Carlos Rocha, retoma o trabalho como diretor com 'O urro!'

Encenador leva para o palco um criativo diálogo entre artes cênicas e os quadrinhos. Espetáculo estreia amanhã, na ZAP 18

por Jefferson da Fonseca Coutinho 14/08/2014 08:33

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Fotos: Leandro Couri/EM/D.A Press
Sozinho no palco, o ator André Senna se relaciona com várias possibilidades expressivas, que dão sustentação a um texto rico em metáforas (foto: Fotos: Leandro Couri/EM/D.A Press)
'O urro!' não é apenas um espetáculo de múltiplas linguagens. É um trabalho de Carlos Rocha, o Carlão. E quem o conhece sabe que isso também quer dizer provocação. Homem das artes cênicas e de muitas lidas com o poder público pelo setor, Carlão foi diretor do Teatro Francisco Nunes por mais de uma década e um dos principais responsáveis pela história de sucesso do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (Fit-BH). E não foi o lado administrador, severo e sem concessões, o único a conquistar respeito na cultura. O outro lado, o criador, é ainda mais valioso para quem entende a cena além do entretenimento e da vida pública de circunstância.

Daí a satisfação de Gil Amâncio, Lelis e André Senna com a estreia de 'O urro!', amanhã, às 21h, no espaço da Cia. ZAP 18, no Bairro Serrano, na Região Noroeste. A peça marca a volta de Carlão à direção. O ator, músico, pesquisador, coreógrafo e professor Gil Amâncio, codiretor da montagem, reencontra na criação o parceiro de uma década seguida nos anos 1980. “O que mais impressiona na nossa cumplicidade não é o que mudou de lá pra cá. É o que ficou. É essa constante insatisfação com a criação. Começamos quebrando com o teatro de texto, da palavra, na época da Companhia Sonho & Drama, buscando uma nova linguagem. E isso se mantém”, diz o multiartista.

Lelis, dono do traço inconfundível de história em quadrinhos de 'O urro!', elogia o que ele chama de “grande sacada” da direção, a junção de linguagens em estrutura multimídia da montagem. “A força política do texto e a liberdade de criação foram fundamentais à realização desse trabalho. A condução também da animação, dos quadrinhos mostram que o Carlão também é um grande diretor-roteirista”. Lelis, ilustrador e escritor, profissional da editoria de Arte de o Estado de Minas, com publicações na França, no Canadá e na Espanha, está na equipe de 'O urro!' desde o projeto embrionário, em 2012. “Foi muito trabalho no início. Com cuidado nos detalhes da construção. Personagens foram pensados e repensados. A finalização vai ser uma surpresa, admite.

Para André Senna, único ator no palco, o aprendizado na longa empreitada é uma lição para não esquecer. Desde que deixou a carreira de sucesso como designer gráfico, o publicitário e intérprete formado pela Escola de Teatro da PUC Minas tem na inquietação com a arte uma obsessão. “Estou no caminho que gostaria de estar e dizendo o que gostaria de dizer”. André conheceu Carlão em 2011, numa oficina inspirada em personagens de Guimarães Rosa. A identificação com o diretor foi imediata. Não demorou para a oportunidade de novo encontro profissional. “'O urro!' é muito rico porque o texto do Carlão é peculiar. É uma obra absurda, com várias metáforas, com algo necessário a dizer”, considera.

Mestre Foi no galpão da ZAP 18, onde 'O urro!' faz temporada de três dias, que Carlão recebeu a reportagem do EM. O encenador, aos 61 anos, mantém a mesma postura de dedicação que o consagrou como mestre para ao menos três gerações. Mesmo durante a entrevista, dá conta dos detalhes do arranjo da cena para a sessão de filmagem e fotografia. De olhar maduro, para a frente, não demonstra a menor amargura com os dissabores que enfrentou como gestor público. Permitiu-se um tempo nos últimos quatro anos para digerir os aprendizados da longa data em que esteve à frente da cultura em Belo Horizonte. Carlão diz, no momento, estar “100% de volta à direção”.

LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
"Nunca gostei de fazer parte de nenhum projeto pela metade. Gosto de estar com os dois pés dentro de um trabalho%u201D Carlos Rocha, dramaturgo e diretor (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
“Nunca gostei de fazer parte de nenhum projeto pela metade. Gosto de estar com os dois pés dentro de um trabalho. Durante os compromissos como gestor, dirigi algumas vezes, mas agora, com 'O urro!', posso estar novamente inteiro no trabalho”. Durante o recolhimento, convites não faltaram para Carlão. Não só para a criação de novos espetáculos, como também para que ele voltasse à vida pública. 'O urro!' é a primeira parte de uma trilogia que ele chama de “Fábulas urbanas”. Os outros dois textos, como o primeiro, ele não tem pressa em acabar.

Levam a marca de direção autoral de Carlão, entre outras, as peças 'O processo', de Franz Kafka (1981), 'Grande sertão: veredas', de Guimarães Rosa (1985), 'Antígona', de Sófocles (1986), 'Bicho de pé, pé de moleque', de Eid Ribeiro (1991), e 'Sertão, sertões', de Rufo Herrera (2001). As responsabilidades de Carlão como gestor fizeram raras as suas empreitadas nos palcos. Ainda assim, pela vocação de educador e pela entrega à formação de novos artistas, esteve à frente de espetáculos de estudantes de teatro da Fundação Clóvis Salgado (FCS) e da Cia. ZAP 18 – antiga Cia. Sonho & Drama Fulias Banana, fundada por ele em 1979.

“Uma reflexão, uma provocação e uma brincadeira, com certa pretensão de verdade, como toda história absurda”. Assim Carlão define 'O urro!'. O absurdo não podia estar fora do trabalho que o traz de volta, inteiro, à direção. Em Urbanus – a cidade fictícia da obra –, as pessoas começam a urrar. A conversa com o diretor e sua trupe chega a fazer lembrar Eugène Ionesco, com o seu O rinoceronte. “O HQ é a identidade visual do espetáculo. São rascunhos de uma história absurda e contada fora da ordem cronológica. Em O urro! fazemos um jogo entre o cênico e o gravado”, conta. Feliz com a boa dose de risco do novo desafio, Carlão simplifica a grande paixão: “O teatro é uma maneira de conversar com as pessoas”. Depois de O urro!, vem aí Rouxinol Berra-Bode, inspirado nos jagunços de Grande sertão: veredas.

O URRO!
De Sexta a domingo, na ZAP 18, Rua João Donada, 18, Bairro Serrano. Sexta e sábado, às 20h30, e domingo, às 19h. Direção de Carlos Rocha e Gil Amâncio. Classificação: 12 anos. Entrada franca. Capacidade do espaço: 60 lugares.

Depoimento

Em mais de 20 anos de carreira na cena, poucas vezes tive o privilégio de ser dirigido por criador tão preocupado com o trabalho do ator. Tão atento à escrita do coletivo. O encontro com Carlão nos salões de ensaio para O processo, de Franz Kafka, pelo Centro de Formação Artística da FCS, em 1996, foi para toda a vida. Éramos cinco para 23 personagens. Marcou-me profundamente o cuidado de Carlão com o entendimento do elenco, das particularidades de cada papel. Sem as invencionices e o furor criativo tão comuns dos que se dizem “experimentais” ou “de pesquisa”, Carlão procura fundamentar mapeamento de construção e dar consistência à encenação a partir da força de seus intérpretes. Ainda que o texto seja apenas pretexto para uma “conversa” com muito a dizer (e ouvir) ao público, o criador-roteirista busca inspiração no melhor da literatura universal. O que nada tem a ver com o teatro do umbigo, cada vez mais presente na chamada “cena contemporânea”. (JFC)

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