Pinturas de grandes dimensões de Amilcar de Castro serão exibidas pela primeira vez em Minas Gerais

Artista usava as criativas vassouras que inventou para dar suas pinceladas

por Ailton Magioli 25/09/2014 07:30

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JOMAR BRAGANÇA/DIVULGAÇÃO
Estandartes visuais são a novidade da mostra 'Verticalidade', que será aberta sábado (foto: JOMAR BRAGANÇA/DIVULGAÇÃO)
Amilcar de Castro (1920-2002) costumava dizer que não era pintor, mas não se furtava a dar suas vassouradas em telas monumentais, nas quais usava cores que chamava de gráficas: azul, vermelho, amarelo e verde, além do preto e do branco.

'Verticalidade', exposição que será inaugurada sábado, na Lemos de Sá Galeria de Arte, reúne pinturas de grandes proporções (12m x 2m) do mestre mineiro, além, claro, de suas famosas esculturas em aço. Propositalmente, optou-se por peças de pequeno porte, com espessuras variando de 5cm a 15cm.

Dividindo o ambiente com estudos (desenhos de grafite sobre papel), as pequenas esculturas funcionam como contraponto às pinturas – verdadeiros estandartes. Os trabalhos são inéditos em Minas Gerais, informa Rodrigo de Castro, curador da mostra e filho de Amilcar.

As pinturas monumentais nunca foram mostradas no estado por carência de espaços adequados para recebê-las. “A surpresa fica por conta exatamente das dimensões, que dificultavam encontrar um local para expô-las”, relata Rodrigo, responsável pelo espólio do pai ao lado dos irmãos Pedro e Ana.

Pinacoteca
Originalmente pintadas para o vão central da Pinacoteca do Estado de São Paulo, na capital paulista, elas são o resultado de movimentos vigorosos, “nos quais o olhar trabalha através da memória e se apropria da vertigem como essência construtiva”, explica Rodrigo.
 
“Elas são extremamente simbólicas, estandartes visuais que se relacionam com o construtivismo, mas também, e principalmente, com a síntese do impulso criador, incorporando o corpo e o território como parceiros de um diálogo sensível, povoado por lembranças e reminiscências e perpassado pela história”, completa o curador.

Amilcar criou 12 grandes pinturas – por questão de espaço, cinco foram selecionadas para a exposição mineira. Elas já foram exibidas na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre (RS). “Acho que a pintura funcionava assim para o meu pai: agora vou descansar um pouco e deixar a minha mente executar algo que ela está fazendo com mais rapidez”, diz Rodrigo. Ele acredita que Amilcar, ao pintar, deixava de pensar o espaço e a forma, descansando a mente. Nesse momento, liberava-se para pensar na superfície, no plano e, principalmente, na linha – aspectos fundamentais de sua obra.

O Amilcar de Castro pintor tem características muito particulares. Ele encontrou na vassoura (e não no pincel) um recurso para viabilizar suas ideias diante das grandes dimensões da tela. “Quanto mais larga, menos pinceladas”, ressalta Rodrigo de Castro.

O escultor e pintor desenvolveu suas próprias vassouras em parceria com o arquiteto Allen Roscoe e o empresário Paulo Coelho, o Bolão. “Colocada na ponta de uma haste, a vassoura era alimentada por tubos de tinta”, recorda o filho, lembrando que o “pincel” do pai era “meio adaptado” diante das proporções gigantescas da tela.

Posteriormente, com a ajuda de Bolão, Amilcar de Castro desenvolveu uma vassoura à base de escovas emendadas – a maior quantidade de pelos facilitava a pintura. “Ele caminhava sobre o tecido e, com a vassoura, ia encontrando a direção que queria para a linha preta. Depois, colocava a cor”, revela Rodrigo de Castro. Com esse método, surgia um processo de trabalho singular. “De pé, na vertical, você percebe um ritmo, uma musicalidade criada pelo movimento do artista”, conclui Rodrigo de Castro.

Retrospectiva carioca

Em ano atípico de Copa do Mundo e eleições, todos os segmentos artísticos enfrentam dificuldades de mercado. Amilcar de Castro, no entanto, parece ser uma exceção, 12 anos depois de sua morte .

“A obra dele está inserida de maneira bastante positiva”, constata Rodrigo de Castro, que mantém o Instituto Amilcar de Castro, em Nova Lima, em parceria com os irmãos, Pedro e Ana.

Além de 'Verticalidade', que será aberta sábado, o artista vai ganhar retrospectiva monumental no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, em novembro. Paulo Sérgio Duarte é o curador. “Serão mais de 40 obras, incluindo esculturas de corte e dobra de grandes dimensões, que vão ocupar os jardins do MAM”, informa Rodrigo de Castro.

Paralelamente, a família negocia o ingresso de obras de Amilcar no acervo do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, que já conta com peças de nomes importantes da arte contemporânea brasileira, como Hélio Oiticica (1937-1980), Lygia Clark (1920-1988) e Mira Schendel (1919-1988).

VERTICALIDADE
Pinturas e esculturas de Amilcar de Castro. Inauguração sábado, das 11h às 16h. Lemos de Sá Galeria de Arte, Avenida Canadá, 147, Jardim Canadá, Nova Lima. De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h; sábado, das 11h às 14h. Até 25 de outubro. Informações: (31) 3261-3993.

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