Duas peças em cartaz na capital discutem a crise em salas de aula

Espetáculos 'Conselho de classe' e 'Dente de leão' propõem novos olhares sobre os conflitos entre professores e estudantes

por Carolina Braga 16/09/2014 08:30

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DALTON VALÉRIO/DIVULGAÇÃO
Conselho de classe usa o humor para refletir sobre inquietações e dramas dos professores (foto: DALTON VALÉRIO/DIVULGAÇÃO)
A relação sempre foi tensa, mas há quem garanta: agora, está pior. As profundas mudanças nos processos de comunicação e informação contemporâneos afetam em cheio a escola e exigem discussão urgente, que, felizmente, não se restringe ao âmbito acadêmico. Ela contamina a arte, sobretudo o teatro.

Em BH, estão em cartaz dois espetáculos que ajudam a refletir sobre a crise da educação. Cada um à sua maneira, 'Conselho de classe', da carioca Cia. dos Atores, e 'Dente de leão', do grupo mineiro Espanca!, levam o tema para o palco. “Este é o papel: fazer pensar, rir e despertar sentimentos que implicam em uma reflexão”, afirma o pesquisador e professor universitário Juarez Dayrell.

Criado por ocasião dos 25 anos da Cia. dos Atores, 'Conselho de classe' recebeu 18 indicações e ganhou oito prêmios em 2013. A peça reproduz um conselho formado por professoras do ensino médio. Em meio à discussão sobre a insubordinação dos adolescentes e os desafios da aprendizagem contemporânea, a dramaturgia de Jô Bilac revela que os problemas em sala de aula refletem a sociedade em que vivemos.

Hoje à noite, o espetáculo ficará em cartaz no Teatro Francisco Nunes como parte da programação do Encontro Mundial de Artes Cênicas (Cit-Ecum). Além da peça, haverá um fórum de discussões sobre a crise na escola. Participam da mesa-redonda a diretora Bel Garcia, da Cia. dos Atores, e os professores Juarez Dayrell e Shirley Miranda, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.

“Tenho a expectativa de conseguir nos ver no palco. É o efeito do teatro: às vezes, ele nos mostra o que cotidianamente não conseguimos perceber. A ideia é provocar mesmo”, comenta Shirley Miranda. Para ela, os dilemas da educação sempre esbarram em certo saudosismo. “Espero que a gente consiga enfrentar aquela ideia de que o aluno de antes era melhor”, afirma.

Ao usar a escola como um microcosmo da sociedade, 'Conselho de classe' não se restringe aos dilemas da educação. O tema partiu do dramaturgo Jô Bilac, que nutria há tempos vontade de trabalhar com a companhia carioca. “Ele entregou quatro arquétipos de professores e o diretor. Aí, a gente logo dividiu os papéis e o texto foi vindo aos poucos. Tivemos bastante tempo para esmiuçar os personagens”, conta Bel Garcia.

A diretora explica que não bastava um texto realista. “Isso poderia ser chato ou maçante. Eu queria uma identificação com a plateia”, revela. O caminho encontrado foi o humor. Em Conselho de classe, Leonardo Netto, Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux interpretam professoras, mas sem qualquer trejeito. “Por mais que seja realista, é uma obra de ficção. Queria que isso ficasse bem claro”, destaca Bel.

Ano passado, o espetáculo estreou na sede do grupo, na Lapa. Até os primeiros encontros com o público, Bel Garcia não tinha dimensão do que a peça poderia causar. Para ela, 'Conselho de classe' diz, no fim das contas, sobre o ser humano. “Terminamos com uma esperança, pois esse problema não vai se resolver. Sabemos que não é simples e não apontamos nada. Pretendemos apenas discutir, o que já é muito”, completa.

O educador Juarez Dayrell saiu da sessão de Conselho de classe com uma sensação ambígua. “De um lado, como professor, eu me vi refletido. Ao mesmo tempo, há a angústia de constatar a situação a que chegamos. As relações humanas estão em crise. A peça retrata essa tensão: fala sobre a pressa do dia a dia, a falta de escuta. É positivo, porque faz pensar, reagir”, diz ele. Para Dayrell, a própria escola já aponta algumas soluções para a crise. “A relação com o aluno é o coração da docência. Se o professor consegue estabelecer uma boa relação, as coisas caminham. Você cria a predisposição para construir algo em comum”, observa.

O professor defende o papel da cultura nesse processo. Não no sentido estrito das artes, mas em seu sentido mais amplo: os modos de vida, visões de mundo. “É a escola como espaço cultural. Pena que, às vezes, as instituições reduzam a cultura ao ensino de arte, quase sempre precário, em vez de pensar nas expressões mais amplas. Escola não é só racionalidade”, adverte.

'CONSELHO DE CLASSE'
Com Cia. dos Atores. Teatro Francisco Nunes, Parque Municipal, Av. Afonso Penna, s/nº, Centro, (31) 3277-6325. Hoje, às 19h e 21h. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Mesa-redonda sobre educação hoje, às 20h20, logo depois do encerramento do espetáculo. Entrada franca.

 
 
Gabriel Caram/divulgação
'Dente de leão' usa a tradicional feira de ciências como palco de embate entre mestres e alunos (foto: Gabriel Caram/divulgação)
O olhar do aluno


Falar sobre educação não estava nos planos iniciais do Espanca! para sua nova peça. No exercício de garimpar um tema, apareceu, primeiro, o texto chileno 'La mala clase'. “Já tinha algo de sala de aula, uma discussão de aluno com professor. Aí o Assis Benevenuto trouxe o argumento de Dente de leão”, conta o ator Marcelo Castro, que dirigiu a montagem.

A trama se inspira numa feira de ciências de colégio. Insatisfeitos, alunos preparam apresentação surpreendente para o tradicional evento de fim de ano. Marcelo Castro conta que toda a reflexão surgiu de modo intuitivo durante o processo de montagem. “Por motivos da peça e técnicos, os professores acabaram representados de maneira muito farsesca. O olhar sobre eles ficou muito ácido”, explica.

'Dente de leão' estreou no dia 10, no CCBB. Só agora Marcelo Castro consegue compreender a dimensão social do trabalho. Em conversas com professores e alunos que já passaram pela plateia, ele percebeu que muita gente se reconhece no que vê no palco. Uma questão chave nesse processo é o papel das representações sociais. Em vez de simplesmente reclamar do fato de que todos nós – não apenas professores, alunos, atores – criamos nossos próprios personagens para viver em sociedade, a peça assume: não há como evitar cumprir esse papel.

“A história é conduzida pelo olhar dos alunos, mas em momento algum deixamos de mostrar que aquilo é uma obra de arte. Ao revelar a encenação, fazemos com que o próprio teatro seja parte do discurso. Ou seja, estamos aqui representando o nosso papel de artistas, dizendo essas coisas para vocês”, conclui o diretor do Espanca!.

'DENTE DE LEÃO'
Com Grupo Espanca!. CCBB, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9446. De amanhã a sexta-feira, às 20h; sábado e domingo, às 19h; e segunda-feira (último dia), às 20h. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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