Após duas quedas, Hilda Furacão foi parar em asilo de Buenos Aires

Depois da morte do filho Ulisses, foi morar com a nora, Teresa Ignes

por Ivan Drummond 27/07/2014 00:13

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Ivan Drummond/EM/D.A Press
Hogar Dr. Guillermo Rawson, em Buenos Aires, atual lar de Hilda Furacão (foto: Ivan Drummond/EM/D.A Press)
Duas quedas, dois tombos. Assim Hilda Furacão foi parar no asilo Hogar Guillermo Rawson. Depois de uma vida de glamour e de luxo, a mulher que fez história em Belo Horizonte e em Buenos Aires tem uma velhice de lembranças e solidão.

Com a morte do marido, o jogador e goleador Paulo Valentim, em 1984, ela passou a viver com o filho, então solteiro, Ulisses Valentim. Quando ele se juntou a Teresa Ignes Rodríguez, saiu de casa e alugava para mãe sempre um lugar pequeno, apertado. Com a morte de Ulisses, no ano passado, ela passou a viver com a nora.

Um dia, Ignes chegou em casa e encontrou a sogra caída, desmaiada. Tinha batido com a cabeça no chão. Havia muito sangue. Um médico foi chamado e Hilda, medicada. Feito o curativo, recobrou a memória e foi levada para a cama. “Mas, enquanto eu estava conversando com um amigo, que chamei para me ajudar, ouvimos um barulho surdo no quarto, como de um corpo caindo. Corremos e era Hilda. Ela havia tentado se levantar e caíra novamente. Teve outro corte na cabeça. Chamamos uma ambulância”, conta Ignes.

Hilda foi levada para o Hospital Dr. Cosme Argerich. Lá, ela foi tratada. Recuperou-se, mas não podia ficar. A situação chegou a Maisa Meirelles, que a levou para o Rawson.

Teresa Ignes deu sequência à vida. Considera-se viúva. Trabalha num departamento público que controla preços, em especial de supermercados e lojas. É um serviço para consumidores. Quanto a Hilda, Teresa Ignes chora ao falar dela. “Infelizmente, não posso fazer mais. Tenho filhos. Preciso cuidar de mim, da minha família. A Hilda não faz parte dela. Não tenho condições com o que ganho. Fiquei com ela um bom tempo, mas agora, doente, com momentos de esquecimento, não dá. Ela precisa de assistência 24 horas. Não posso fazer isso.”

 

Lei Argentina ampara idosos


Entre momentos de lucidez e apagões, Hilda conta que o filho irá buscá-la no asilo. Fala como se ele estivesse vivo. “Está muito ocupado, trabalhando. Não pode vir me ver agora, mas virá e vai me levar para casa.” E sonha em ter de volta os baús. “Um dia, quando ele vier, vamos à casa da mulher que está com meus baús, um de roupa e outro com minhas coisas. Ela quer dinheiro para entregá-los, mas com ele sei que vai entregar. Afinal de contas, as coisas são minhas.”

Aquela que um dia foi conhecida como Hilda Furacão passa os dias reclusa no asilo, numa sala que é também refeitório, com mais oito pessoas de idade avançada como ela. Sempre sentada diante da TV. Assiste a todos os programas, desde a hora que acorda e vai para a cadeira de rodas até a noite.

De acordo com uma lei da cidade de Buenos Aires, os idosos desamparados têm direito ao asilo municipal. Além de sustentá-los, com roupas, remédios, cama e comida, o município paga cerca de US$ 500 por mês a cada um. Os internos do Hogar Dr. Guillermo Rawson podem entrar e sair a hora que quiserem. Mas Hilda não quer ir a outro lugar. Só quer assistir à TV e comer. Não conversa com quase ninguém. Fala das necessidades com as enfermeiras e com uma funcionária que considera especial: Marisa Meirelles. E assim segue a vida solitária de Hilda Furacão.

 

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Doutor Jorge Stolbizer se surpreendeu com a história brasileira de Hilda Valentim (foto: Ivan Drummond/EM/D.A Press)

Dignidade O doutor Jorge Stolbizer, diretor do Hogar Guillermo Rawson, se surpreende ao saber quem é Hilda Maia Valentim, ou Hilda Furacão: “Não sabia que tínhamos aqui uma pessoa tão famosa no Brasil, que virou personagem de livro e novela”. Ele conta que todos os residentes do asilo são tratados igualmente, com dignidade. “Tentamos dar a eles um final de vida digno e fazer com que tenham bons dias. Cuidamos de tudo, saúde, remédios, enfim, o que for necessário.”

Mas se entristece ao saber da verdadeira história daquela mulher que foi para lá levada por uma assistente social, funcionária do lugar. “Não gostaria que ela tivesse um fim triste, ainda mais sabendo que era casada com Valentim, que foi um ídolo aqui na Argentina. É ruim não poder fazer mais nada além do que está a nosso alcance para ajudá-la.”

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