Gosto de analógico e daí? O mundo através da fotografia de Lúa Ocaña

A obra da espanhola não está ligada a datas. Pode ser lida como atemporal, sem localizador. Veja a entrevista exclusiva com a artista

por Vinícius de Brito 06/10/2014 09:13

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"Simplesmente, o analógico é meu mundo, é minha ferramenta, meu canal de criação." (foto: Facebook/Reprodução)
Um topete loiro do futebol é o novo garoto propaganda de uma empresa de câmeras fotográficas. Na TV, o craque segura um aparelho de alguns megabytes. Ostenta, mas não é o único. Um estudo de 2011 ouviu mais de oito mil consumidores de vários rincões do mundo e tachou: o Brasil lidera a venda de câmeras digitais – 30% compraram uma "belezinha" tecnológica igual à do artilheiro da Copa no ano anterior.

A conquista do digital não é, porém, glória dos trópicos. Na Espanha, somente em 2007, 18 milhões de câmeras digitais deixaram as prateleiras. Mas a alta definição fica à margem de fotógrafos profissionais, como a galega Lúa Ocaña. "Simplesmente, o analógico é meu mundo, é minha ferramenta, meu canal de criação."

E os cristais de prata das velhas películas registram a memória construída de Lúa. Em papel, a incongruência ora solitária ora em bando dos passarinhos – no projeto We're birds. Rainstorming: as velhas estradas de barro espesso que levam à inconsistência da vida. A beleza e movimentação irreparável do corpo tomado de luz no ensaio Conjunto vacío. Ou a simplicidade de Daily life nas manchas de muriçoca na perna.

"O uso de material analógico para capturar minhas imagens se deu porque é o suporte com o qual me sinto cômoda, o que me representa", define a si mesma. "O processo em si começa desde a eleição do filme até que eu tenha a imagem final diante dos meus olhos, é um período que se dilata muito em tempo, deixando-me espaço e tempo para essa lenta 'digestão' que me faz apropriar das imagens".

A obra de Lúa também passa pela intervenção. A artista costuma escrever, desenhar sobre as fotografias, além de rasgá-las. "Para mim, a intervenção é parte do processo também. Processos fotográficos são processos criativos onde a coluna vertebral é a fotografia, mas existem mais elementos relevantes", classifica.

Lúa reforça ainda que nenhum dos seus trabalhos é documental. "Eu relacionaria minha fotografia mais com recordações em forma de ilusão do que de memória propriamente dita", pensa a fotógrafa. O mundo de Lúa Ocaña não está ligado a datas. Pode ser lido como atemporal, sem localizador. Talvez seja esse limbo o caminho percorrido pela artista que se encantou pelo processo da luz que se impregna no papel e, quimicamente, talha a fotografia.



As fotografias de Lúa são, primeiramente, um estudo pessoal. Mas também, em segundo plano, representam um manifesto que abre espaço para as câmeras da "vovó", que constroem uma realidade transgressora do digital e do consumo de megabytes. "É complexo responder quando comecei a fotografar, somente vou datá-lo na primeira vez em que entrei num laboratório e revelei minha primeira instantânea, vendo assim aparecer a imagem na minha frente, um ato de excepcional alquimia. Foi no inverno de 2004."

Entenda o processo criativo do ensaio 'Lembranzas' comentado pela fotógrafa:

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