Montagem de 'Hamlet' traz para o palco do FIT a tradição do teatro ocidental

Peça do grupo alemão Berliner Ensemble, fundado por Brecht, encena uma versão da tragédia shakespeariana no Palácio das Artes

por Carolina Braga 16/05/2014 08:17

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Lucie Jansch/Divulgação
Para o Berliner Ensemble, o teatro de Shakespeare tem raízes políticas e ajuda a refletir sobre as questões de nosso tempo (foto: Lucie Jansch/Divulgação)
Em 'Pequeno organón' para o teatro, o alemão Bertolt Brecht (1898-1956) foi categórico: “O teatro pode e deve defender vigorosamente os interesses da sua época”. Era 1948, tempo marcado pelas dificuldades do pós-guerra e um ano antes da fundação do Berliner Ensemble, grupo que se apresenta este fim de semana no FIT-BH. Curiosamente, Brecht se referia a 'Hamlet', de Shakespeare (1564-1616), justamente a montagem em cartaz. “À luz dos tempos que correm e em que estou escrevendo estas linhas, tempos sangrentos e tenebrosos, à luz da existência de classes dominantes criminosas e de uma desconfiança generalizada na razão, da qual continuamente se abusa, creio poder ler esta fábula da seguinte forma: está-se em tempo de guerra.”

O que passará pelo palco do Grande Teatro do Palácio das Artes não é só uma nova perspectiva, mais atual, para os dramas do príncipe da Dinamarca. Pensando no legado de Brecht, é impossível não encará-la também como uma revisão da tragédia. As guerras já são outras. O teatro também.

O diferencial está precisamente no fato de ser feito pela companhia da qual Bertolt Brecht foi um dos fundadores na Alemanha da década de 1940. Eis o pensador do teatro contemporâneo, que não chega ao grau de popularidade do bardo inglês, mas igualmente se converteu em mito. Embora separados por séculos, cada um a seu modo, Brecht e Shakespeare são épicos.

O romancista francês Alexandre Dumas certa vez escreveu: “Depois de Deus, Shakespeare criou mais”. Para o dramaturgo alemão Steffen Sünkel, responsável pela adaptação do texto de 'Hamlet' que o Berliner Ensemble apresenta, o autor de 'Os três mosqueteiros' disse tudo. “Cada geração procura por respostas para a sua própria existência, e os clássicos nos ajudam a questionar e lidar com eles, especialmente quando se trata de experiências dolorosas e existenciais”, afirma. Bertolt Brecht concordaria.

Com direção de Leander Haussmann, o 'Hamlet' trazido ao palco do Palácio das Artes pelo Berliner não hesita no desejo de vingança e segue seu plano de assassinato sem piedade ao longo de três horas e 30 minutos. “Esse 'Hamlet' é de seu tempo, um tempo de violência”, adianta Sünkel. Conectado, portanto, com a atualidade, as cenas têm assumida inspiração em filmes como 'Jogos mortais'  e 'O albergue'. O personagem Polônio, por exemplo, é morto de forma brutal.

“Shakespeare e Brecht pretendiam despertar e intelectualmente entreter seu público. Ambos mostram a vida humana com todos os seus descarrilamentos. 'Hamlet', 'Mãe Coragem', 'Rei Lear' e todos os outros personagens do cosmos desses dois autores nos confrontam com o abismo humano e seus anseios”, analisa Steffen Sünkel.

Cada um a seu tempo, Shakespeare e Brecht foram defensores de narrativas que procuram entender o mundo com todas as suas contradições. Se Brecht desejava transformações políticas, Shakespeare mergulhava na compreensão das ações do homem. “De certa forma, me parece que Brecht procura conscientizar a plateia para levá-la a querer melhorar o mundo por meio da ação. Não é esse o caso de Shakespeare, cuja postura não é simplesmente ideológica”, compara Ron Daniels, ex-diretor artístico da Royal Shakespeare Company e responsável da montagem de Hamlet, encenada no Brasil, protagonizada por Thiago Lacerda no papel do príncipe da Dinamarca.

Como lembra Daniels, Brecht viveu e trabalhou em uma época muito específica para a história do mundo. “Sua intenção era desmitificar o teatro burguês e demonstrar as forças econômicas e sociais que estavam por trás da narrativa. Os atos e ações de um indivíduo são sempre vistos dentro de um contexto político e social”, observa o encenador. No universo shakespeariano não é diferente. “Por isso, diria não que há algo de Brecht em 'Hamlet', mas que há muito de Shakespeare no teatro de Brecht.”

Transformação

Para o professor do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Antônio Hildebrando, o princípio que move o trabalho do dramaturgo alemão é a ideia de que o teatro pode servir de engrenagem para a transformação social. “O que tem de paralelo é que ambos são clássicos e podem ser retomados”, compara. O que o Berliner Ensemble procura fazer, segundo Hildebrando, é evitar que o aspecto histórico – e museológico – domine o clássico, pensando nas provocações deixadas pelo seu idealizador.

Quando soube que o Berliner Ensemble estaria em Belo Horizonte fazendo Shakespeare, o ator do Grupo Mayombe e também professor da UFMG Marcos Alexandre se animou. “Acredito muito em texto que precisa ser ressignificado para nosso contexto. A dramaturgia de Shakespeare está aberta.” Ao refletir sobre os pontos que ligam Brecht a Shakespeare, Marcos lembra o modo particular como o alemão trabalhava a moralidade. No caso do Hamlet, este também é um aspecto forte. “Estou muito curioso para ver como o Berliner vai trabalhar com suas técnicas. Como isso vai aparecer no texto, nas projeções e em outros elementos.”

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Steffen Sünkel
Dramaturgo do Berliner Ensemble

O que mais interessa ao teatro que o Berliner Ensemble faz hoje?

Desde a sua fundação, em 1954, o Berliner Ensemble entendeu-se como um lugar que representa questões de relevância significativa para a sociedade. Um lugar onde diretores, autores e atores lidam intensamente com os problemas do presente, de uma forma artística. Isso corresponde ao trabalho de Bertolt Brecht, que acreditava firmemente na mutabilidade do mundo através dos significados do teatro.

Quais aspectos da obra de Shakespeare, especialmente de Hamlet, que ainda precisam ser mais bem entendidos?

As palavras de Hamlet, “ser ou não ser, eis a questão”, estão em vigor até hoje. Será mais fácil suportar seu próprio destino, em outras palavras, a vida ou a morte? No exato momento em que Hamlet decide agir, não há espaço para dúvidas. Hamlet é também uma peça que nos mostra o quanto, de alguma maneira, você tem que assumir a responsabilidade por suas ações. Elas terão consequências e é preciso que você esteja ciente delas.

Qual a relação que o Berliner Ensemble mantém com as ideias de Brecht, ainda hoje, no palco?

Um pré-requisito essencial da obra de Bertolt Brecht tem sido sempre a mutabilidade do mundo. Nós, como seres humanos, não podemos deter poderes abstratos ou estruturas responsáveis pelas deficiências que estamos enfrentando, mas somos nós que criamos essas circunstâncias e, portanto, que podemos alterá-las. Brecht chamou seu público a refletir e agir. Até hoje, o Berliner Ensemble se posiciona dentro dessa tradição.
 
Hamlet
Sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Confira a programação completa no site do FIT-2014.

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