Instituto Terra concretiza sonho de Lélia e Sebastião Salgado e é tema de exposição

Organização plantou mais de 2 milhões de mudas e está recuperando a mata atlântica. Salgado apresenta 'Gênesis', mostra com fotos da Fazenda Bulcão, no Palácio das Artes

por Alexandre Guzanzhe Carlos Herculano Lopes 02/06/2014 08:28

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Sebastião Salgado/Divulgação Sebastião Salgado/Divulgação
Aimorés –
Duas fotos da Fazenda Bulcão, tiradas em dois tempos, em 2001 e 2013, estão expostas na entrada do Instituto Terra, organização fundada em 1998 por Lélia e Sebastião Salgado. A diferença é impressionante. Na primeira, dá para ver um morro pelado, marcado pela erosão; na segunda, 12 anos depois, já se nota o local totalmente coberto por árvores, quase mata fechada. Dos exatos 709,84 hectares do terreno, 608,69 são reconhecidos como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). É a primeira RPPN constituída no Brasil em uma área degradada da mata atlântica, que já cobriu boa parte do país e hoje quase não existe mais.


O projeto nasceu do sonho do fotógrafo Sebastião Salgado e de sua mulher, a arquiteta Lélia Wanick Salgado, e foi ganhando forma à medida que desenvolviam o trabalho que resultaria em 'Genesis', a grande mostra que será aberta quarta-feira no Palácio das Artes, em BH. O casal percebeu que, ao capturar as imagens do planeta ainda intocado, se insinuava a ideia de recuperar a degradada região onde o fotógrafo passou sua infância e juventude, nas terras do pai, em Aimorés. O que um dia foi exuberante Mata Atlântica estava reduzido a pasto e erosão. Animais silvestres eram raros. Seria possível interferir, com vontade política, recursos financeiros e tecnologia, para fazer brotar na terra o que era apenas um sonho? Nascia o Instituto Terra, hoje referência mundial.

De acordo com o economista capixaba Adonay Lacruz, superintendente do instituto, atualmente são desenvolvidos 33 projetos, como produção de mudas nativas, reflorestamento, educação e extensão ambiental, com atendimento ao pequeno produtor rural. “Já estamos atendendo 25 municípios. Provocamos os produtores e eles também nos procuram. Há quatro anos, começamos a desenvolver um projeto de proteção de nascentes e, desde então, conseguimos recuperar mais de 600 (e 300 estão recuperação)”, diz.

O nome do projeto, um dos mais queridos do Instituto Terra – e também de Sebastião e Lélia –, é Olhos d’água. Por meio dele, para proteger as nascentes cada dia mais escassas, os produtores ganham mourões, arame e grampos para fazer as cercas, além de mudas nativas para o replantio.

Desde a fundação do Instituto Terra, já foram plantadas na antiga Fazenda Bulcão mais de 2 milhões de árvores, que somam 297 espécies nativas. Por causa disso, alguns animais, antes desaparecidos, como pacas, raposas, capivaras, onças e macacos, além de bandos de passarinhos e  diversos tipos de serpentes, começam a voltar. Quanto aos animais domésticos, é proibida a criação na área do projeto, até para uso no trabalho diário ou consumo dos funcionários.


Mas, para manter tudo isso funcionando, e dando certo, também é preciso dinheiro. E dos 33 parceiros do Instituto Terra, que atualmente oferece 60 empregos diretos na região, os principais são a Vale, o BNDES, o Principado de Mônaco e a Samarco. O orçamento da entidade para este ano é de R$ 5 milhões. Para Edna Maria Amorim, gerente financeira do instituto, as doações de pessoas físicas ou jurídicas são necessárias para os projetos continuarem em andamento.

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Viveiros têm capacidade de produzir até 1 milhão de mudas (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
MATA NATIVA Entre os programas do instituto, chama atenção o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (Nere). Coordenado pela educadora ambiental Gladys Nunes, o projeto foi criado em 2005 e já formou 78 alunos, dos quais 84% estão trabalhando na área. Um dos bolsistas do Nere, Henrique Alves, de 18 anos, veio de Alto Rio Doce, no Espírito Santo. “Estou achando uma experiência maravilhosa, pois é uma oportunidade que estou tendo para estudar e, daqui para a frente, começar a ajudar a recuperar a natureza”, diz.

O encarregado do viveiro, Jovanilson do Nascimento, de 24, conta que, atualmente, estão com cerca de 150 mil mudas em estoque, com uma diversidade de 80 a 100 espécies da mata nativa. Dessas, mais de 50 mil  estão prontas para o plantio, o que normalmente ocorre na época das chuvas. “É melhor, pois pega mais fácil e o índice de nascimento é maior”, diz Jovanilson. Hoje, o viveiro tem capacidade para 1 milhão de mudas.

Para chegar a esses números, muito trabalho precisou ser feito. Lélia e Sebastião Salgado encontraram a Fazenda Bulcão bastante degradada. É o engenheiro agrônomo Jaeder Lopes Vieira quem recorda as etapas do projeto. De acordo com ele, gerente ambiental do Instituto Terra, inicialmente, foi preciso fazer análise da paisagem, para descobrir os processos que seriam utilizados. “No caso do instituto, como era tudo pastagem, com predominância para a brachiaria, optou-se pelo plantio total de mudas e controle das pastagens, o que é feito de forma manual ou com utilização de produtos químicos permitidos”, diz.

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Amanhecer na Fazenda Balcão: a mata nativa volta a dominar a paisagem (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Sebastião Salgado/Divulgação
Manoel, de vaqueiro a jardineiro (foto: Sebastião Salgado/Divulgação )
RIO DESVIADO
No início do projeto, quem era meio ressabiado em relação ao sucesso do empreendimento era Manoel Bernardo Lopes, de 74 anos, único remanescente na Fazenda Bulcão desde o tempo do pai de Sebastião Salgado, para quem trabalhava como vaqueiro. Entre idas e vindas, seu Manoel é funcionário da família Salgado há 40 anos e hoje é o jardineiro do instituto. Todos os dias, às 5h, já está de pé, aguando as plantas.

Nascido em Aventureiro, distrito de Aimorés, ele conta que, quando Tião resolveu fazer essa reviravolta toda na Bulcão, achava que iria dar certo “porque as coisas estavam pelos avessos, com desmatamento e erosão. Eu e todo mundo apoiamos, abraçamos a ideia, e não é que deu certo?”, diz Manuel, testemunha antiga da história.

Em contraste com a exuberância da mata atlântica, que começa novamente a fazer parte da paisagem da fazenda, o Rio Doce já não passa mais no meio da cidade. No início dos anos 2000,  foi desviado por nove quilômetros, no trecho que banhava o perímetro urbano, para a construção da Usina Hidrelétrica Eliezer Batista, inaugurada em maio de 2006. O que existe hoje, onde antes eram as corredeiras, é um leito praticamente seco, cheio de pedras, lixo e pernilongos, com um filete de água correndo indeciso por um estreito canal.

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