Visitantes se fantasiam de Frida Kahlo no Festival de Inverno

Performance homenageia pintora sessenta anos após sua morte

por Walter Sebastião 14/07/2014 09:10

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Jair Amaral/EM/D. A Press
Eugene Francklin fotografada por Camila Fontenele, depois de "encarnar" Frida Khalo na performance fotográfica (foto: Jair Amaral/EM/D. A Press)
Ouro Preto –
É julho e, portanto, temporada de arte e cultura em Minas. Diversas cidades já estão com palcos armados ao ar livre, espaços realizando oficinas, seminários. O Festival de Inverno Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2014 é bom exemplo. Diariamente, até o dia 20, as atividades começam na parte da manhã e se estendem até a noite, com shows no bar do festival. O tema da programação é Entrecorpos e discute, com palavras e atos, das mais diversas formas artísticas, o corpo em todos os sentidos.


Tem uma performance fotográfica que está sendo apresentada na pequena Galeria de Arte do Sesi de Mariana que anda causando frisson: 'The project: Todos podem ser Frida', da paulista Camila Fontenele de Miranda, de 23 anos. Ela convida os visitantes, de todas as idades, cores e gêneros, a se transformarem na pintora mexicana Frida Khalo (6 de julho de 1907 – 13 de julho de 1954), valendo-se de maquiagem e adereços. Dito assim, tudo pode parecer apenas engraçado, mas é impactante presenciar, ao vivo, a aparição da artista em faces as mais diversas. Mais impressionante até do que as fotografias registrando o fato. Em tempo: os realizadores da mostra não sabiam que exatamente ontem completavam-se 60 anos da morte da artista. A homenagem à passagem da data foi involuntária.


Em fila, na porta de sala onde as pessoas são maquiadas, está trio formado por Betânia Maria, 28, César Lemos e Plínio Carvalho, de 19, a primeira estudante de letras, os dois últimos de história. Todos na expectativa de ser Frida Khalo, nem que seja por um instante. “Frida tem um visual incrível”, observa César, sinalizando motivo de encanto com a proposta. “É brincadeira, mas não é só isso”, defende Plínio, lembrando que se trata de uma artista importante e com obra que toca em questões muito humanas. “A maquiagem faz com que as pessoas incorporem a personagem”, garante Bethânia. Lembrando que a encenação e a replicação da própria imagem é tema da pintora, como mostra o quadro Duas Fridas.

 

Jair Amaral/EM/D. A Press
Camila Brito Borges e Lívia Mourão namesma sessão de fotos para a exposição do festival no Sesi de Mariana (foto: Jair Amaral/EM/D. A Press)
 

 

Kamila Brito, de 21, estudante de direito, saiu emocionada da transformação. “Experimentei a mistura de fragilidade e força, é muito de Frida”, conta, observando que a artista tem beleza exótica, que chama muito a atenção. “O processo todo da proposta é interessante. Resgata uma mulher que mostrava os sentimentos dela”, acrescenta. Lívia Mourão, de 21, também estudante de história, adorou tudo. “Foi muito lindo. Senti-me estranha, uma mistura de romantismo e sofrimento. Frida não é bonita, mas várias pessoas se apaixonaram por ela”, observa, registrando o fascínio que a pintora exercia. Eugênia Francklin, de 20, ao se ver como Frida, no espelho, surpreendeu-se: “Não sabia que era tão parecida com ela”.


Camila Fontelene Miranda, autora do projeto 'Todos podem ser Frida', fica em Mariana desenvolvendo a proposta até quarta-feira. Sempre, das 14h às 16h, ela está na galeria do Sesi. Formada em publicidade e produção de cinema, ela conta que a ideia surgiu da busca de um portfólio mais autoral e poético. Pesquisou a vida da pintora e deu asas ao projeto. Mas estava na dúvida se as pessoas iam participar. Mal postou algumas imagens na internet, recebeu mensagens de amigos querendo participar. Já realizou a proposta em várias cidades de São Paulo. Hoje soma 1 mil fotos de Fridas.

