Beatriz França volta à Praça da Liberdade para encenar 'Talvez eu me despeça'

Local foi palco da estreia de Beatriz ao lado de Cecília Bizzotto, assassinada em 2012

por Jefferson da Fonseca Coutinho 29/08/2014 10:55

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Marcos Michelin/EM/D.A Press
Beatriz França com a máscara que usou para contracenar com Ciça Bizzotto em 'Trabalhos de amor perdidos', em 2007 (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
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as mãos da atriz, o vestido vazio é tomado pelo vento. Um sopro dos céus debulha a buganvília cor-de-rosa cheia de presença. A chuva de pétalas cobre a arena emblemática do primeiro encontro em cena de Beatriz França e Cecília Bizzotto, a Ciça. O pássaro negro, garboso, pulula na alameda. Cenas marcantes de um entardecer. A Praça da Liberdade foi o lugar escolhido pela protagonista de 'Talvez eu me despeça', peça em cartaz na Funarte, para falar sobre o desafio de transformar em arte tragédia e estupidez. O assassinato de Ciça, em 7 de outubro de 2012, “atravessou” toda a gente de bem de Belo Horizonte – um retrato da violência que assombra e dilacera multidões.

Foi para devolver profundidades que Beatriz França decidiu homenagear a amiga, cuja vida foi roubada aos 32 anos, numa madrugada de terror no Bairro Santa Lúcia, na Região Centro-Sul. Ciça levou um tiro no peito durante assalto na casa em que vivia com a família. O crime causou revolta e levou cidadãos às ruas em mobilização pela paz. A menina franzina, artista de vigor e estatura, foi calada no alto de sua florescência: mãe, querida por muitos, envolvida em uma série de projetos e engajada em política cultural que acreditava ajudar a transformar a cidade. Naquela primavera, o disparo assassino “atravessou” a menina-flor.

Atravessar é o verbo mais usado por Beatriz para tentar decifrar seu próprio envolvimento com o processo de criação de 'Talvez eu me despeça'. “É uma exposição muito grande. Sempre me escondi em cena. É a primeira vez que me sinto verdadeiramente atravessada”, emociona-se ela. Comovida, diz que sente a plateia “atravessada” com a homenagem. Para levar o solo à cena, a atriz de 33 anos, precisou se revirar, sem amarras ou medos. Reinventar-se fora das técnicas de interpretação, acumuladas em 20 anos de carreira, para, sob as luzes, ser ela mesma. Um exercício de maturidade complexo para o espectador, que conhece apenas “de leitura” o trabalho do ator. “Não tenho personagem”, diz Beatriz. “Em cena sou a Bião, como a Ciça me chamava.”

Beatriz passou quatro anos longe dos palcos – desde '1999=10', dirigida por Dudude Hermann. “Silenciosamente, fiz um pacto comigo: só voltaria à cena se fosse atravessada por algo urgente e necessário.” Com os olhos marejados, revela que se a amiga não tivesse desaparecido não teria coragem de voltar ao palco em performance tão arriscada. “Nesse espetáculo, falamos do risco permanente do encontro com a despedida. Digo ao público: vou sair por aquela porta a qualquer momento. Pode ser que me despeça, pode ser que não”, emociona-se novamente.

Para Beatriz, o trabalho só foi possível graças ao apoio da família de Ciça e à entrega emocional de todos os integrantes da montagem. “Depois de assistir a 'Tributo a John Cage', fui tocada pela urgência. Decidi que queria homenagear a Ciça. Liguei para a Ludmilla Ramalho, que topou na mesma hora”, conta. Ludmilla e Nando Motta são os responsáveis pela Cia. Afeta, produtora do solo. Generosa, Beatriz destaca o carinho de Christina Fornaciari, Daniel Toledo, Carlosmagno Rodrigues, Leonardo Pavanello, Ana Luisa Santos, Amanda Prates e Patrícia Bizzotto – todos às avessas, também “atravessados” pela proposta.

O batom vermelho na boca da entrevistada pertenceu a Ciça. Beatriz herdou várias lembranças da amiga. O vestido vazio, tomado pelo vento na Praça da Liberdade, era da menina-flor debulhada em primavera trágica. A roupa que se vê no palco também era de Cecília. Fotografias e vídeos vistos em cena, reunidos com o apoio de amigos e familiares, extrapolam o roteiro da festa de despedida levada por Bião ao Galpão 3 da Funarte. O momento de Beatriz é de paixão pelo ofício. “Um aprendizado absurdo de uma nova forma de estar em cena”, resume.

Era Dia de Shakespeare. Em 26 de abril de 2003, na Praça da Liberdade, Ciça Bizzotto e Beatriz França deram vida a 'Hamlet em 15 minutos', com direção de Marcos Vogel. Ofélia e Gertrudes se confundem na obra da Companhia Lúdica dos Atores, adaptada por Aimara Resende. Dali em diante, foram quase 10 anos de respeito, amizade e carinho.

A última vez que as duas amigas se viram foi durante monólogo escrito a quatro mãos pela dupla, em 31 de agosto de 2012. Naquela noite, um marco: a projeção de um experimento audiovisual de Ciça. O vídeo, feito na Inglaterra, chamava-se Sou apenas uma pétala.

'TALVEZ EU ME DESPEÇA'
Direção: Ludmilla Ramalho. Com Beatriz França. Galpão 3 da Funarte, Rua Januária, 68, Floresta, (31) 3213-3084. Sexta, às 20h; sábado, às 17h e às 20h; e domingo (última sessão), às 19h. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
 
Assista à homenagem do Grupo Tronco para a atriz Cecília Bizzotto:
 

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