Ex-baterista de O Rappa, Marcelo Yuka expõe suas dores e lutas em autobiografia

Músico faz duras críticas a seus ex-companheiros de banda. Leia sobre outros músicos que também passaram por momentos dramáticos em suas vidas

por AD Luna 26/05/2014 11:04

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No caminho das setas/Divulgação
Marcelo Yuka abre o peito e se desnuda para o mundo em biografia (foto: No caminho das setas/Divulgação)
No dia 9 de novembro de 2000, uma tragédia se abateu sobre o músico carioca Marcelo Yuka. O então baterista e principal letrista da banda O Rappa, se viu no meio de uma tentativa de assalto, numa noite de quinta-feira, no cidade do Rio de Janeiro. Sua picape Hilux foi atingida por 22 tiros, dos quais nove o atingiram deixando-o paraplégico. Sua vida virou pelo avesso. O incidente é o mote principal do livro Não se preocupe comigo (editora Primeira Pessoa). A obra é fruto de uma série de entrevistas concedidas por Yuka ao jornalista Bruno Levinson.

Com textos na primeira pessoa, Marcelo Yuka abre o peito e expõe angústias, decepções e fraquezas. O texto é fluido e envolvente, apesar de sofrido na maior parte da obra. A sensação de intimidade com o biografado que o texto provoca (é como se ele estivesse conversando com amigos íntimos), também faz o leitor embarcar nas dores do agora ex-baterista. Sentimentos de compaixão (que é diferente de pena) vêm à tona.

As relações, por vezes complicadas, com a família e as diversas mulheres que passaram pela sua vida são expostas de maneira corajosa e explícita.

Contradizendo o que muitos veículos de comunicação afirmaram à época, o músico revela que na hora do assalto não estava tentando salvar a moça que iria ser abordada pelos bandidos. “Nada disso - eu estava tentando era me salvar. Não sou esse herói que quiseram pintar. Eu a salvei, sim, mas foi sem querer”.

Já na ambulância, em momento de extrema fragilidade, Yuka pediu o amparo de uma militar, tentando segurar a sua mão. Mas ela se negou e soltou esta pérola de desumanidade. “Eu não sou paga para sentir pena de você. Sou paga para te socorrer”.



De infância humilde, Yuka cresceu acreditando que a música deve ir muito além do entretenimento. Fazer apenas o público se divertir, dançar e bater palmas não é suficiente. As leituras da juventude o fizeram não compactuar com a atitude de alguns amigos. “Suas ambições se limitavam a trabalhar para comprar um carro, juntar grana e ter uma mulher gostosa com cabelo pintado de louro. O sentido era esse”.

O fato de ter os movimentos limitados e depender de outras pessoas para executar atos outrora corriqueiros são motivos de aflição para ele. Por diversas vezes, ideias suicidas surgiram em sua mente. Yuka também se mostra bastante decepcionado com os ex-companheiros de O Rappa, os quais, na visão dele, não se mostraram devidamente solidários com sua situação. “Os caras foram gananciosos e me tiraram. Em nenhuma outra empresa eu poderia ser mandado embora naquela situação, mas fui demitido da banda que criei”, dispara.

O compositor busca na música, na fé em Deus (porém, não o Deus dos dogmas cristãos) e nos amigos (principalmente, no carinho das mulheres) alívio para todas essas dores.

Divulgação
Capa do livro (foto: Divulgação)
Alguns trechos


Wally Salomão (poeta carioca)
“Sofri muito quando o Waly morreu, e o engraçado é que fui ao velório e paguei o maior mico. Chorei pra caralho e vi o Gil, o Caetano, e eles estavam bem. Deviam estar tristes pelo ocorrido, mas por serem mais velhos, já haviam superado esse tipo de perda outras vezes - eu não”.

O sexo depois do acidente e as mulheres
“O sexo só voltou um ano depois dos tiros (...)”.

“Tomei os tiros aos 34 anos. Ali constatei que nunca tinha feito amor. Nunca, mesmo com as pessoas que eu amava. Amava as minhas namoradas, mas, na hora do sexo, era sexo. Comecei a perceber mais essa generosidade das mulheres comigo”.

O Rappa
“O Rappa é hoje a maior banda cover de si mesma”.

“Fui tirado da banda 50% por ganância e 50% por poder. Irônico, pois meu sucesso aconteceu justamente por me posicionar contra a ganância e o poder. Como as pessoas que cantam o que cantam, cantam o que escrevi, podem ter agido como agiram em situação tão difícil?”.

Nação Zumbi
“(...) O Nação Zumbi foi fazer um show no Canecão. Eles me convidaram para participar. Quando cheguei lá, estava no letreiro: ‘Nação Zumbi, participação especial Marcelo Yuka’. (...) Saí de lá achando que dava, autoestima lá em cima, otimista, motivado”.

