Hilda Furacão se lembra pouco da BH de seu tempo e alimenta mágoa de parentes de marido

Para ela, família de Paulo que teria sido responsável pela ruína do casal. Ela sonha em recuperar um baú cheio de tesouros

por Ivan Drummond 27/07/2014 00:13

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Ivan Drummond/EM/D.A Press
"Eu me lembro muito bem da Praça Sete, do Brasil Palace Hotel, do Cine Brasil e da Igreja de São José, onde costumava assistir missas aos domingos pela manhã" (foto: Ivan Drummond/EM/D.A Press)
Buenos Aires – José Francisco Lallane, o velho torcedor do Boca, deixa a sala do asilo e Hilda passa a falar da vida de casada, de como conheceu o grande amor. Diz que a família do ex-marido a ajudou muito e que o conhecia desde garota, quando tinha 13 anos e ele, 21. Outro devaneio. Na verdade, Valentim era um ano mais novo que ela. O que importa é que Hilda se apaixonou. Uniram-se e começaram a correr mundo, até chegarem à cidade-residência que ela considera definitiva: Buenos Aires.

“O pai do Paulo, seu Joaquim, nos ajudava. Minha mãe, Joana, estava muito doente e eu tinha de sair para trabalhar e ajudar em casa. Ele sempre me arrumou empregos em casas de família. Muito tempo depois, o Paulo me procurou e começamos a namorar.” Isso é o que Hilda conta sobre o início da vida com o jogador. De Belo Horizonte, são poucos os lugares que ainda tem na memória. “Eu me lembro muito bem da Praça Sete, do Brasil Palace Hotel, do Cine Brasil e da Igreja de São José, onde costumava assistir a missas aos domingos pela manhã.”

É o pouco que consegue recordar da cidade. Não cita nenhum lugar relacionado ao passado verdadeiro. Conta que nos tempos de empregada doméstica aprendeu a cozinhar, a fazer comidas gostosas sempre para os patrões. O que só terminaria quando se uniu a Valentim. “A gente se casou em Barra do Piraí (RJ), onde estava toda a família do Paulo. Um dos nossos padrinhos foi o João Saldanha, que era técnico do Botafogo e um grande amigo do meu marido. Ele sempre ajudava. Fomos para o Rio, pois o Paulo jogava no Botafogo”, diz, mostrando um sorriso.

Depois, fala da Seleção Brasileira. “Ele jogava com o Garrincha, o Didi e o Zagallo, no Botafogo. Foi para a Seleção e lá jogou com o Pelé, que era o maior da época. E foi por causa da Seleção que viemos para Buenos Aires. O Boca, do José Armando, comprou o passe dele e nos mudamos. Viemos para um lugar que nos acolheu, como se fôssemos daqui.”

Hilda muda de assunto. Fala da vida do casal. Acusa a família de Valentim de ter arruinado a vida dela, de ter gastado todo o seu dinheiro. “Um irmão dele, o Valdir, montou um armazém em Barra do Piraí. O Paulo pagou. Mas o Valdir perdeu tudo. Deu dinheiro para o pai, para a mãe. Uma irmã, Wanda, ficou com um apartamento em Brasília.”

E garante ter provas. “Uma vez, fui ao Banco Nacional da Argentina e uma amiga – diz sem lembrar o nome da mulher – me contou que todos os meses o Paulo mandava dinheiro para um monte de gente no Brasil, todos com o sobrenome dele. É mentira que ele bebia e que jogava. Gastou o dinheiro com a família.”

Reprodução
(foto: Reprodução)
Moedas
Conta-se no Brasil e na Argentina que Hilda teria herdado um baú grande, cheio de notas e moedas. Valentim teria como mania jogar dinheiro dentro do baú, que sempre os acompanhava. “Eu tenho dois baús. Uma mulher ficou com eles e quer que eu pague para buscá-los. Não tenho dinheiro. Sei onde ela mora e qualquer dia vou lá buscar, na marra”, diz, brava, mostrando um pouco do que a levou, talvez, a ganhar o apelido de Furacão.

Nas parcas reminiscências, ela vai ao México, mas antes passa por São Paulo. “O Paulo foi jogar no São Paulo. Mas ficou lá pouco tempo, pois surgiu uma proposta do Atlante. Gostava muito do México. Tratavam-no bem. Ficamos lá uns dois anos e voltamos para a Argentina. Aí, o Paulo foi treinar o time dos meninos do Boca.”

Quem ouve Hilda revirar o que lhe resta de memória no refeitório do asilo pensa que tudo esteve sempre às mil maravilhas com ela. Mas não foi assim. Na volta a Buenos Aires, o casal passou a viver de aluguel ou de favor. “A gente morou em muitas casas e apartamentos que o Boca cedia, como parte do contrato, ou arrumados pelo Armando, que gostava muito do Paulo.”

 

Hilda Furacão em...

 

• Livro

Publicado em 1991, o romance Hilda Furacão já vendeu 200 mil exemplares. Atualmente, está na 20ª edição, pela Geração Editorial. Em 2011, foi lançado em e-book. Roberto Drummond estreou na literatura com o livro de contos A morte de D. J. em Paris, de 1971, que consagrou seu estilo pop. Entre suas obras estão O dia em que Ernest Hemingway morreu crucificado (1978), Sangue de Coca-Cola (1980), Quando fui morto em Cuba (1982), Hitler manda lembranças (1984), Ontem à noite era sexta-feira (1988), Inês é morta (1993) e O cheiro de Deus (2001).

Minissérie

Exibida entre 27 de maio e 23 de julho de 1998 pela Rede Globo, a minissérie Hilda Furacão teve Ana Paula Arósio (foto) como protagonista e Rodrigo Santoro no papel de Frei Malthus. A direção geral foi de Wolf Maya e muitas cenas foram gravadas em Belo Horizonte. Locações como o Parque Municipal, a Praça da Liberdade e o Minas Tênis Clube mobilizaram a população na época. Em 2013, a minissérie foi reprisada pelo canal Viva (Globosat). Ao todo, foram 32 capítulos, escritos por Glória Perez a partir do romance de Roberto Drummond. A minissérie foi vendida para 12 países, entre eles, Angola, Chile, Portugal, República Dominicana e Rússia.

Teatro

A história de Hilda Furacão também deu origem a um musical em 1997, com adaptação e direção de Marcelo Andrade. A trilha sonora original foi assinada por Marcus Viana, Murilo Antunes e Flávio Venturini. A atriz Mariane Vicentini protagonizou a montagem ao lado de Cláudio Lins e Guilherme Linhares. No início deste ano, o escritor Geraldo Carneiro anunciou que fará nova adaptação para montagem baseada no romance. Desta vez, a direção será de Jorge Takla, que assinou, entre outras, a adaptação nacional de My fair lady. 

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