Para escritores e críticos, obra de João Ubaldo é referência importante para a literatura brasileira

Especialistas destacam o livro 'Viva o povo brasileiro', de 1984

por Walter Sebastião 19/07/2014 08:00

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TV Brasil/Divulgação
(foto: TV Brasil/Divulgação)
“É com tristeza que recebo a notícia da morte de João Ubaldo, tanto pela perda do ser humano quanto do grande escritor, reunidos num só corpo”, afirma a escritora Nélida Piñon. Ela conheceu o colega nos anos 1960, trocando correspondência com ele. O amigo, conta, foi tipo divertido, irreverente – “de humor rabelaisiano” – e muito crítico, que gostava de ridicularizar a realidade. Para Nélida, o escritor era homem culto, que sustentou trabalho de ficção exercitando o idioma português com riqueza e apuro. “Ele era leitor dos clássicos. Desde cedo entrou nos mistérios da língua portuguesa”, conta, recordando que o pai de João Ubaldo obrigava o filho a ler clássicos portugueses.

Com formação barroca, baiano, observa Nélida, não foi difícil para João Ubaldo abraçar a volúpia “pela excedência” e pela multiplicidade de formas, que, para ela, é fundamento do pensamento do escritor. “O livro Viva o povo brasileiro, para mim o grande romance dele, tem título carnavalesco, como se Ubaldo já soubesse que um dia seria homenageado por escola de samba”, brinca. A obra do escritor não se reduz a esse título, observa a escritora, destacando ainda Sargento Getúlio e A casa dos budas ditosos. Este, de acordo com Nélida, é ideal para quem quer entrar na literatura do baiano “de forma divertida, pela luxúria, por meio de provocação, com linguagem indecorosa no melhor sentido”.

Nelida Piñon fez parte do grupo – “com Afrânio Coutinho à frente” – que foi à casa de João Ubaldo para convencê-lo a se candidatar à Academia Brasileira de Letras. “Ele fez charme, sempre fazia, dizendo que não se importava com a carreira, mas aceitou, não foi empurrado. Inscreveu-se, submeteu-se ao belo ritual da casa e tomou posse”, conta. O escritor foi homem que gostava do bem viver, “de convívio agradável, histriônico e teatral”, mas também era caseiro, acordava cedo para caminhar pelas ruas do Leblon, onde morava. “João Ubaldo levava tempo para concluir um livro, o que é bom sinal, por indicar a seriedade com que tratava a literatura”, observa a colega de academia.

O crítico e romancista Silviano Santiago conheceu o escritor baiano nos anos 1970. “João Ubaldo tem uma das obras mais sólidas da literatura brasileira atual, então é perda grande”, afirma. A obra do escritor dá continuidade à “linha vitoriosa do romance brasileiro”, que vem dos anos 1930, que é o regionalismo. “O que o distancia da linguagem neorrealista é a aproximação, buscando atualização estética com João Guimarães Rosa, sobretudo no que refere à visão inventiva, imaginosa, da língua portuguesa”, explica. Vê, inclusive, guardadas as distâncias, afinidade entre a prosa do baiano e a poesia de vanguarda do fim dos anos 1950.

O projeto cultivado por João Ubaldo, para Silviano Santiago, era escrever o “grande romance moderno brasileiro” de sua geração. “Que tomou forma com Viva o povo brasileiro”, observa. O crítico considera que o livro está para a geração dos anos 1960 (a de Ubaldo) como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, está para a dos anos 1950, e Macunaíma, de Mário de Andrade, para a dos anos 1920. O estudioso confirma: “É unanimidade que João Ubaldo esbanjava simpatia e bom humor. Foi um tipo popular e sabia disso”, diz.

Arte / EM
(foto: Arte / EM)
Regionalismo que se abre para o universal


Letícia Malard*/Especial para o EM

O baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) foi um dos mais talentosos, produtivos e diversificados escritores do Brasil contemporâneo. Foi, também, dos brasileiros mais premiados e adaptados para o cinema e a televisão, no país e no exterior. Na primeira década do século 21, várias de suas obras foram traduzidas na Alemanha. Extremamente culto, polêmico e engajado politicamente, sua marca dominante é a denúncia político-social, privilegiando temas e locações da Bahia. Pautadas num regionalismo que se abre para o universal, nelas a tragédia, a ironia e o humor se sobrepõem, numa espécie de continuidade do melhor Jorge Amado, de quem foi amigo e recebeu grandes elogios desde o primeiro livro publicado.

Jornalista, professor universitário de direito e ciências sociais na juventude, tradutor, teatrólogo e sobretudo romancista e contista, Ribeiro foi considerado por grande parte da crítica como o maior romancista brasileiro vivo. O primeiro romance – Setembro não tem sentido (1968) – já anunciava o mestre de estilo que explodiria com Sargento Getúlio (1971). Publicado nos anos mais duros da ditadura militar, seu tema é a condução de um preso por policiais através do sertão, espécie de alegoria ao regime ditatorial. Traduzido no estrangeiro, foi o livro que lhe trouxe notoriedade.

eguiram-se os romances Vila Real (1979), Viva o povo brasileiro (1984), O sorriso do lagarto (1989), O feitiço da Ilha do Pavão (1997), A casa dos budas ditosos: luxúria (1999), Diário do Farol (2002) e O albatroz azul (2009), entremeados com vários livros de contos, crônicas e infantojuvenis.

Concentremo-nos nos romances: na quarta capa do terceiro, Vila Real, Ubaldo já dizia a que vinha: “Sou contra as belas letras, a contrafação, o elitismo. Acho que o principal problema do escritor brasileiro é a busca da nossa linguagem, do nosso fabulário, dos nossos valores próprios”.

É o que se vê com toda a exuberância em Viva o povo brasileiro, um épico que abrange três séculos da história do Brasil contada no espaço do Recôncavo Baiano e no avesso da história oficial. É a saga de um povo em busca de sua identidade e de sua raízes.

O sorriso do lagarto se afasta do universo regionalista, apesar de passar-se em Itaparica. As personagens poderiam viver em qualquer cidade brasileira litorânea, girando em torno de traições, mentiras, vingança e demonismo,

Em O feitiço da Ilha do Pavão retorna o Ubaldo estilista, manejador da língua portuguesa de modo ímpar, não só na sintaxe e no vocabulário, mas também nos elementos satíricos, no riso de si mesmas das personagens e na melhor técnica de montagem da narrativa contemporânea.

No Diário do Farol – narrativa de um religioso monstro, tomado pela doença mental –, o escritor atinge o ápice de sua carreira romanesca. Narrada em primeira pessoa, é uma obra demolidora, ácida, contundente, o que há de melhor em nossa literatura.

Letícia Malard é professora emérita da UFMG.

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