Hilda Furacão se tornou ícone da memória de BH

A saga da mulher que inspirou a personagem, localizada pelo EM na Argentina, emociona jornalistas, ex-craque e a viúva de Roberto Drummond

por Ivan Drummond 29/07/2014 08:00

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Viúva de Roberto Drummond, Beatriz é a verdadeira Bela B, personagem de Hilda Furacão (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )
Desde domingo, o Estado de Minas conta a história de Hilda Maia Valentim, de 83 anos, que mora no asilo Hogar Guillermo Rawson, no Bairro Barracas, em Buenos Aires. Viúva de Paulo Valentim, craque do Boca Juniors, ela inspirou Hilda Furacão, protagonista do livro de Roberto Drummond.


Recordar a história da Belo Horizonte dos anos 1950, onde se passa a trama de 'Hilda Furacão', romance de Roberto Drummond (1933-2002), emocionou amigos, contemporâneos e familiares do escritor. Os jornalistas José Maria Rabelo e Guy de Almeida, o ex-jogador de futebol Vaduca, o teatrólogo Marcelo Andrade e Beatriz Drummond, viúva de Roberto, fizeram uma viagem no tempo ao deparar com a história de Hilda Maia Valentim, fonte de inspiração para a personagem interpretada por Ana Paula Arósio na TV.

Um dos donos do jornal 'Binômio', José Maria Rabelo disse ter conhecido Hilda pessoalmente. “A moça fazia parte da vida noturna daquela época. Fiquei emocionado ao tomar conhecimento da história de que ela vive num asilo. Estudante e jornalista, eu vivia na região dos bares Polo Norte e Mocó da Iaiá. Eram dois os grandes hotéis da noite: Maravilhoso e Magnífico. A Hilda era do Maravilhoso. Lá não havia mulheres grã-finas, pois essas ficavam em outros pontos da cidade, na Rua Uberaba e na Avenida Francisco Sales, onde era a Zezé. Certa vez, fizemos matéria no 'Binômio' mostrando que havia 500 rendez-vous em BH”, conta ele.

Rabelo diz que Drummond se inspirou também em frequentadoras do Minas Tênis Clube para escrever 'Hilda Furacão'. “Lá havia gêmeas que jogavam vôlei. Curiosamente, as duas se tornaram amantes de Antônio Luciano Pereira Filho, o grande vilão da história. Hilda nunca foi da Zona Sul. Provavelmente, foi por isso que ele criou essa situação na literatura”, afirma. O jornalista se refere ao fato de a personagem, moça bem-nascida, ter trocado locais elegantes de BH pela zona boêmia.

Bela B
A reportagem do EM trouxe alegria para Beatriz, viúva de Roberto Drummond, e Ana Beatriz, filha do escritor. Inclusive, Beatriz é a verdadeira Bela B, personagem de 'Hilda Furacão'. “Estou maravilhada, pois relembraram aquela história. Fiquei espantada em saber que a Hilda verdadeira não conhece a Belo Horizonte que está no romance”, diz.

Relembrando os tempos de juventude, Beatriz confirma: ela e Roberto se casaram como está narrado no livro. “Ele foi mesmo me buscar em Ferros. Meu pai não queria o casamento, porque ele, Vinícius Moreira e o pai dele, Francis Drummond, eram inimigos políticos – uma briga de família. E olha que éramos parentes, pois sou Drummond também: minha mãe se chamava Emília Drummond Moreira”.

Guy de Almeida, jornalista que trabalhou no 'Binômio', não conheceu Hilda pessoalmente, mas diz que a fama dela corria longe. “Conheci o Paulo Valentim. Meu pai, Arthur Nogueira de Almeida, era conselheiro do Atlético e me levava aos jogos. Era realmente um fenômeno, um goleador”, lembra, referindo-se ao craque com quem Hilda Maia se casou após deixar a zona boêmia. “Quanto a ela, a gente ouvia falar. A impressão que tenho é de que saiu da vida para viver o luxo e o glamour em Buenos Aires”, diz.

O atacante Vaduca, famoso por ter marcado o gol que deu ao Villa Nova o título de campeão mineiro de 1951, jogou contra Paulo Valentim. Quando Vaduca foi para o Galo, o craque já estava de saída. “Artilheiro nato, Paulo marcava muitos gols. A gente, que era do ataque, dizia para os beques e o lateral para marcar em cima, para não dar chance. Senão, ele marcava.” Vaduca não conheceu Hilda. “Só ouvi falar dela e de suas peripécias.”

No início da década de 2000, o romance chegou aos palcos graças a Marcelo Andrade. “Tudo começou com o Roberto. Adaptei 'O grande mentecapto' e ele me pediu para fazer o mesmo com 'Hilda Furacão'. A peça ficou um ano e meio em cartaz. Esse sucesso levou à minissérie”, lembra Andrade, referindo-se à trama exibida pela TV Globo em 1998, estrelada por Ana Paula Arósio e Rodrigo Santoro.

Marcelo revela que Drummond acompanhou todo o processo de adaptação. “Empolgado, ele punha fogo para a gente andar depressa. Uma vez, ligou às 3h, quase na estreia da peça, perguntando se eu conseguia dormir. Ele estava ansioso. Depois, viajamos o Brasil inteiro e o Roberto, que tinha medo de avião, levava uma imagem de Santa Rita de Cássia. Tornou-se devoto, mas tão devoto que, em Viçosa, lançou o livro 'O cheiro de Deus' na matriz dedicada a ela”, conclui o teatrólogo.

Recorde na rede


Reportagens do Estado de Minas com a mulher que inspirou Roberto Drummond a escrever Hilda Furacão (foto) chamaram a atenção de pessoas que viveram na BH dos anos 1950. A matéria foi uma das mais lidas da edição de domingo, batendo o recorde de mais de 54 mil pageviews na versão on-line do EM.

Em comentário no Facebook, Carlos Cunha contou que era carteiro do Maravilhoso Hotel, “onde Hilda esteve por ocasião de sua estada em Belo Horizonte”. De acordo com ele, o local “era rota obrigatória da juventude sequiosa de ver belas mulheres”. A grande maioria vinha do interior. “Muitas cartas eram endereçadas a elas, e eu ficava comovido por ser uma conexão entre destinatário e remetente”, revelou Cunha, citando “amenidades festivas de relembranças que povoam a nossa memória afetiva”.

“Ela sempre ia aos jogos do Galo para acompanhar Valentim. Quem dizia isso eram os frequentadores do estádio. Mas dizem que a história da Hilda de Roberto Drummond era baseada em uma menina de alta sociedade que se chamava Ângela”, registrou Francisca Newman na rede social.

Maria Inês Barcellos da Costa registrou que Hilda Maia Valentim, que mora num asilo em Buenos Aires, contou com a ajuda do Boca Juniors, onde jogou o marido, Paulo Valentim. “O enterro do filho, Ulisses, foi financiado pelo Boca. Triste, mas real, é a história de uma das primeiras marias-chuteiras famosas que não terminou bem”, conclui Maria Inês.

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