Nos livros e na telona, 'A culpa é das estrelas' encanta adolescentes de BH

Romance consagra John Green como o autor mais lido no país em 2014

por Carolina Braga 08/06/2014 07:00

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Euler Júnior/EM/D.A Press
Manuella Garzon, Maria Eduarda, Luana Abreu, Laura Costa e Bruna Mendes, fãs do livro de Green, criaram um clube de leitura (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)

A primeira tentativa foi pelo Twitter. Ficou nisso, mas a estudante Luana de Abreu Cavalcanti, de 11 anos, ainda não perdeu as esperanças de receber do escritor John Green uma mensagem, nem que seja um simples ok. Seria tudo para a menina que tem na mão nuvens desenhadas com os dizeres “Okay Okay”, os mesmos estampados na camiseta. Ela quer ir à Indianápolis, nos Estados Unidos, onde o autor mora com a família. Mera semelhança com Hazel Grace e Augustus Waters, os protagonistas de 'A culpa é das estrelas'?


Foi também movido por idolatria que o casal de protagonistas do romance baixou em Amsterdã para conhecer o escritor favorito, o emburrado Peter Von Hauten. E Luana não está sozinha em seu desejo. Manuella Garzon, Maria Eduarda Gontijo, Bruna Mendes, Laura Costa e outras tantas pré-adolescentes no Brasil certamente sonham com uma ida à Holanda. “Meu pai foi e não me levou”, reclama uma delas. A adaptação cinematográfica do livro, que chegou esta semana às telas brasileiras, coloca as jovens em contato com as personagens que tanto amam e com os cenários que até então apenas imaginavam. É prenúncio de altas bilheterias. Não só porque existe o culto em torno do livro, mas porque o resultado é surpreendente.

Aos 36 anos, com seis romances no currículo e a marca de 20 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, John Green é a nova bola da vez. Um fenômeno. As meninas sabem de cor passagens de 'A culpa é das estrelas', conhecem detalhes da trama. Já os garotos, por pirraça, se recusam a ler. Elas não se importam com essa falta de diálogo. Algumas leram o romance mais de uma vez e têm as frases preferidas na ponta da língua. “Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos”; ou: “Alguns infinitos são maiores do que outros”, são algumas delas.

O que chama atenção é que a história não tem nada das fantasias criadas por J. K. Rowlling, autora da série Harry Potter, e muito menos do clima gótico da saga Crepúsculo, outros sucessos dedicados ao público jovem. Em 'A culpa é das estrelas', Hazel e Gus são adolescentes que enfrentam o câncer. Por insistência dos pais, a garota, prestes a completar 17 anos e desde os 13 diagnosticada com a doença, passa a frequentar um grupo de apoio. É onde conhece Augustus Waters, de 18 anos, que perdeu uma das pernas no tratamento de osteorsarcoma. Ficam amigos, se apaixonam tendo sempre por perto o que Hazel chama de efeito colateral do câncer: a possibilidade da morte.

Ou seja, embora tenha passagens cômicas e românticas, 'A culpa é das estrelas' é um drama. O que faz uma adolescente a ler mais de uma vez – e chorar em todas – uma história dessas? “Ao mesmo tempo que é triste é bonito”, diz Manuella Garzon, de 12 anos. “Comecei a ler e logo fui recomendando para outras colegas. Apesar de ter muitas partes tristes, tem outras felizes e engraçadas. Fala que apesar de todos os problemas você pode, sim, curtir a vida”, completa Luana Cavalcanti. “Há um equívoco em achar que felicidade está ligada à alegria. Existe felicidade na tristeza. Ela está ligada à vida interior”, defende a psicanalista Inez Lemos, que vê no livro uma prova de que os jovens não se satisfazem apenas com consumo e superficialidade. “Isso é uma mentira”, protesta.

Assista ao trailer de 'A culpa é das estrelas': 

A identificação das jovens leitoras não fica restrita ao livro 'A culpa é das estrelas'. Luana, Laura, Manuella, Bruna e Maria Eduarda montaram uma espécie de clube de leitura. Fazem revezamento dos seis romances do autor. “John Green escreve com respeito e franqueza, sem subestimar a capacidade de um adolescente de pesar e pensar sobre as grandes questões da vida. E também sobre as pequenas, sobre livros, música, internet, games. E ainda sobre amor, amigos, atitudes e engajamento. O mais importante é que é uma comunicação que vem naturalmente”, afirma Danielle Machado, editora de livros jovens da Intrínseca, responsável pela publicação das obras do autor no Brasil.

Redes sociais

Os direitos cinematográficos de 'A culpa é das estrelas' foram adquiridos antes mesmo de o livro chegar ao mercado americano, dada a expectativa gerada pelo sucesso do autor. “Acho que o viés do reconhecimento de todos romances de John Green é esse poder imenso que ele tem de se comunicar francamente com os jovens, como eles próprios se comunicam. Não só pela literatura, mas nas redes sociais, pelo YouTube. Para os leitores, ele poderia ser o vizinho de porta que puxa papo no elevador”, comenta a editora.

Esperar por uma mensagem de John Green, então, não é uma fantasia. Pelo que ele demonstra nas redes sociais que mantém ou mesmo no canal no YouTube que divide com o irmão, o comportamento do americano defensor dos nerds não tem nada a ver com o alter-ego que ele criou em 'A culpa é das estrelas', o carrancudo escritor Peter Von Hauten. Green é aberto, engraçado e brincalhão.

Em uma rápida passagem pela timeline do escritor no Twitter tem gozação com Bill Gates, que compartilhou um vídeo dele (“agora posso me aposentar”) além de inúmeras críticas internacionais ao filme, combinadas com mensagens aos fãs: “O USA Today chama o filme de ‘quase perfeito’. Claro que o que principalmente me importa é o que você pensa”, publica. Ele sabe mesmo como a coisa funciona.

Atualmente, John Green tem três livros entre os 10 mais vendidos no Brasil em 2014. 'A culpa é das estrelas' é o primeiro da lista, seguido por 'Cidades de papel' (que também vai virar filme em 2015) e 'O teorema de Katherine'. O livro de estreia, 'Quem é você, Alaska?', que chegou por aqui no rastro do maior sucesso de Green, também caiu nas graças dos leitores e frequenta a lista dos mais vendidos nas últimas semanas. Se ficar assim, até o fim do ano, Green, sozinho pode ser responsável por quatro dos 10 livros de ficção mais vendidos no país.

“Quanto mais John Green se torna próximo de seu público, mais o público também se aproxima dele. Junte a isso o carisma e o poder de comunicação incríveis do autor e pronto. Acho que só podemos esperar coisas ainda mais grandiosas”, aposta Danielle Machado. John, no entanto, ainda não assumiu estar escrevendo nada de novo. É hora de aproveitar e, como um nerd já maduro, zombar do glamour hollyoodiano.

John Green em milhões

1,25 milhão de exemplares de 'A culpa é das estrelas' vendidos no Brasil

7 milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos

2,5 milhões de seguidores no Twitter

1,5 milhão de fãs no Facebook

2,1 milhões de inscritos no YouTube

Obra completa

'Quem é você Alaska' (2005)
'O teorema de Katherine' (2006)
'Deixe a neve cair' (2008)
'Cidades de papel' (2008)
'Will e Will, um nome, um destino' (2010)
'A culpa é das estrelas' (2012)

* Todos já lançados no Brasil

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