosidade, tendência a enfrentar fraquezas, enfrentar desconforto). Se essas qualidades forem aplicadas a um empresário, ele vai ser excelente, criativo e eficaz.

Como o senhor define curiosidade? Por que é importante ser curioso?

É a tendência de valorizar a informação inútil, que não serve para nada. Mas como eu posso saber de antemão o conhecimento que vai ser útil para problemas que eu ainda não defini? Veja o caso da Ebola. Há seis meses, quem diria que uma doença surgida em aldeias na África teria efeito na bolsa de valores como está tendo agora? Se alguém tivesse investido em uma questão assim há três anos, a pesquisa precisaria ser escondida. Agora o problema da Ebola já está ultrapassando o que confrontamos com a Aids na década de 1980. É muito sério. É exemplo de problema que ninguém previu. A maioria dos problemas ninguém prevê.

Então devemos valorizar qualquer tipo de informação, mesmo sem enxergar uma possível utilidade?

Quando você investe em uma informação é porque a valoriza ou porque está fascinado. Ela não é uma causa. É efeito. A questão é que nós vivemos relacionamentos complexos em termos familiares e sociais. Pessoas gostam de ser elogiadas por serem criativas e não se arriscam, pois preferem se manter em uma zona de conforto. A pesquisadora norte-americana Carol Dweck, da Universidade de Princeton, tem uma pesquisa fascinante sobre isso. Ela diz que, em geral, quem trabalha muito tem maior tendência a ser criativo do que pessoas entendidas como talentosas. Quem é apontado como talentoso não vai se arriscar, mas se cercar de problemas familiares.

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Charles Watson é educador e palestrante, especializado em processo criativo

Formado em arte e literatura pela Bath University (Inglaterra)

Ministra palestras em empresas desde a década de 1980, em empresas como Coca-Cola, Shell, Deloitte, Touche Tohmatsu e Arthur Andersen Leciona na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, desde 1982

Foi diretor do Centro de Arte Hélio Oiticica, além de consultor da University of Arts London

Organiza excursões pelo mundo todo com artistas e profissionais de áreas distintas para visitar museus, galerias e ateliês Já foi artista plástico, boxeador, cuidou da parte elétrica de carros alegóricos, vendeu helicópteros, deu aulas sobre Shakespeare e hoje faz flyfishing e constrói barcos

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