Grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone completa 40 anos e prepara documentário

Trupe fez do humor seu instrumento de contestação social

por Ailton Magioli 09/06/2014 07:55

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Arquivo EM
(foto: Arquivo EM)
Por causa dos 40 anos do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, o ator, autor, diretor e produtor Hamilton Vaz Pereira, de 62 anos, se viu recentemente ministrando palestras sobre a trajetória da trupe carioca que ajudou a criar, ao lado de Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães e Perfeito Fortuna. “As pessoas me procuraram para saber como era o grupo, o que produzimos, como eram feitos os espetáculos”, conta. E afirma que, de 1974 a 1984, o Asdrúbal trouxe para o palco simplesmente a alegria de viver. “Quando começamos, por conta da ditadura militar, o palco estava entristecido, receoso e medroso”, recorda Hamilton.


Para ele, até mesmo pela juventude, o grupo trouxe para a cena a afirmação da vida. “O teatro dá sentido à vida. O grego o inventou e ele tem potencial de varar séculos e séculos promovendo a vida. O sentido maior é este”, acrescenta. Ele lembra que no momento em que a música popular cantava que “a coisa aqui está preta” ('Caros amigos', de Chico Buarque) e “não dá pra ser feliz” ('Um homem também chora', de Gonzaguinha), o Asdrúbal chegou para mudar a direção dos ventos.

“Na época, conseguimos inverter uma sabedoria pessimista. O grupo não quis saber deste papo e foi com tudo para o palco, o que foi fundamental para uma década de espetáculos e debates sobre a vida do brasileiro”, pondera Hamilton, recusando comparações com a corrente teatral que viria se firmar uma década depois, batizada de besteirol. “O besteirol surgiu no Rio, no miolo dos anos 1980. São Paulo também tinha algo do gênero, assim como outras capitais. O Asdrúbal acabou em 1984, mas acredito que o besteirol era realizado por uma geração que nos assistiu e frequentava o nosso grupo na plateia. Uma geração que viu o nosso trabalho para se informar sobre o dom da comédia, de fazer rir diante de uma vida insuportável naquele momento que vivíamos”, avalia.

De imediato, ele diz que não conseguia ver em colegas de profissão como Pedro Cardoso, Miguel Magno e Miguel Falabella, entre outros, algo que tivesse a ver com o trabalho do Asdrúbal, já que, em termos de dramaturgia, conquistas de encenação e até de organização profissional, o pessoal do besteirol era menos preparado. “O besteirol era muito aquém”, compara.

Hamilton nega também que o Asdrúbal tenha tido o grupo britânico Monty Python como referência. “Naquele momento não se falava de Monty Python”, protesta, citando companhias americanas como The Living Theatre e The Open Theater, além de outros grupos europeus como influências. Com o tempo, a trupe carioca agregaria artistas como Evandro Mesquita (futuro integrante da banda Blitz), Patrícia Travassos, Patrícia Pillar, Cazuza, Fábio Junqueira, Nina de Pádua e Patrícia Guilhon, entre outros então jovens atores.

Hamilton conta que a primeira vez que ouviu falar em criação coletiva – outra marca do Asdrúbal Trouxe o Trombone, que cultivava ainda a desconstrução da dramaturgia e a interpretação despojada – procurou saber do que se tratava. “Num certo momento, o tipo de trabalho que imprimi com os atores do Asdrúbal tem como base Gogol, de quem montamos 'O inspetor geral', e Alfred Jarry, autor de 'Ubu Rei', que o grupo também encenou.” Já no terceiro espetáculo, sentiram necessidade de uma dramaturgia própria, a partir da criação coletiva.

No recém-lançado documentário 'A farra do Circo', de Roberto Berliner, Regina Casé diz: “Como tem The Beatles, tem The Asdrúbal Trouxe o Trombone. Desde a primeira peça juntamos dinheiro da gente e fizemos uma coisa chamada cooperativa”, explica a atriz, lembrando que tudo que o grupo produzia era de todos os integrantes. Cartaz do Teatro Ipanema em 1978, 'Trate-me leão', garante Regina, “é uma peça sobre a gente, sobre a vida da gente, parecida com a gente, escrita pela gente”.

Na época, embora assinasse dramaturgia e direção, Hamilton Vaz Pereira estampou “criação coletiva” no programa do espetáculo. “Antes da fase de ensaios e improvisações, a gente convidava amigas e namoradas para contarem suas histórias. Em 'Trate-me leão', o nome dos personagens era o dos atores e, em geral, de colegas”, recorda Hamiton Vaz Pereira. “Eram cerca de 80 personagens em 'Trate-me leão', amigos que contribuíram. Criação coletiva para a gente era issto.”