 

Jair Amaral/EM/D. A Press
Os franceses Woytek Mazurek, artista plástico, e Daniel Hourdé, seu assistente, também são Frida por instantes (foto: Jair Amaral/EM/D. A Press)

 

“Não é só uma foto, mas uma experiência de encontro da pessoa com outras coisas que ela tem no íntimo. É quebra de paradigmas”, afirma Camila, observando que a transgressão (“inclusive do machismo”) é o motor da proposta. O público, acrescenta, pode, às vezes, nem conhecer a fundo a história de Frida Khalo, mas reconhece a estética da artista, que, observa, é muito forte. O projeto agora é fazer um livro com as fotos e com as histórias que as pessoas contam durante as sessões de fotos.

 

Troca de Artistas

 

Luiz André, diretor do grupo Sobrevento, dedicado ao teatro de bonecos, apresentou sábado, na Praça Gomes Freire, em Mariana, a peça Mozart moments, realização para a criançada. “Acho o festival de inverno sensacional”, afirma. “Mostra a vocação cultural das cidades históricas do Brasil, que são o berço de parte importante da arte brasileira”, acrescenta. “Turismo, aqui, tem sempre um fundo cultural”, garante. O grupo tem mais compromissos: apresenta São Manuel Bueno, mártir, para adultos, hoje e quarta-feira, às 20h, no teatro do Parque Metalúrgico, em Ouro Preto. Amanhã, às 14h, no mesmo local, fazem palestra sobre o trabalho que realizam.


Tem mais um compromisso: visitam os colegas da Cia. Teatro Navegante de Marionetes, cuja sede, o Ateliê Catin Nardi, em Mariana, funciona como espaço cultural. “São importantes iniciativas assim. Manter um espaço cultural é algo forte para um grupo. Permite aprofundar relações com a cidade, a classe artística e o fazer artístico”, afirma Maurício Santana, outro integrante do Sobrevento. O intercâmbio entre artistas é outro mérito do festival. Mas explica que tal aspecto só está sendo possível porque o grupo está tendo oportunidade de ficar alguns dias na cidade. O que é raro, conta, já que a rotina é chegar no dia da apresentação e partir no dia seguinte.


“A oportunidade de troca de experiências com colegas da mesma área ou de outras é muito positiva. Traz desenvolvimento humano e técnico”, concorda Luciano Almeida, produtor cultural, integrante do Ateliê Catin Nardi. O festival, na opinião dele, é o principal evento artístico e cultural da região. Mas não o único, recorda, porque a região abriga também outras mostras, como o encontro internacional de palhaços. “Trata-se, ainda, da maior vitrine para os grupos que trabalham com cultura nas cidades, e, para o público, oportunidade de acesso a novas linguagens”, acrescenta. Seria bom, continua, haver programas semelhantes durante o ano, de modo a contribuir para a formação de público.

Público Josie Cabral e Alexandre Barbosa, ela educadora e ele secretário, foram com os filhos Alice e Eduardo ver Mozart moments. “É lazer para a família, sem custo e em espaço público”, observa Josie. Ela valoriza a programação para crianças e acha que poderia ser maior do que é. Considera o festival de inverno momento educativo, de diversão e que movimenta o turismo. Na opinião dela, que trabalha no Centro de Referência da Infância e do Adolescente (Cria), apesar de hoje as atividades chegarem a alguns bairros, ainda é desafio envolver mais a população local nas atividades. “Sinto falta de os moradores virem ver os espetáculos ou de os espetáculos chegarem à periferia das cidades”, afirma.


A rarefação do público local nas atividades, suspeita Josie, deve-se à divulgação difusa, que gera percepção do festival como algo para turistas. “A população fica à espera de grandes shows, mas não entende que o festival é feito de várias outras atividades, menores e muito importantes”, ensina. Seria bom, observa, alguma preparação prévia, antes de julho, para receber o evento. Seria de interesse dos professores, exemplifica, monitores apresentando a programação e oficinas, nas escolas. A educadora não aceita o argumento de que adolescente não gosta de arte e cultura: “Esse é o menor dos problemas”, avisa.

 

 

Festival de Inverno Ouro Preto e Mariana Fórum das Artes 2014

Shows, teatro, exposições, seminários etc. Até dia 20, em vários locais de Ouro Preto e Mariana.
Informações no site do festival.

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