Em entrevista, Pedro Bandeira diz que jovens não são alienados e garante: ''Eles me provam que é gostoso viver''

Fenômeno da literatura brasileira, autor revive em novo livro o grupo Os Karas, personagens lançados há 30 anos em 'A droga da obediência'

por Ângela Faria 22/09/2014 00:10

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Aos 72 anos, Pedro Bandeira é um dos escritores brasileiros mais queridos do público. Lançou cerca de 80 títulos e vendeu mais de 30 milhões de exemplares. É autor da Coleção ‘Os Karas’, a famosa série infantojuvenil que reúne os volumes ‘A droga da obediência’ (1984), ‘Pântano de sangue’ (1987), ‘Anjo da morte’ (1988), ‘A droga do amor’ (1994), ‘Droga de americana!’ (1999) e o recém-lançado ‘A droga da amizade’ (Editora Moderna, 168 páginas, R$ 41). Com fortes pitadas de supense, os personagens são estudantes do Colégio Elite. Tentam desvendar crimes e sequestros, lutam contra a eliminação de índios e para preservar animais em extinção. Eles encaram até o Anjo da Morte, um ex-oficial nazista. Nesta entrevista, o autor fala de seu ofício, do relacionamento com os leitores e de sua fé na juventude. Sexta-feira, Pedro Bandeira chega a BH para autografar seu novo livro, às 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Diamond Mall (A. Olegário Maciel, 1.600, Lourdes).

 

Editora Moderna/divulgação
Autor vive conectado ao público alvo: ''me interesso por todos os aspectos dessa juventude, por cada olhar, observo cada lágrima, cada gargalhada, cada bagunça, cada esperança que eles me apontam'' (foto: Editora Moderna/divulgação )
EM: A Coleção ‘Os Karas’ é um fenômeno editorial brasileiro, como todos sabemos. O senhor volta a publicar ‘A droga da amizade’ 14 anos depois do último volume da série. Em agosto, o senhor foi uma das sensações da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde lançou o novo trabalho. Qual é o segredo para encantar tanto a garotada dos anos 1980 quanto a moçada do século 21?

 

Pedro Bandeira –

Chegar aos 30 anos depois do lançamento de ‘A droga da obediência’ só me trouxe alegrias. Literatura é o colo impresso. Pra mim, sempre foi. E é uma delícia descobrir que a minha literatura tenha servido como colinho quente pra tanta gente por tanto tempo! Agora, aos 72 anos, meu oxigênio é receber de volta o carinho de pessoas dos 10 aos 30 e tantos anos. Meus "velhos" leitores, os meus "filhinhos" de 30 vieram me abraçar, enquanto os meus "netinhos" de 10 ou 11 continuam procurando o meu colo e mostrando que meus textos não envelheceram. Como sonhar com emoções mais fortes do que esta? Meu segredo? É certo que é essa troca de amor.

 
‘A droga da amizade’ traz os antigos personagens da série, agora crescidos. É uma forma de continuar fisgando o leitor de anos atrás, jovem adulto agora? Ou seja, no mesmo livro o senhor dialoga tanto com o pré-adolescente contemporâneo quanto com o antigo leitor, que já cresceu. Como amarrar essas duas pontas, digamos assim, numa história? É complicado?

 

Pedro Bandeira –

Levei uns 12 anos tentando criar esse "anzol" que você muito bem descobriu. Como foi difícil! Durante todos os 30 anos de existência da série, primeiro muitas cartas e agora inúmeros e-mails sempre exigiam mais aventuras com os Karas. Escrevi mais quatro (volumes), mas logo surgiu um grande problema: a série nasceu no início dos anos 1980, quando ainda não havia o telefone celular nem o computador pessoal, a internet, o Google, o correio eletrônico nem o Facebook. Como escrever uma nova aventura em pleno século 21, sem os Karas se utilizarem disso tudo, que é tão banal para meus jovens leitores? Mas, se os Karas usassem tudo isso, seriam os mesmos personagens dos livros anteriores? Iniciei muitas ideias, abandonei-as, retomei-as, reescrevi tudinho, passei momentos de desistência, até chegar à conclusão de que, se os Karas tinham por volta de 12, 13 ou 14 anos na década de 1980, teriam mais de 40 agora. E, com essas idades, no que teriam eles se transformado? Quais suas profissões? Com quem Magrí se casou? Ao mesmo tempo, que tal fazer o líder Miguel, já adulto, recordar como reuniu essa fabulosa turma? Como os códigos secretos foram inventados? Por esse caminho ficou mais fácil escrever o que estou lançando hoje: ‘A droga da amizade’.

