Alceu Valença: "Ariano é eterno em sua irreverência e universalidade"

Compositor presta homenagem ao escritor nas redes sociais

por Diário de Pernambuco 24/07/2014 16:36

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Paulo Paiva/DP/D.A Press
Cantor e compositor também prestou sua homenagem (foto: Paulo Paiva/DP/D.A Press)
Em texto publicado no Facebook, o compositor pernambucano Alceu Valença prestou homenagem a Ariano Suassuna. O artista resgatou os primeiros contatos com a obra de Ariano Suassuna. "Ali descobri que o regional poderia ser universal", frisa. Alceu fala sobre Movimento Armorial, aula-espetáculo, Teatro Popular do Nordeste, reverência prestada a João Grilo em música e a obra "que não tem idade" do paraibano.


O escritor paraibano faleceu na quarta-feira, às 17h15, no Real Hospital Português. O velório teve início às 23h, no Palácio do Campo das Princesas, da quarta-feira, e segue até as 15h, desta quinta-feira. O sepultamento será no cemitério Morada da Paz, em Paulista, Região Metropolitana do Recife.


Confira o texto na íntegra:


"Comecei a me interessar por literatura na adolescência. Meus mentores foram meus tios Livio, que me apresentou Fernando Pessoa, e Geraldo, que me falou pela primeira vez de Ariano Suassuna. Quando ingressei na faculdade, passei a frequentar o Teatro Popular do Nordeste, do qual ele foi um dos fundadores ao lado de Leda Alves e Hermilo Borba Filho. Assisti às gargalhadas O santo e a porca, entre outras peças do autor paraibano. Ali descobri que o regional podia ser universal. Do figurino à interpretação dos atores, tudo representava o sertão profundo num contexto abrangente e contemporâneo. Seus tipos, suas histórias, seus cantadores remetiam a Taperoá dele e a minha São Bento do Una, ambas povoadas por aboiadores, cordelistas, violeiros, loucos sonhadores e contadores de histórias. Era o surrealismo ibérico, brasileiro e nordestino in natura.


Posteriormente, Ariano criou o Movimento Armorial, que parte das mesmas premissas - o regional como universal, e que reivindicava o direito de vilas, cidades e aldeias se expressarem sem a obrigatoriedade de ser hollywoodiano ou anglófono. Como ele mesmo gostava de dizer, não troco meu oxente pelo OK de ninguém. Ariano jamais sofreu do complexo de cachorro vira-latas que parte da nossa intelectualidade comunga. Anos depois, homenageei um de seus personagens mais queridos, João Grilo, o anti-herói de O auto da Compadecida, em minha música Que grilo dá: 'Me chamam cobra cascavel / Sou João Grilo, menino traquino que grilo que dá / Cancão de Fogo, Viramundo, Malasarte / Sou o riso e o desastre do meu Brasil popular'.


Três dias antes de ele ser hospitalizado, pesquisando na internet, o acaso me levou a encontrar o link com um trecho de uma aula-espetáculo ministrada por ele e o compartilhei no Facebook. A repercussão foi incrível. Comentários e mais comentários em saudação reverente ao mestre. Meu filho Rafael, de 13 anos, e seu colega de escola, Alexandre Carneiro, ficaram encantados e, assim como eu, se tornaram seus fãs. Sua obra não tem idade e segue na embolada do tempo: 'o tempo em si, não tem fim não tem começo, mesmo virado ao avesso não se pode mensurar'. Ariano é eterno em sua irreverência, profundidade, sabedoria e universalidade."



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