Inhotim terá novas atrações a partir de setembro

Museu contará com obras de quatro criadores contemporâneos pouco conhecidos no Brasil. Mostra sinaliza tendência de ampliar o circuito de arte

por Walter Sebastião 03/08/2014 07:00

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Inhotim/Divulgação
O isolamento político da Romênia deu à obra de Geta Bratescu, de 88 anos, uma saudável independência e experimentalismo (foto: Inhotim/Divulgação)

Inhotim nunca se distraiu da singularidade das obras que apresenta. Mas pela extensão do acervo, o conjunto de peças acabava chamando a atenção. Sem perder essa dimensão, a partir de 4 setembro, com obras da romena Geta Bratescu, do tcheco Dominik Lang, do norte-americano Caroll Dunham e do filipino David Medalla, o museu convida o público à consideração concentrada na obra e na história que os criadores instauram. O que se torna ainda mais interessante por destacar artistas ainda pouco conhecidos, evidenciando os desafios postos ao sistema mundial de arte nas primeiras décadas do século 21.

“Vivemos momento da descoberta de que o mundo é grande, não acaba em Nova York, Londres ou na Avenida do Contorno”, brinca Rodrigo Moura, o diretor artístico da instituição, referindo-se à diversidade de origens, residência e vivência dos artistas. “É nosso papel apresentar ao público artistas ainda pouco conhecidos, com a consciência de que precisamos ampliar o circuito de arte brasileiro”, acrescenta. Internacionalização, no entanto, não pode ser entendida como a apropriação da arte brasileira ou de outro país pelos centros hegemônicos. “Para não se tornar perversidade, tem de ser diálogo, inclusive com instituições que atuam localmente, a partir de pesquisa e valorização dos artistas jovens”, defende Rodrigo.

São questões que estão postas hoje a todas as instituições, mesmo que algumas delas não possam enfrentar tal tarefa por falta de recursos ou por responder a outros compromissos. O redesenho da sistema artístico mundial tem motivo: revela busca de descentralização das narrativas sobre a vida e a sociedade feitas pela arte. E curadores e pesquisadores, dos mais importantes museus do mundo, antes envolvidos basicamente com produção europeia e norte-americana, se voltam para o que é feito na Ásia, Leste Europeu e América Latina. Movimento que Rodrigo Moura acha positivo e até credita em parte à ação de curadores brasileiros que estão trabalhando no exterior.

Ateliê

Quem ganha exposição individual na Galeria Lado, em Inhotim, com direito à reunião de obras dos anos 1963 a 2013, é a romena Geta Bratescu, de 88 anos. Ela vive e trabalha em Bucareste, é formada em letras, estudou no Instituto de Artes Nicolae Grigorirescu entre 1969 e 1971, depois de duas décadas de formação interrompida na Academia de Artes de Bucareste, em razão da censura do governo comunista. A artista faz de tudo: desenho, gravura, colagem, tapeçaria, objeto, filmes e performances. Esteve na Bienal de Veneza (1960) e duas vezes na de São Paulo (1983 e 1987). É referência de arte experimental em seu país. Desde 1990, tem visto sua obra ser objeto de interesse dos grandes museus de arte.

“Geta Bratescu é um tesouro escondido no Leste Europeu”, garante Rodrigo Moura, contando que a artista continua trabalhando em ateliê, simples, em Bucareste. Por trabalhar em condições muito específicas, vindas do isolamento político e econômico da Romênia, sua criação mantém alto grau de independência e experimentalismo. “É fascinante como Geta conseguiu desenvolver independência dentro de meios oficiais”, observa o curador. “Ela usa o ateliê para fazer o trabalho acontecer, transformando o local num espaço de fruição semipúblico”, acrescenta.

“Num sistema de arte acelerado como o que vivemos, não deixa de ser subversivo. É uma prática que ocorre à margem da economia de mercado e que foi diretamente para o museu”, explica Moura. “É como se tomássemos a história da arte brasileira, que é periférica, como lente para ver o mundo da arte”, compara. “A Romênia é aqui”, brinca.

Rodrigo observa que apesar de a situação ter mudado, trabalhar à margem dos sistemas foi, durante décadas, quase condição dos artistas brasileiros. São obras que tematizando a autorrepresentação entrelaçam história pessoal e coletiva, permitindo leituras diversas, da escassez até o papel do ateliê, passando por questões de gênero. Inhotim tem hoje cerca de 60 obras da artista romena em seu acervo.


Intervenção
Leva o nome de Sleeping city (2011) a instalação de Dominik Lang, um jovem artista tcheco, de 34 anos, que tem história. Trata-se de intervenções em conjunto de 20 esculturas do pai, Jiri Lang (1927-1966), escultor modernista ativo na década de 1950, considerado promissor, mas que foi preso por razões políticas. O nome da obra, que foi apresentada na 54ª Bienal de Veneza, alude à visão de estúdio repleto de “esculturas dormindo”. É obra que propõe diálogo intergeracional e ecoa desde os tempos da Guerra Fria até os dias atuais. O artista é formado em belas-artes, vive e trabalha em Praga, atuando na fronteira entre arte e arquitetura, para interpelar contextos históricos, sociais e espaciais.



Jardim
Um imóvel rural, remanescente das construções que existiam em Inhotim antes de o local se tornar museu, foi reformado e ganha ciclo de pinturas do norte-americano Carroll Dunham. “É pintura sofisticada, feita a partir de gesto urgente”, observa Rodrigo Moura. Ele conta que se trata de artista associado à chamada volta da pintura dos anos 1980. O pintor têm 65 anos, vive e trabalha em Nova York, já ganhou retrospectiva no New Museum de Nova York e tem obras em diversas coleções públicas. Sobre o artista, já se disse que trabalha livremente diversas visualidades (abstração, figuração, pop) sem se limitar a nenhuma delas. Os trabalhos mais recentes são imagens de forte conteúdo sexual, detalhados de forma grotesca e irônica.

Bolhas
Cloud gates bubble machine (1965-2013) é o nome de escultura em grande escala construída com tubos de acrílico preenchidos com bolhas de sabão. Obra que, pelo inusitado, fez fama e foi refeita diversas vezes. O autor é David Medalla, de 72 anos, nascido em Manila (Filipinas), que vive e trabalha em Londres. Ele é nome histórico da arte experimental dos anos 1960. Participou de mostra que hoje é considerada um tratado sobre arte experimental: Quando as atitudes tomam forma (1969). É homem ligado à arte brasileira. Nos anos 1960, articulou exposições de Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel e Sérgio Camargo na galeria londrina Signals. Tem performance inspirada em textos de Clarice Lispector. Além das atividades artísticas, Medalla tem atuado como professor, feito curadorias e direção artística de eventos.

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