Livro póstumo de Bartolomeu Campos de Queirós reúne textos inéditos

Volume organizado por Ninfa Parreiras destaca a herança humanista do escritor mineiro

por Carlos Herculano Lopes 25/06/2014 09:14

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Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Autor de livros para jovens e defensor da leitura, Bartolomeu fez a ponte entre literatura e educação (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Muitas vezes, a publicação de textos inéditos depois da morte de um escritor costuma não corresponder em termos de qualidade aos lançados em vida. Não é esse o caso de Contos e poemas para ler na escola, de Bartolomeu Campos de Queirós, que acaba de sair pela Editora Objetiva, com seleção e apresentação de Ninfa Parreiras, mestre em literatura comparada pela Universidade de São Paulo.

Com autoridade de quem conviveu com o escritor mineiro falecido há dois anos e sobre o qual escreveu vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas, Ninfa Parreiras foi feliz na seleção, principalmente em relação aos escritos autobiográficos, a maioria inéditos em livro. De acordo com ela, alguns foram produzidos a máquina, entre as décadas de 1960 e 1970, e estavam “cuidadosamente guardados em pastas, prontos para ser publicados”.

É revelador o texto de abertura, Singular descoberta da escrita, no qual Bartolomeu, como se estivesse contando um caso a amigos ao cair da tarde, em volta de uma xícara de café, como ele tanto gostava de fazer, fala como era sua relação com a família e, sobretudo, com seu avô paterno, Joaquim de Queirós, ao qual deve boa parte da sua formação humana e literária.

Homem singular, de inteligência acima da média, e com o qual o menino Bartolomeu morou durante certo tempo, seu Queirós, como era chamado pelos amigos, nunca mais trabalhou depois de ganhar uma bolada na loteria. Com dinheiro no bolso, sem ter de se preocupar com a sobrevivência, que de resto era bastante simples, ele ficava a maior parte do tempo debruçado em uma das janelas da sua casa, na pequena Papagaios, cumprimentando todos os que passavam na rua. “Bom- dia seu Queirós”, diziam, e ele respondia, sempre com o mesmo bordão: “Tem dó de nós...”. Em seguida, como um cronista atento ao viver alheio e às triviais coisa do cotidiano, anotava a lápis, na parede da sala, as impressões que tinham ficado de uma conversa: quem casou, quem morreu, quem viajou para a capital, quem estava namorando quem e vai por aí afora.

“Foi nessas paredes que aprendi a ler. O meu primeiro livro foi a parede da casa do meu avô. Ele dizia que, com as 26 letras do alfabeto, podia-se escrever tudo o que se pensava. Eu achava pouca letra para escrever tudo”, registrou Bartolomeu. No mesmo texto, fala do outro avô, Sebastião Brasileiro Fidélis Campos, que tinha olho de vidro, só andava com um terno branco de linho e era homeopata.

Conta sobre sua mãe, “uma leitora voraz”, e discorre sobre o pai, que era caminhoneiro e vivia mudando de um lugar para outro. Bartolomeu viveu em Papagaios, Pará de Minas, Pitangui, Bom Despacho e Divinópolis, antes de se mudar para Belo Horizonte. Aqui passou a maior parte da vida.

Em outros textos de igual encantamento, como “Uma definitiva presença”, Bartolomeu Queirós faz homenagem à inesquecível primeira professora, Maria Campos. “Para tudo ela tinha uma resposta ou outra pergunta na ponta da língua. Dava aulas como se estivesse recitando uma poesia feita de água, névoa ou nuvem”, escreveu.

AMIZADE O convívio com Henriqueta Lisboa, quando já morava em Belo Horizonte, foi fundamental na formação do escritor, que algum tempo depois da morte da amiga poeta comprou e passou a viver no apartamento no qual ela morava na Rua Pernambuco, esquina com Rua Fernandes Tourinho, na Savassi. “Tive o privilégio de conviver com Henriqueta, espírito refinado, ser capaz de viver em poesia, conhecedora sensível do mundo das palavras que servem para apelidar aquilo que em realidade é bem maior que o nome dado”, contou.

Já no texto final, Manifesto por um Brasil literário, o escritor celebra a literatura de ficção como um local em que o ser humano, na sua plenitude, se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, e deixar agir a fantasia. “É na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível”, afirmou. Ao todo, foram publicados 40 textos, sendo que os poemas, num total de 20, são inéditos e breves, “como um respirar vagaroso”, segundo Ninfa Parreiras.

Contos e poemas para ler na escola
De Bartolomeu Campos de Queirós, seleção de Ninfa Parreiras Editora Objetiva, 136 páginas, R$ 26,90

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