Cia. Crônica apresenta performances em ônibus da região metropolitana

Grupo de Contagem quer estimular a crítica social a partir da arte popular

por Ana Clara Brant 02/10/2014 07:30

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Túlio Santos/EM/D.A Press
(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
A atendente Luzilene Fernandes de Souza, de 20 anos, nunca assistiu a uma peça de teatro. Assim como o estudante Giovane César, de 17, e a auxiliar administrativa Dulcione Vaz, de 45. Mas, na segunda-feira, os três tiveram uma oportunidade no mínimo inusitada de estrear como espectadores nas artes cênicas. Nenhum deles estava dentro de uma casa de espetáculos, mas nem por isso a experiência deixou de ser especial. “Levei um susto porque entrei e achei que era um protesto ou algo do gênero, mas foi bem bacana. Tenho muita vontade de um dia ir a uma apresentação teatral”, revela Giovane.


Tanto o estudante como Luzilene e Dulcione eram um dos cerca de 50 passageiros de um ônibus de Contagem, que conferiram a performance do ator e diretor Jessé Duarte, da Cia. Crônica de Teatro. Vestido como um operário, ele encenou um texto de Marina Colassanti, 'Eu sei, mas não devia', de 1973, em que a escritora descreve hábitos que vão lentamente se acumulando com o tempo e como algumas decisões menores e aparentemente inofensivas acabam fazendo com que as pessoas se acostumem com o destino. “Ele é bastante reflexivo e as pessoas prestam atenção na mensagem que está por trás”, observa Jessé.

Seguindo o lema de que “todo artista tem que ir aonde o povo está”, o grupo criou, há quase um ano, o projeto de levar pequenas cenas da dramaturgia nacional e estrangeira dentro de um ônibus e a outros espaços não convencionais. “Se as pessoas prestam atenção nos vendedores de bala ou em quem desenvolve algum trabalho com dependentes químicos, por que não parariam para nos ouvir? A nossa expectativa não é que o público nos adore, mas o que a nossa interferência cria nele. Muitas vezes a gente pode ser o primeiro contato de arte na vida de um indivíduo”, destaca Jessé.

Em breve, o retirante de 'Vidas secas', o príncipe Hamlet de Shakespeare e até dom Quixote e sua amada Dulcineia, vestida de noiva, vão invadir os ônibus não só de Contagem, mas de outras cidades da região metropolitana. “Temos levado esta iniciativa para outros lugares, como Belo Horizonte, Sarzedo e até Juiz de Fora”, complementa o ator e diretor.

As cenas são interpretadas por um ou dois atores da Cia Crônica e, dependendo do ânimo ou cansaço do artista, eles costumam fazer até 10 viagens/apresentações por dia. Jessé acrescenta que 95% dos passageiros/espectadores, e inclusive os motoristas e cobradores, aprovam o trabalho teatral e até contribuem quando o chapéu é passado. “Ocorre de uma vez ou outra alguém não gostar. Mas sempre respeitam. É muito interessante a reação das pessoas. Você percebe pelo olhar como eles estão envolvidos. Para mim, o mais surpreendente é o contato direto com o ser humano”, salienta.

Luzilene Fernandes se encantou tanto que até filmou a encenação-relâmpago e disse que ia mostrar para a família e os amigos quando chegasse em casa. “Todo mundo que estava aqui no fundo do ônibus achou bem interessante. Sempre pego essa linha e nunca tinha visto isso”, disse. Já Dulcione Vaz, que estava voltando do trabalho, afirmou que foi um alento assistir a um trecho de uma peça, ainda mais dentro de ônibus. “Nunca ia imaginar que ia acontecer uma coisa dessas. Bom que dá uma desanuviada nesse estresse do dia a dia”, opinou.

NO BALANÇO Tudo começa assim: Jessé Duarte ou outro integrante da Cia. Crônica de Teatro responsável pela cena do dia seguem para um ponto de ônibus. Esperam passar um que não esteja nem muito vazio nem muito cheio. O ator entra com o figurino do personagem, paga passagem como qualquer passageiro e aguarda o melhor momento para a apresentação. “Senhoras e senhoras. Boa-tarde. Sou um artista de teatro. Gostaria de pedir licença a todos vocês passageiros, cobrador e motorista, para que a minha arte se torne passageira neste ônibus por alguns minutos também. Para não atrapalhar o cotidiano de vocês e para que a gente seja bem-vindo neste ônibus”.

A maioria das pessoas continua o que estava fazendo. Um está ao telefone; outro ouvindo música; uma mulher bate papo com a amiga. Mas basta Jessé começar a declamar as primeiras palavras do texto de Marina Colasanti para que os passageiros comecem a prestar atenção na cena, que dura cerca de oito minutos. Ao fim, muitos aplausos e quase todos contribuem com R$ 1 ou R$ 2 para o chapéu do operário da arte. “É uma tentativa generosa de conhecer a realidade dura de estar dentro de um ônibus, nesse calor, e proporcionar um pouco de arte e alegria para as pessoas”, resume Jessé.

Assista ao vídeo com a performance da Cia. Crônica de Teatro no ônibus:




Depoimentos

“Levei um susto porque entrei e achei que era um protesto, mas foi bem bacana. Tenho vontade de um dia ir a uma apresentação teatral”
 
TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS
(foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)
Giovane César, estudante

“Nunca ia imaginar que ia acontecer uma coisa dessas. Bom que dá uma desanuviada nesse estresse do dia a dia”

Dulcione Vaz, auxiliar administrativa


OUTRO PALCO


A Cia. Crônica de Teatro é grupo atuante em Contagem, interessando-se por uma atuação crítica e ligada às contradições do cotidiano da sociedade. O grupo atua em regiões da periferia operária da cidade, onde desenvolve espetáculos e projetos de formação visando à democratização do acesso à arte teatral, sempre com o viés político. Acreditando na transmissão de saberes a partir de processos colaborativos, a Cia. Crônica trabalha com núcleos para troca de experiências, criação, pesquisa e experimentação, sempre abertos para interessados. No dia 9, o grupo estreia o novo espetáculo, Coragem, às 20h, na Avenida Frei Henrique Soares, Praça dos Ciganos, no Bairro Inconfidentes.

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