Romance de Roberto Drummond, Hilda Furacão é um guia para a BH dos anos 50

Livro fala da capital mineira entre 1950 até 1964, quando os militares chegaram ao poder

por Carlos Herculano Lopes Ivan Drummond 27/07/2014 00:13

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Arquivo em
Drummond levava a vida para o jornal (foto: Arquivo em)
O romance Hilda Furacão, de Roberto Drummond, pode ser lido como uma espécie de guia para se conhecer a BH dos anos de 1950 até 1964, quando termina a história do livro, com a chegada dos militares ao poder e o fim da democracia no país.


Dos tantos lugares e entidades citados pelo escritor, que nasceu na cidade de Ferros, no Vale do Rio Doce, mas veio ainda bastante jovem para a capital mineira, um deles é o mítico Mocó da Iaiá, misto de bar e restaurante que ficava na Rua Carijós esquina com Curitiba e era ponto de encontro de jornalistas e intelectuais. Segundo Arnaldo Viana, colega do jornal, que chegou a frequentar o pedaço quando dava os primeiros passos na profissão, o dono do estabelecimento se chamava Silveira.

Drummond conduz o leitor ao mítico Montanhês Dancing, cabaré que ficava na Rua dos Guaicurus, dirigido com “toda moral” pela espanhola Olympia Vásquez García. Frequentado por políticos conhecidos, coronéis do interior e tantos mais, até o cineasta Orson Welles esteve por lá quando da sua passagem por BH. Corre a lenda que lá pelas tantas, depois de ter tomado umas e outras, dirigindo-se meio trôpego para o hotel, o diretor de Cidadão Kane teve vontade de urinar. Como não achou um banheiro, aliviou-se no tronco de uma árvore, entre a Avenida Santos Dumont e Rua Rio de Janeiro. Para fãs do cineasta, a árvore deveria ser tombada.

Daquela região boêmia, que ainda pulsa na cidade, com a prostituição a correr solta, o romancista não deixou de citar hotéis conhecidos de encontros íntimos, como o Brilhante e o Maravilhoso. Foi por aqueles lados que Hilda Furacão, a Garota do maiô dourado, que frequentava o Minas Tênis Clube, onde causava frenesi, se tornou ainda mais desejada, depois de chutar o balde e virar prostituta. No mesmo clube, outras vezes lembrados no livro, existiam as famosas “missas dançantes”, que nos domingos pela manhã eram a sensação de rapazes e moças. A última coisa na qual pensavam era rezar.

Os jornais da época, pelos quais os belo-horizontinos ficavam sabendo das últimas, são citados em Hilda Furacão. Do Estado de Minas, já naquele tempo o mais importante do estado, são lembrados os famosos editoriais do montes-clarense Hermenegildo Chaves, mais conhecido por Monzeca. Também estão lá o Diário de Minas, do governador Magalhães Pinto, e o Última Hora. Sem se esquecer do combativo Binômio, que era dirigido por José Maria Rabelo e Euro Arantes e que foi fechado pela ditadura. Na Revista Alterosa, outra publicação da época que faz parte da história, Drummond conheceu o cartunista Henrique Filho, então um iniciante no jornalismo. O nome Henfil – Hen, de Henrique, e Fil, de filho – foi dado pelo autor de Hilda Furacão.

Hotéis conhecidos então, como o Grande Hotel, que ficava onde hoje é o Edifício Maletta, na Avenida Augusto de Lima, e o Financial, que ainda está na Avenida Afonso Pena (o dono era o empresário Antônio Luciano, também personagem do livro), foram imortalizados no romance. Era neste hotel, que tantas vezes hospedou o presidente JK e outras personalidades da época, que também morava Aramel, o Belo, personagem do livro.

O Convento dos Dominicanos, na Rua dos Dominicanos, no Bairro da Serra, Zona Sul da capital, abrigava as angústias de Frei Malthus, personagem inspirado em Frei Betto, amigo e companheiro de geração de Roberto Drummond.

Ah!, devaneios dos devaneios… Roberto  não se esqueceu de imortalizar em seu livro a Serra do Curral. Em seus contrafortes, um grupo de românticos sonhadores, do qual fazia parte o próprio romancista, chegou a pensar em criar um foco de guerrilha, para lutar contra a ditadura. “Ela será a nossa Sierra Maestra”, bradavam entre um copo e outro de cerveja.

 

Um repórter encontra sua história

 

A narrativa de Roberto Drummond no livro Hilda Furacão começa quando ele chegou ao extinto jornal Folha de Minas, no ano de 1953. Ele entrou na redação para pedir a publicação de uma nota sobre o movimento estudantil da época, do qual fazia parte. Foi recebido pelo jornalista Felippe Drummond, que, depois de anotar os dados da notícia – uma passeata que ocorreria no dia seguinte –, se surpreendeu com o sobrenome do escritor. “Então você é meu primo. Sabe bater máquina? Quer trabalhar aqui?’’ Diante das respostas afirmativas, no dia seguinte Roberto se tornou jornalista.

Naquele tempo, a zona boêmia era sempre foco de notícias na Folha de Minas, principalmente pelos fatos policiais. Eram brigas, golpes e prisões.  Os jornalistas, em geral, tinham por hábito frequentar os bares do chamado Polo Norte e o Montanhês Dancing. Lá, Roberto tomou conhecimento de Hilda Furacão, um nome que guardou na memória. Quando do casamento dela com Paulo Valentim, a curiosidade do escritor aumentou. Era ingrediente para um texto especial. E guardou a história que considerava fantástica.

Quando começou a escrever o livro, anos mais tarde, falava de Hilda Furacão como se fosse ela uma personalidade rara. Sabia que não poderia falar de uma mulher pobre. Isso não atrairia leitura. Fantasiou, então, a personagem, que teria saído da alta sociedade, frequentadora do Minas Tênis Clube. A isso, acrescentou outros ingredientes, como a Tradicional Família Mineira (TFM), os movimentos políticos que precederam o golpe militar de 1964.

Muitos dos personagens do livro, como a própria Hilda, são reais, assim como alguns fatos, como a compra de retirantes nordestinos por Roberto Drummond, em reportagem para mostrar a condição miserável dos sertanejos, que lhe valeu o Prêmio Esso.

 

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