Balanço do Vale-cultura mostra predomínio de gastos com publicações

Em Minas, 659 empresas já se inscreveram no programa, mas burocracia ainda afasta interessados

por Ailton Magioli 22/07/2014 08:36

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QUINHO
(foto: QUINHO)
O cartão que dá acesso ao serviço ainda não foi entregue pela operadora, mas a auxiliar de serviços gerais Iara Domingues Alves, de 25 anos, já planeja como gastar os R$ 50 aos quais ela terá direito, mensalmente, com a adesão da empresa em que trabalha ao Vale-cultura. “Primeiro, quero ir ao cinema”, avisa Iara, admitindo que a partir do acesso ao benefício ela também planeja adquirir livros – de ciências e de geografia, que são os temas de que mais gosta – e CDs  de Elton John e da dupla Jorge & Matheus.


Funcionária da Academia Bandeirantes Ltda., localizada no Bairro Mangabeiras, em região nobre da capital, a auxiliar de serviços é um dos 12 funcionários que trabalham com o empresário Marcus Andrade que irão se beneficiar com o programa, desde que ele ficou sabendo da criação do Vale-cultura, pela TV. “Assim que descobri o programa, acessei a internet para obter mais informações. Como trabalho com lazer, imaginei que se conseguisse proporcionar o Vale-cultura a meus funcionários eles só iam melhorar”, avalia Marcus.

Segundo levantamento do Ministério da Cultura (MinC), até o momento, 659 empresas do estado se cadastraram no Vale-cultura, totalizando 30, 825 mil funcionários aptos ao programa em Minas Gerais. As empresas receberam o certificado de inscrição e já estão aptas a contratar operadoras para emissão do cartão do Vale-cultura, que, no caso da Academia Bandeirantes, sofreu atraso por causa da burocracia que envolve algumas instituições financeiras e operadoras de cartões de crédito, entre elas empresas públicas (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) e privadas. São 33 ao todo.

“Só falta o cartão”, reivindica Marcus Andrade, enquanto as recepcionistas da academia, Maria Alice Andrade de Moraes e Nayara Taiza Silva Andrade, planejam adquirir livros diferentes para poderem trocar os títulos. “Estamos fazendo isso com Cinquenta tons de cinza”, diz Nayara a respeito do livro de E. L. James, que se tornou objeto de desejo entre as funcionárias da Academia Bandeirantes, que agrega duas unidades (Mangabeiras e Anchieta), além do restaurante-lounge que funciona junto à primeira.

De acordo com o MinC, até agora já foram emitidos 215 mil cartões do Vale-cultura, com consumo de R$ 13 milhões. O dado mais surpreendente, ainda de acordo com dados do ministério, é que a maior parte das operações (88%) está voltada para a compra de livros, jornais e revistas. “O setor livreiro cobre praticamente 100% do território brasileiro”, justifica o secretário de fomento e incentivo à cultura do MinC, Ivan Domingues. Empolgado com o advento do novo benefício para a classe trabalhadora, ele lembra que, no Brasil, o Vale-cultura só encontra precedente no Vale-alimentação, da década de 1970.

“No primeiro momento, o Vale-Alimentação também teve dificuldades para ser implantado”, afirma Ivan Domingues. Ele recorre à pesquisa que aponta que, em média, cada família brasileira consome R$ 26 em cultura por mês, para lembrar que com a implantação do Vale-cultura serão oferecidos R$ 50 mensais. “Se quiser, o trabalhador poderá acumular R$ 600 anuais para uso específico, tal como se matricular em um curso ou assistir a um grande espetáculo”, explica o secretário do MinC, ressaltando que o consumo de cultura cresce mês a mês, desde que foi implantado o programa.

Publicações “Enquanto em abril o consumo com o cartão era de R$ 1,9 milhão, atualmente já são R$ 20 milhões”, contabiliza Ivan Domingues, lembrando que os números mostram o crescimento do programa. De acordo com ele, o Vale-cultura já atinge 5,3 mil empresas, com 807 mil trabalhadores, com mais de 223 mil cartões sendo utilizados. Depois do setor livreiro (livros, revistas e jornais), que lidera a preferência dos usuários do programa, seguem-se o cinema, com 13%, e a aquisição de instrumentos musicais e acessórios, que registra 2,1% do total consumido.

A expectativa do MinC é que o consumo de cultura atinja R$ 25 bilhões ao ano por meio do Vale-cultura. “Acho fantástico, porque vamos ter mais acesso a teatro, música e cinema”, diz a recepcionista Maria Alice Andrade de Moraes, admitindo que por ter sido criada afastada da cultura, ela chegou a discriminar setores como o cinema brasileiro, por exemplo. “Com o vale, agora, quero levar inclusive o meu filho, Kerllon Daniel, de 8 anos”, planeja, prevendo um futuro melhor para o filho em razão do acesso à cultura.

 

Números

 

Reprodução/Estado de Minas
(foto: Reprodução/Estado de Minas)
 

 

Cinema em família Usuária do benefício desde março, quando a ministra da cultura Marta Suplicy esteve na capital para a entrega dos primeiros cartões do Vale-cultura a trabalhadores mineiros, Hélia Maria Martins Silva Campolina, de 54 anos, lembra que chegou a usar o serviço duas vezes em um único mês, além de levar um dos três filhos ao cinema. “Cheguei a exagerar no uso do cartão, agora vou ter de parar por um tempo”, diz a recepcionista do Museu de Artes e Ofícios (MAO), na Praça da Estação, revelando o sonho de consumo do momento.

“Gostaria de dar um saxofone de presente ao Carlos Henrique, que é graduado em comunicação social, fotógrafo e gosta de música”, revela o desejo de presentear o filho. O preço do instrumento (R$ 5 mil), no entanto, deixa Hélia Maria assustada, ainda que ela não afaste a hipótese de financiá-lo, quem sabe por meio do próprio Vale-cultura. “Financiei o violão que dei ao outro filho”, acrescenta a recepcionista do MAO, feliz com a oportunidade de acesso à cultura proporcionado pelo novo programa do MinC.

Prestes a fechar contrato com a operadora (Safeweb), a gerente da Minas Chapas, Isabella Marque Silva, com sede no Bairro Jatobá, no Barreiro, desistiu temporariamente de proporcionar o Vale-cultura aos 38 funcionários da metalúrgica, ao descobrir que a empresa teria investimento de R$ 2 mil mensais, com abatimento no fim do ano via isenção de Imposto de Renda. “Se fosse um programa totalmente subsidiado pelo governo, até faria”, justifica a gerente.

Ela explica que, em ano de Copa do Mundo e eleições, o programa tornou-se investimento inviável para a Minas Chapas, que já proporciona aos funcionários benefícios como planos médico e odontológico, além da cesta básica. Isabella conta que descobriu o Vale-cultura por intermédio de um programa de rádio, acessando posteriormente o site do programa, que ela considera “não muito explicativo”.

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