Trajetória de irreverência

No aniversário de 40 anos da trupe, além da série de palestras e do lançamento do documentário que apresenta a criação do célebre Circo Voador, em 1982 – que existiu a partir do Asdrúbal Trouxe o Trombone – Hamilton Vaz planeja novos produtos para a comemoração. O primeiro deles é o longa-metragem 'A farra da Terra', que ele mesmo irá assinar como diretor, a partir da edição do farto material em vídeo que recebeu de amigos. O segundo será uma série de TV, em 10 ou 11 capítulos, para o primeiro semestre do ano que vem, contando a história do grupo a partir de entrevistas e depoimentos, que vem sendo negociada com um canal de TV paga.

O Asdrúbal Trouxe o Trombone, de acordo com Hamilton Vaz Pereira, tinha como princípio não reclamar da censura ou de dificuldades políticas em tempos de repressão. “Tínhamos um certo pudor. Claro que sofríamos com a situação e com a censura, mas havia tanta gente que era torturada e até morria, que preferíamos dizer que passávamos por um momento mais difícil", recorda Hamilton. A prisão dos integrantes do Asdrúbal em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, sob acusação do uso de drogas, também rendeu polêmica. “A imprensa foi maravilhosa, nos apoiando, mas havia, na época, delegados querendo aparecer, prendendo artistas”, lamenta.

Durante uma excursão pelo Nordeste, em 1984, o Asdrúbal Trouxe o Trombone decidiu pelo fim da trupe teatral. “Tinha de acabar, vivemos 10 anos intensamente e, na época, cada um queria usufruir da carreira solo”, justifica Hamilton. Ao chegar em Belém, com o espetáculo 'A farra da Terra', o grupo simplesmente tinha esgotado o ciclo.

Herdeiros do Asdrúbal? “Há muitos grupos de teatro Brasil afora, com 20 anos, 30 anos de carreira, que continuam aí trabalhando. É uma coisa muito boa, envolve muita gente”, avalia Hamilton Vaz Pereira. Ele salienta que, apesar do trabalho de grupos como Arena, Oficina e o do Teatro Ipanema, o Adrúbal ficou como marco. “Com a nossa irreverência, no entanto, não me ocorre nenhum outro grupo”, conclui.

De fininho

Reza a lenda que, até meados dos anos 1970, a expressão Asdrúbal Trouxe o Trombone era apenas um código entre a atriz Regina Casé e o pai dela, Geraldo Casé, um dos pioneiros da TV brasileira. Quando aparecia um chato numa reunião ou ele percebia que a festa estava caída, dizia para a filha: “Olha, o Asdrúbal trouxe o trombone”. A partir de então, pai e filha davam
um jeito de sair da festa rapidinho.

 

Criação coletiva
“O Asdrúbal foi e será sempre uma referência: jeito de trabalhar, criar coletivamente, dividir. Atuações de uma forma sempre divertidas e sem complicações. Aprendi a ser ator com o grupo e, além disso, considerar tudo que envolve o trabalho – figurino, cenário, direção  e tudo mais. Se faço teatro, TV, cinema ou artes plásticas, sempre tenho um comportamento Asdrúbal. Ou seja, reunir, conversar, agrupar... Acredito que o trabalho fica mais bacana.”
. Luiz Fernando Guimarães, ator e fundador do grupo.

Igualdade sempre

“O grupo abriu a minha cabeça para a criação artística. O modo encantado de trabalho, um jeito coletivo e de divisão de poder. Ou seja, cada indivíduo tem sua diferença, mas vota igual, ganha igual. E, na sequência, o Adrúbal me ensinou a acabar bem e se transformar. Com o fim do grupo, cada um se  desenvolveu e potencializou o que aprendeu no convívio diário.”

. Perfeito Fortuna, ator e fundador, presidente da Fundição Progresso.

Minha turma

“O Asdrúbal foi a semente. Eu estava saindo do Teatro Ipanema, que foi a minha grande escola, com Rubens Corrêa e Klauss Vianna, e fui direto para o curso que o Hamilton Vaz Pereira e a Regina Casé estavam fazendo com o Sérgio Britto. Ali já pintou sintonia entre a gente. Logo percebi que  havia chegado em minha turma, minha geração, com formação parecida de vida e de arte, que acabou resultando em criação coletiva. Foi uma vivência muito intensa nos oito anos de grupo.”
. Evandro Mesquita, ator e cantor, integrante da banda Blitz.

ADSDRÚBAL EM CENA
O inspetor geral, 1974
Ubu Rei, 1975
Trate-me leão, 1977
Aquela coisa toda, 1980
A farra da Terra, 1983

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