Mineiro Rodrigo Albert fala de seu trabalho e do estilo reconhecido dos fotógrafos brasileiros

Fotógrafo que atualmente vive no México destaca a vocação da fotografia feita em Minas para a investigação estética

por Walter Sebastião 19/06/2014 06:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Rodrigo Albert
Rodrigo Albert destaca a vocação da fotografia feita em Minas para a investigação estética (foto: Rodrigo Albert)
Do grupo de fotógrafos contemporâneos de Minas Gerais, há um nome relativamente pouco conhecido, mas presente no circuito internacional de mostras de fotografia: Rodrigo Albert, de 35 anos. É um artista autodidata, que há quase uma década trocou a capital de Minas Gerais pela Europa. Morou primeiro em Paris. “Apaixonei-me por Ingrid Chaves, com quem me casei, e como ela não queria continuar na França, desde 2011 estamos morando no México. Tenho uma filha de 2 anos, que nasceu no México. Chama-se Anitya”, conta o pai coruja, feliz da vida.


O percurso do artista é marcado por momentos dignos de nota. Rodrigo Albert foi o vencedor, no Brasil, do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger (2005/2006), com as séries 'Costumes e ofícios', 'Gente e lugares e 'Mitos'. Em Paris, ganhou prestigiado prêmio para jovens talentos da Galeria Polka (a mesma que representa Sebastião Salgado), escolhido por Marc Ribaud, da turma da agência Magnum Photos. Acrescente-se participação em concursos internacionais, em coletivas em várias partes do mundo e algumas mostras individuais. O ano de 2014, conta o fotógrafo, está sendo dedicado à organização de livros.

A paisagem do Golfo do México, estado de Veracruz, onde vive Rodrigo Albert, rota de chuvas fortes e furacões, já inspirou novo trabalho do artista, a série 'Campo e relatividade', observação sobre devastação da natureza. “Chegamos ao ponto de o ser humano alterar tanto a natureza que ela não existe mais no sentido antigo”, observa, citando o escritor Reinhold Leinfelder. “Intervenho nesta paisagem para criar imagens que remetem a uma nova era geológica, o antropoceno, que estabelece ligação intrínseca e indivisível entre o ser humano e a natureza, como sugere o cientista Paul J. Crutzen”, conta.

Rodrigo Albert
Trabalho da série 'Campo e relatividade', sobre a devastação da natureza (foto: Rodrigo Albert)
Transformação trazida pela longa estada no exterior, conta Rodrigo Albert, foi a dedicação a fotos de grandes dimensões, em busca de expressividade e maior comunicação com o espectador. “Também me preocupei em dar às fotos alta qualidade técnica”, conta. “Observei, vivendo na França, o quanto estava defasado nesse sentido. Hoje, o que se vê nas minhas imagens é cor, forma e linhas, não pixels”, afirma, indicando questões pelas quais tem apreço. O que deu às fotos visualidade impactante.

O desafio criativo posto a quem faz fotografia hoje, para Rodrigo Albert, é a busca da perfeição. Não importa qual a ramificação da fotografia de um artista. Quem usa o suporte fotográfico tem que buscar essa “inexistente perfeição”. Para o artista, é essa disposição que constrói uma boa imagem. Para Rodrigo, a boa recepção aos fotógrafos mineiros vem do fato de serem artistas-pensadores, comprometidos com suas investigações.

Existe uma foto latino-americana ou um jeito brasileiro de fotografar? “Temos um passado e uma história da fotografia. Se pensamos em Miguel Rio Branco, podemos defender que existe um jeito brasileiro de fotografar. Quando apresento uma exposição na Europa, na Ásia ou mesmo na América Latina, sempre escuto que a fotografia brasileira é muito colorida, viva, contrastada. Isso é um jeito brasileiro de fotografar? O vivo contraste colorido brasileiro pode nos rotular? Tenho dúvidas. Não compartilho e discordo desses rótulos”, responde.

Abrindo passagem para a presença de Rodrigo Albert em exposições em todo o mundo esteve ensaio sobre implantação do método carcerário no qual os próprios presos cuidam da segurança da penitenciária, implantado pela Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apacs), em Minas Gerais. A empatia, seja brasileira ou internacional, com as fotos deve-se ao fato de serem visão diferente do que se imaginava ser uma cadeia. Acrescente-se o olhar artístico. “É uma forma ousada de tratar a questão”, observa.

Um jornalista francês, ao ver as imagens das Apacs mineiras, em mostra realizada em Paris, definiu as fotos de Rodrigo Albert como histórias contadas sem pretensão, com conceito simples, belas e cruéis. Imagens da mesma série, que segundo o fotógrafo ganha livro este ano, foram adquiridas para o filme 'Gloria', sobre a vida da cantora mexicana Gloria Trevi, que esteve presa no Brasil por quatro anos, para serem usadas como referência para as cenas de prisão. O ensaio colocou o mineiro entre os finalistas do World Press Photo Joop Swart Masterclass, organizado pela World Press Foundation, de Amsterdã.

TURMA Nascido em Belo Horizonte, Rodrigo Albert foi assistente do fotógrafo Milton Campos. De 2000 a 2002, foi sócio da agência Caixa Preta, em parceria com os fotógrafos João Castilho e Pedro David. Desde 1999, tem participado de mostras coletivas no Brasil e em outros países.

Com relação aos fotógrafos que admira, cita a paulista Claudia Andujar, que dedicou parte de sua vida à causa indígena ianomâmi. “Algumas das fotos delas parecem sonhos”, observa. Gosta muito do trabalho de Cao Guimarães, para ele, um livre contador de histórias e transgressor de limites, que admira pela simplicidade e capacidade de modificar o tempo das coisas. “Também acho muito interessante o trabalho de Mishka Henner, por ser um fotógrafo sem câmeras”, acrescenta, lembrando-se de artista que trabalha com colagens e outros procedimentos gráficos.

Rodrigo Albert
(foto: Rodrigo Albert)
NA BOLA


Trabalhos de Rodrigo Albert têm sempre presença nas mostras na cidade. Em 2012, participou da coletiva Segue-se ver o que quisesse, com curadoria de Joerg Bader, no Palácio das Artes. Atualmente, está com um trabalho na mostra 'Futebol em prosa' (foto), da Manoel Macedo Galeria de Arte. “Sou, como todos os brasileiros, apaixonado por futebol. Ver um jogo à espera de gols é sempre uma coisa emocionante”, observa.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS