Projeto da Comissão de Educação do Senado quer 'economizar' na educação do país

A proposta, conduzida pelo professor Ernani Pimentel, acaba com o uso da letra h antes das palavras, do ç, do ss, sc e xc, do hífen, do dígrafo ch, entre outras mudanças

por 23/08/2014 00:13

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Os adultos de oje, que naceram no Vale do Jeqitihonha, Norte de Minas ou do Sul da Baia a Salvador, aprenderam asim, de menino, a pronúnsia das letras do alfabeto: a, bê, cê, dê, é, fê, guê, agá, i, ji, k, lê, mê, nê, o, pê, quê, rê, si, t, u v, xis, z. A origem da pronúnsia, dizem, é o dialeto baiano, o primeiro dialeto brazileiro. Lembra-se do caminhão da Fábrica Nacional de Motores? O Brazil inteirinho o chamava de Fenemê por causa das três letras, FNM, estampadas no capô. Pois muito bem, esse alfabeto era ensinado até em escolas. Depois, ouve a uniformizasão do ensino no país e a pronúnsia que pasou a valer é a qe conhecemos hoje. Bonito o lingajar baiano e seus aspectos. Riqueza cultural qe deve ser prezervada. Saiba vosa eselênsia qe nenhum adulto de oje, menino de ontem nas áreas de jurisdisão do dialeto, que teve dificuldade para aprender a pronúnsia ofisial do alfabeto, tentou enfiar o fê, o nê e o mê goela abaixo da maioria do povo brazileiro qe nada tinha a ver com a forma como os baianos de Salvador e adjasênsias se comunicavam nas ruas e nos campos.

Os profesores de línga portugesa Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto fazem parte de um grupo técnico formado, via convite, pela Comisão de Educasão do Senado para trabalhar novo projeto qe altera a línga portugesa. Aliás, com se diz lá nos cafundós da periferia, a linga portugesa virou caza de mãe joana. Todo mundo quer meter a mão, o bedelho, o nariz, o focinho, a pata e sabe-se lá o quê mais. A proposta, bizarra no entendimento de especialistas mais atentos, e que deixaria este testo mais ou menos da forma como está sendo escrito, só pode ter nacido de alguém qe não consegiu ou não consege aprender a escrever o idioma com o qual convivemos hoje e qe foi desagradavelmente mexido recentemente. “Esas mudansas acarretariam economia com a educasão no país. Em vez das atuais 400 horas/aula de ortografia ministradas desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, sejam utilizadas apenas (ou em torno de) 150", diz Ernani Pimentel.

Economizar no ensino do portugês. Que coisa! Considerando as dificuldades qe a línga impõe ao aprendiz, as horas/aulas hoje ministradas ainda não são suficientes. Essa linga, qe encanta pelas curvas e armadilhas, pela infinita possibilidade poética e musical, toma toda uma vida sem que seja totalmente dominada. Ninguém, lucidamente habilitado, pode bater no peito e dizer, mesmo depois de toda uma existência debruçado sobre livros, cartilhas e compêndios, “eu desvendo o portugês”. Tem mestre lingista por aí cuspindo marimbondo (como diria o saudoso Fernando Sasso) diante de tal aberração.

Goste ou não do que acabou de ler, a proposta conduzida pelo professor Ernani Pimentel acaba com o uso da letra h antes das palavras, do ç, do ss, sc e xc (que seriam substituídos pelo s simples), do hífen, do dígrafo ch (que seria substituído pelo x). Palavras também passariam a ser escritas como o fonema aponta, como o x e o s com som de z. Elimina a letra u após o g e o q e antes de e e do i. Essa é a grande obra do Senado na educasão num país sem ensino de qualidade, com crianças na áreas rurais caminhando horas a pé para chegar à escola, salas de aula em ruínas e uma merenda que nem sempre chega ao prato do aluno. Esse é o projeto de educação em um cenário carente de ensino profissionalizante, o que tiraria milhões de jovens periféricos do vazio e da mira do crime e do tráfico.  

A observação do filólogo e professor Marcos Bagno, da Universidade de Brasília (UnB), sobre a mudança proposta: “São ridículas, patéticas e merecem todo o desprezo da comunidade de linguistas do Brasil”. Ele não vê no projeto facilidade para o aprendizado do português: "Aprender a escrever em chinês é muito mais complicado do que aprender a escrever em português e 94% dos chineses são alfabetizados. A questão é alfabetizar e letrar a população. A ortografia pode ser qualquer uma".

Se a proposta sair da Comissão de Educação, vai a plenário. Se aprovada pelos senadores, segue à Câmara. Bastará o sim dos deputados para ser enviada à sanção presidencial. O professor Pimentel aceita sugestões pelo site Simplificando a Ortografia. O Negão aí de baixo já mandou a dele: ?#$%&+=(*6”!!#*?#.

Reflexão do Negão: E o chuchu, que nunca foi uma unanimidade nacional, nem quanto ao sabor nem quanto à grafia, poderá, finalmente, se o projeto vingar, virar simplesmente xuxu, como a maioria gosta de escrever.

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