 

Vários best-sellers destinados ao público infantojuvenil apostam tudo no mundo da fantasia, vampiros, bruxinhos etc. Em ‘A droga da amizade’, há temas mais concretos, como a paz no Oriente Médio, por exemplo. Hoje em dia, tramas do mundo real atraem os jovens?

 

Pedro Bandeira –

Nós, os escritores brasileiros, temos dificuldade de aderir à moda criando textos com bruxinhos e vampiros, porque essa fantasia não faz parte do folclore brasileiro, não compõe o DNA de nossa formação cultural. Para os pequenos, até é possível usar bruxinhas, como faz minha amiga Eva Furnari, mas como criar um vampiro de calção da Praia de Copacabana ou uma bruxa perseguindo adolescentes na Avenida Paulista? Só se for como recurso de humor! Eu adoraria criar uma aventura fantástica para jovens, mas, embora pense nisso o tempo todo, ainda não encontrei um caminho menos ‘estrangeiro’ para trilhar. Ainda não desisti e tenho certeza de que ainda chego lá. Mas tratar das concretudes do mundo atual (embora metaforicamente, como faço) é bem recebido pelos adolescentes que começam a despontar para a vida e perceber injustiças, fome, miséria e violência à sua volta e sentem irreprimível impulso de atuar na sociedade, de protestar, de transformar. Meus leitores são os verdadeiros Karas, o avesso dos coroas, o contrário dos caretas!

 

Ao optar por esses temas, o senhor busca chamar a atenção da garotada para questões políticas e, digamos, ‘desaliená-la’? A gente vê meninos e meninas muito jovens dizendo ter ódio de política, coisas assim...

 

Pedro Bandeira –

Nem todo gato é pardo, nem todo ser humano é igual. Alguns jovens dizem que não gostam de ler e se mostram alienados da realidade, mas o número de adultos assim é bem maior. Cada vez há mais jovens lendo com prazer e ansiando por participar da vida como ela é, querendo se fazer ouvir. Em meus livros, nem todos os alunos do Colégio Elite fazem parte da Turma dos Karas, só cinco deles. Assim funciona o mundo: apenas uma minoria se destaca, procura mais o conhecimento, lê mais e luta com mais afinco por um papel de destaque na vida adulta que está construindo. Como ressaltei anteriormente, o Brasil sempre foi o país da exclusão. Exclusão de tudo, exclusão da liberdade e, principalmente, da cultura e do conhecimento: 485 anos depois do nosso descobrimento, no fim da ditadura militar, metade da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza. Um em cada quatro de nós era considerado indigente. O analfabetismo grassava, só havia vagas nas escolas para metade da nossa população de crianças e jovens: éramos um país realmente periférico. Menos de 30 anos depois de termos conquistado a democracia, nosso país é outra coisa. A miséria e a exclusão vêm diminuindo, criamos vagas nas escolas para a totalidade de nossas crianças, as ruas enchem-se de jovens querendo participar da política, querendo ser ouvidos, protestando contra o que consideram errado, e o mercado de livros para jovens aumenta a cada dia. Não sou eu que ajudo os jovens a se ‘desalienarem’. Eles procuram os meus livros porque foram desalienados por seus pais, por seus professores e pela literatura que estão consumindo desde o berço, no colo das mães, nas historinhas que ouvem nas escolas, nos livrinhos que suas professoras os fazem ler, nas janelas que a democracia escancara a seus olhos para que possam construir uma nova cultura brasileira, justa e desenvolvida.

 

Como o senhor vê o jovem para quem escreve? Que garotada é esta?

 

Pedro Bandeira –

Essa garotada é o futuro e escrevo para ajudá-los a construir esse futuro. Eu me interesso por todos os aspectos dessa juventude, por cada olhar, observo cada lágrima, cada gargalhada, cada bagunça, cada esperança que eles me apontam. Não sou eu que lhes forneço a esperança; são eles que me provam que é gostoso viver.