Yuka confundindo com um bandido

No hospital, o médico de plantão orientou o funcionário da radiologia a proceder com os exames, urgentemente. Mas ele fez corpo mole e não obedeceu à determinação. Ao ser questionado pelo médico, o operador respondeu: “Doutor, olha a quantidade de tiros que ele levou, olha como ele está vestido. Isso é bandido, doutor!”. Para sorte, de Yuka o médico brigou com o funcionário e o obrigou a cumprir suas orientações.

Serviço:
Marcelo Yuka - Não se preocupe comigo, de Bruno Levinson
R$ 29,90 (livro físico) e R$ 16,99 (e-book)

F.UR.T.O

O Frente Urbana de Trabalhos Organizados era o nome da banda que Marcelo Yuka lançou, depois de sair de O Rappa. O grupo teve em sua formação os percussionistas/bateristas pernambucanos Jam da Silva e Alexandre Garnizé (ex-Faces do Subúrbio). O único disco da F.UR.T.O, Sangueaudiência (Sony BMG), foi lançado em 2005.

Documentário

Lançado em 2012, e realizada por Daniela Broitman, o longa-metragem Marcelo Yuka no caminho das setas mostra o momento de grande transformação pela qual Marcelo Yuka tem passado desde que foi baleado. 

Novo trabalho solo

Canções para depois do ódio é o nome do primeiro disco solo de Marcelo Yuka. O álbum está sendo produzido há cerca de cinco anos, tem participações de  Marisa Monte, Seu Jorge, Leticia Sabatella, Jorge Benjor, Laudir de Oliveira, Céu, entre outros. Para finalizá-lo, Yuka está fazendo uma campanha online. Mais informações no site http://benfeitoria.com/marceloyuka



OUTROS MÚSICOS QUE PASSARAM POR MOMENTOS DIFÍCEIS

Ag. Azimute
O vocalista e guitarrista do Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna (foto: Ag. Azimute)
Herbert Vianna

Na tarde do dia 4 de fevereiro de 2001, um acidente de ultraleve ocorrido em Angra dos Reis (RJ), tirou a vida da então esposa de Herbert Vianna,  a inglesa Lucy, e deixou o guitarrista e cantor do Paralamas do Sucesso paraplégico. Hoje, 13 anos depois, o músico diz que procura canalisar a angústia que ainda sente devido às limitações físicas e da perda da mãe de seus três filhos por meio da música e da convivência com os amigos.

 Knigth/Bilham
Rick Allen, baterista do Def Leppard (foto: Knigth/Bilham)
Rick Allen

Criado no fim dos anos 1970, o grupo inglês de hard rock Def Leppard alcançou grande sucesso mundial logo no início da carreira. Eles seriam uma das atrações do primeiro Rock in Rio, em 1984. No entanto, um acidente de carro, ocorrido em dezembro do ano anterior resultou na amputação do braço esquerdo do baterista da banda, Rick Allen. O músico não desistiu da carreira e com o apoio dos colegas do Def, voltou a tocar se utilizando de uma bateria adaptada. E eles continuam na estrada até os dias atuais.

Ricardo Lopes/Divulgação
O pianista e maestro João Carlos Martins (foto: Ricardo Lopes/Divulgação)
João Carlos Martins

Considerado um dos maiores intérpretes de Bach, o pianista João Carlos Martins sofreu um acidente em jogo treino da Portuguesa (seu time de futebol do coração), realizado na cidade de Nova York, em 1965. Os movimentos da mão direita foram comprometidos e, apesar dos tratamentos, a situação se agravou. Mais tarde, levou um golpe na cabeça depois de realizar um concerto na Bulgária - o que lhe causou problemas nas duas mãos. No início de 2012, ele se submeteu a uma cirurgia no cérebro que o ajudou a voltar a tocar piano e a reger.


Site Promark/Reprodução
Neil Peart, baterista da banda canadense Rush (foto: Site Promark/Reprodução)
Neil Peart
O baterista já foi eleito por revistas especializadas, em vários momentos, como um dos melhores do mundo. Ele também é responsável pelas letras do trio canandense Rush. O músico sofreu um grade baque quando sua filha Selena, de 19 anos, morreu em um acidente de carro, em 1997. Menos de um ano depois, sua esposa, Jackie, faleceria vítima de um câncer. Para enfrentar a dor, Neil Peart empreendeu uma viagem de moto por regiões do Canadá, Estados Unidos e América Central. A aventura foi transformada em livro, que ganhou o emblemático título de Ghost rider - A estrada da cura (Belas-Letras, R$ 39,90)

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