Escritoras brasileiras apostam em traduções e edições próprias de romances

Carioca Marcela Mariz escreveu e publicou obra em inglês enquanto morava nos Estados Unidos. Mineira Laura Conrado busca editora estrangeira para lançar 'Freud, me tira dessa' no exterior

por Mariana Peixoto 13/05/2014 00:13

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Editora Gutenberg/Divulgação
A mineira Laura Conrado está investindo em sua série de chick-lit e vai à Feira de Frankfurt em busca de novos parceiros (foto: Editora Gutenberg/Divulgação)
Um garoto recebe um convite fora do comum: fazer parte de uma sociedade secreta e avançada, que apenas se revela a alguns escolhidos. A carioca Marcela Mariz era também uma adolescente quando sonhou com o tal garoto. Na época, ela, que já escrevia alguma coisa sem nenhuma pretensão, apenas anotou a ideia central do sonho. Muitos anos mais tarde, quando já vivia na Califórnia – e com muito tempo livre –, resolveu transformar aquele enredo em um romance. Advogada em início de carreira, Marcela escreveu a história de Albert em inglês. Era uma maneira de treinar a língua do país em que vivia. Uma vez pronto, tentou publicar o livro, 'The chosen of Gaia', pelos meios convencionais. Cansada de levar negativas, optou por se autopublicar, prática comum para escritores desconhecidos nos EUA. Lançado pela Amazon em agosto de 2012, 'The chosen of Gaia' vendeu, até agora, 20 mil e-books. Dois anos mais tarde, ganha edição brasileira. O romance saiu pela Editora Gutenberg (selo jovem da Autêntica) e, por ora, somente em papel, sem versão digital.

Misturando ficção científica, fantasia e questões comuns a muitos adolescentes, 'Os escolhidos de Gaia' começa a partir do convite que é feito a Albert, um menino de 15 anos. Em busca de uma vida melhor, ele também leva seus pais e sua irmã para se mudarem para um mundo em que a tecnologia muito desenvolvida é possível em meio a um contato direto com a natureza. Não demora para que a família descubra que a situação não é tão simples quanto parece. Arrastados para o centro de um escândalo, eles passam a viver sob acusações infundadas e a conviver com o perigo iminente. “É bem frustrante receber um não de uma editora com base apenas em uma breve sinopse do seu livro – geralmente quatro parágrafos curtos”, afirma Marcela, que para ser lançada no Brasil não precisou enfrentar nenhum dos problemas que sofreu nos EUA.

Com uma agente brasileira, Marcela, depois do reconhecimento nos EUA – após boas críticas, recebeu convite para se tornar colunista mensal do jornal 'The Orange County Register' –, não precisou passar pelos percalços que teve lá fora para lançar um livro em seu próprio país. “Não entrei em contato com nenhuma editora no Brasil antes de publicar o livro na Amazon dos EUA. Foi a minha agente, Luciana Villas-Boas (ex-diretora editoral do grupo Record), que entrou em contato com a Autêntica/Gutenberg, alguns meses depois do lançamento aqui”, conta ela, que escreve primeiramente em inglês: “Sinto-me mais confortável”. A versão brasileira foi traduzida do inglês não pela própria autora, mas por um tradutor contratado, o escritor Santiago Nazarian.

Digital

A trajetória de Marcela está apenas começando, mas é prática no mercado norte-americano. “Diversos autores iniciantes vêm se destacando e conseguindo contratos com grandes editoras depois de autopublicarem seus livros. E também vem ocorrendo o inverso – autores de nome vêm preferindo a autopublicação de seus livros em vez de lançá-los por meio de editoras.” Mas lá fora o mercado digital é estável, tanto que apenas 5% das vendas de 'The chosen of Gaia' foram em papel. “O e-book tem uma saída muito maior não apenas pelo fato do preço ser bem mais reduzido, mas também por ser acessível a outros países”, conta Marcela, que, também roteirista, já escreveu várias peças e quando vivia no Brasil atuou em séries como 'Malhação' e a extinta 'Linha direta'.

Marcela finaliza um segundo romance, “uma mistura de drama e humor, do qual prefiro não falar, por enquanto”. Acredita que escrever para adolescentes e jovens demanda leveza e um ritmo mais rápido. “'Os escolhidos de Gaia' é uma obra otimista, que lida com experiências universais, como a adaptação a um novo lugar. Mudanças, em geral, são especialmente difíceis de lidar durante a adolescência”, acrescenta Marcela, hoje com 31 anos.