 

Muita gente diz que a meninada do século 21 é desinteressada dos estudos, não gosta de ler, não tem o menor interesse de passar o olho no jornal ou ouvir o noticiário da TV. Há quem considere esses meninos, de todas as classes sociais, escravos do consumismo, da ostentação de marcas caras de tênis e roupas. Há muitos professores se queixando da extrema agressividade dessa garotada, inclusive dentro das salas de aula. Como lidar com esses jovens?

 

Pedro Bandeira –

Há muitos velhos que adoram dizer ‘no meu tempo é que era melhor’. Era nada! Meu tempo é hoje, e tem de ser do jeito que os jovens querem que seja. Eles estão ligados, sim. Não gostam do noticiário da TV porque acreditam ser manipulado, não crítico, cheio de não-me-toques. O caso da violência em sala de aula é um outro aspecto, que mereceria um ensaio sociológico que não caberia aqui. Mas, para não deixar esse problema tão importante de lado, aponto uma causa primordial que anda caraminholando no meu cérebro há tempos: o Brasil sempre foi o país da exclusão, durante quase 500 anos. A escola só existiu para uma minoria aristocrática, numericamente ínfima. Havia, no século 19, quem dissesse, contra a alfabetização dos escravos, que ‘a escravo não se ensina, surra-se’. Assim, séculos de exclusão formaram uma maioria marginalizada, que sequer sonhava em progredir através do ensino, do acesso à escola. Quando, por fim, a partir do final do século 20, pela primeira vez experimentamos a democracia e passamos a oferecer a oportunidade da escola para todos, na prática fomos ‘obrigados a obrigar’ algumas famílias a levarem seus filhos para a escola, tendo até mesmo de oferecer-lhes dinheiro em troca da frequência dos seus filhos às aulas. Por isso, muitos desses jovens não foram criados no desejo de estudar e para eles a escola e sua disciplina são obrigações indesejadas. Este é o estopim da violência contra professores. Apresento esse parecer como uma provocação para o debate acerca desse enorme problema.

 

 

Editora Moderna/divulgação
Escritor sinaliza projetos ligados a elementos fantásticos, como vampiros: ''Eu adoraria criar uma aventura fantástica para jovens, mas ainda não encontrei um caminho menos 'estrangeiro' para trilhar'', diz (foto: Editora Moderna/divulgação )

 

O senhor se comunica diretamente com o jovem leitor em redes sociais via internet?

 

Pedro Bandeira –

Não, não é pela internet que os acompanho. Vivendo é que os acompanho. O trabalho de qualquer artista, seja um compositor, um pintor ou escritor, depende de sua sensibilidade, de sua capacidade de sentir o que vê, o que observa. Eu sinto o meu leitor. Se sinto errado, ele que me diga.

 

Como o senhor avalia o atual momento da literatura infantojuvenil no Brasil? Por que ela está ‘bombando’, como diz a garotada? É difícil para o escritor brasileiro concorrer com a ‘invasão estrangeira’, com seus Harry Potters e vampiros?

 

Pedro Bandeira –

Não há concorrência. O Harry Potter, por exemplo, é um arraso que conquista e cria leitores para mim e para todos os escritores! Nós, os escritores brasileiros, fazemos parte da revolução cultural que todo o mundo anda criando e com todos estamos aprendendo. Se um escritor, seja ele brasileiro ou não, consegue conquistar um novo jovem leitor para o gosto pelo colo da literatura, ele não é meu concorrente: ele está criando um novo consumidor que poderá vir a ler algo que escrevi! Se temos Jeanne Rowling de um lado, temos Marisa Lajolo com seu ‘O poeta do exílio’ de outro, temos Luiz Antônio Aguiar com seu ‘O cavaleiro das palavras’ ou seu ‘Alqueluz, uma aventura das Arábias’, temos um Walcyr Carrasco com seu ‘A corrente da vida’ ou ‘Vida de droga’, além dos maravilhosos clássicos de João Carlos Marinho, Marcos Rey e tantos, tantos outros, que até dá vontade de ser menino de novo pra curtir essas maravilhas!

 

 

 



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