Lançamentos literários debatem a temática racial no Brasil e no mundo

Obras propõem uma abordagem multifacetada do tema

por Maíra de Deus Brito 22/09/2014 09:47

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Akintunde Akinleye/Reuters
Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana (foto: Akintunde Akinleye/Reuters)
O romance 'Meio Sol amarelo', de Chimamanda Ngozi Adichie, foi lançado no Brasil em 2008, porém a autora nigeriana demorou para ser descoberta por aqui. Após proferir a palestra 'O perigo de uma única história', na Inglaterra, Chimamanda foi ganhando espaço em terras brasileiras que, em 2011, recebeu 'Hibisco roxo'. Hoje, conhecida mundialmente, a escritora é ícone do feminismo negro e teve seu discurso 'We should all be feminists' (Todos nós deveríamos ser feministas, em livre tradução) sampleado na música ***Flawless, da diva pop Beyoncé.

A obra mais recente, Americanah, não abandona o tema do feminismo, mas também passeia por encontros e desencontros amorosos e, acima de tudo, pelas questões raciais e imigracionistas nos Estados Unidos. A narrativa conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana que vai estudar nos EUA e que, 15 anos depois, se torna uma famosa graças ao blog Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana. Nos seus escritos, Ifemelu narra — de maneira detalhada e com um humor ácido — os conflitos entre estadunidenses, afro-americanos e imigrantes africanos.

Eleito como um dos 10 melhores livros de 2013 pela New York Times Book Review e vencedor do prêmio National Book Critics Circle Award, Americanah vai virar filme. Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por 'Doze anos de escravidão', comprou os direitos para o cinema. A atriz queniana afirmou ter ficado encantada com a história de Ifemelu e Obinze. Além de produzir o longa-metragem, Lupita deve interpretar a protagonista da história.

Mandela e escravidão
Outros lançamentos literários, como 'Mandela: Meu prisioneiro, meu amigo', também abordam a questão racial. O livro de Barbara Jones, correspondente na África para o jornal britânico Mail on Sunday, mostra a improvável história de Christo Brand, o carcereiro pessoal de Nelson Mandela, que se tornou colega do ativista negro. A obra não é um mergulho político nas questões sobre o apartheid, porém revela como o regime segregador marcou a vida de todos na África do Sul.

Brand recorda que, na infância, desconhecia “as cruéis fronteiras raciais” no país em que vivia e que só passou a entender aquele regime quando chegou para trabalhar no presídio de segurança máxima na Ilha de Robben. Naquele local, ele conheceu e passou admirar o homem que era “cortês e humilde” e que fez questão de retomar o contato com o ex-carcereiro quando estava em liberdade. Um dos episódios mais marcantes foi a morte da mãe de Nelson Mandela. Como primogênito, a tradição exigia a presença de Mandela em um momento tão delicado e estar longe e atrás das grades fez com o que o líder anti-apartheid chorasse de vergonha e de desalento.

O ex-carcereiro presenciou momentos tristes, mas também foi responsável por momentos felizes. Ele colocou em risco o próprio emprego para proporcionar uma alegria inesquecível ao amigo: permitiu que Winnie, então esposa de Mandela, levasse em segredo a neta do casal e colocou o bebê nos braços do líder sul-africano.

Com o objeto de pesquisa voltado para a trajetória brasileira, 'Da escravidão ao trabalho livre — Brasil, 1550-1900' retoma 350 anos da economia do país para explicar a decadência da escravidão e a ascensão do trabalho assalariado. O livro — com mais de 800 páginas — é a versão adaptada do doutorado de Luiz Aranha Corrêa do Lago, defendido na década de 1970, na Universidade de Harvard (EUA).

Disponível em poucas bibliotecas, a pesquisa chega ao público como um raro exemplar que une história, economia e sociologia. A obra é fundamental para entender as transformações nas relações trabalhistas nos estados do Sul e do Sudeste brasileiro, que afetaram, sobretudo, a população negra.

Reprodução
(foto: Reprodução)


Americanah
De Chimamanda Ngozi Adichie
Companhia das Letras, 520 páginas, R$ 54,00 e R$ 38,00 (e-book)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reprodução
(foto: Reprodução)


Mandela: Meu prisioneiro, meu amigo
De Barbara Jones e Christo Brand
Editora Planeta, 271 páginas, R$ 39,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reprodução
(foto: Reprodução)


Da escravidão ao trabalho livre — Brasil, 1550-1900
De Luiz Aranha Corrêa do Lago
Companhia das Letras, 816 páginas, R$ 98,00 e R$ 39,50 (e-book)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para saber mais

Ícone negro

Nelson Mandela nasceu Rolihlahla Dalibhunga. Como uma profecia, “Rolihlahla” indicava uma das principais características do ativista negro: no dialeto xhosa, o nome significa “criador de caso” ou “encrenqueiro”. Por lutar contra o regime do apartheid, que segregou brancos e negros, foi condenado e preso por 27 anos. Em 1994, quatro anos após ser libertado e um ano após receber o prêmio Nobel da Paz, foi eleito presidente da África do Sul. Em novembro do ano passado, aos 95 anos, Nelson Mandela morreu vítima de complicações decorrentes de uma infecção pulmonar.

Trecho

'Americanah', de Chimamanda Ngozi Adichie

“A Nigéria passou a ser o lugar onde Ifemelu deveria estar, o único lugar onde poderia fincar suas raízes sem sentir vontade constante de arrancá-las de novo e sacudir a terra. E, é claro, também havia Obinze. O primeiro homem que ela amou, o primeiro com quem fez amor, a única pessoa para quem nunca tinha sentindo necessidade de se explicar. Ele agora era casado e tinha uma filha, e os dois não se falavam havia anos, mas Ifemelu não podia fingir que ele não era parte dessa saudade do país, ou que não pensava nele com frequência, revirando o passado, procurando por presságios de algo sem nome”.

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