No divã

Da mesma geração, a mineira Laura Conrado, de 29 anos, tenta agora o caminho inverso ao de Marcela. Com contrato com editora nacional, Novo Século, e um livro caminhando para a quarta edição – 'Freud, me tira dessa!', com 12 mil exemplares vendidos –, ela busca contrato com uma editora estrangeira. O romance que a fez abandonar a carreira como jornalista e viver como escritora trata das aventuras de Catarina, uma jovem que leva seus problemas para o divã do analista. Não por acaso, no livro se apaixona pelo terapeuta. Ao contrários de Os escolhidos de Gaia, o romance de Laura é para o chamado público jovem adulto (entre 20 e 30 anos) e faz parte do subgênero chick-lit, a literatura feminina que tem sua representante maior na série britânica 'Bridget Jones'.

“Por causa do sucesso deste livro, no início do ano começamos a pensar numa tradução para o inglês, que seria a porta de entrada para vários países. Também há uma conversa com o mercado argentino, até porque lá a cultura da psicanálise é muito forte. Dizem que para cada argentina existe um analista”, brinca Laura. Em outubro, na tradicional Feira de Frankfurt, a Novo Século levará a edição em inglês de 'Freud, me tira dessa!' para tentar uma negociação. Lançada em 2012, a história de Cat já ganhou uma continuação, 'Freud, me segura nessa!', que acabou de chegar às livrarias. Na narrativa, a protagonista deixa Belo Horizonte e vai viver em Nova York.

Laura, que contabiliza oito anos de terapia, afirma que muito da trajetória de Cat se assemelha à dela mesma. “Apaixonei-me pelo meu analista aos 21 anos e diverti tanto as minhas amigas com minhas histórias, na época, que o livro acabou sendo uma grande oportunidade para rever minha própria vida.” Para conseguir ser publicada – até então havia escrito livros infantis –, ela própria suou bastante. “Quando um autor publica é que seu trabalho começa de verdade. Nunca tive a ilusão de que ao conseguir uma editora ela faria tudo para mim. Fiz assessoria de imprensa, banquei viagens a feiras de livro, passava em livrarias deixando marcador e brindes”, relembra ela, que cuida pessoalmente das redes sociais.

Ator

E a escritora não teve medo da exposição. Na Bienal do Livro de BH de 2012, Laura contratou um ator que se caracterizou como Freud e a ajudou na divulgação. “Tive que ser criativa para divulgar. Às vezes, ficava o dia inteiro em pé (nas feiras) abordando leitor. No começo, me banquei, tirei tudo do meu bolso. Os convites só apareceram mais tarde”, continua ela, que entre uma e outra aventura de Cat deu início a uma série jovem, 'Freud, me tira dessa!' teen, em que personagens adolescentes vão para o divã (o primeiro volume se chama Só gosto de cara errado e o segundo, Quero ser pop, deve ser publicado em novembro. Laura começou esse projeto mirando longe. “Há uma conversa sobre levar essa história para um canal pago de TV. Estou estudando roteiro desde o ano passado para que possa ser uma das roteiristas, caso a série seja adaptada”, finaliza.



Iguais e diferentes

Marcela Mariz
Carioca
31 anos

» Além de escritora, é roteirista, advogada e atriz
» The chosen of Gaia (2012) vendeu 20 mil e-books na Amazon americana
» Os escolhidos de Gaia foi lançado no Brasil pela Editora Gutenberg
» O romance adolescente fala de um garoto que se muda com a família para um mundo aparentemente perfeito, a que somente algumas pessoas têm acesso


Laura Conrado
Mineira
29 anos

» Além de escritora, é jornalista e estuda roteiro
» Freud, me tira dessa! (2012) vendeu 12 mil exemplares no Brasil
» Depois do sucesso do primeiro livro, lançou uma série teen com temática semelhante e o segundo volume, Freud, me segura nessa!. Negocia publicação em inglês de suas obras
» O romance para jovem adulto fala de uma jovem que leva para o divã do analista todos os seus problemas de início de carreira, namoros etc.

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