FIT aquece a discussão sobre o conceito de produção estrangeira

Os espetáculos 'La cena' e 'Memórias em tempos líquidos' estão no centro do debate

por Carolina Braga 13/05/2014 10:26

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Guto Muniz/Divulgação
A uruguaia Jimena Castiglioni contracena com o brasileiro Eliseu Custódio em 'Memórias em tempos líquidos' (foto: Guto Muniz/Divulgação )
O programa dedicado à internacionalização do teatro de Belo Horizonte, o Intercena, ainda nem foi lançado, e a polêmica toma conta dos bastidores do Fit 2014. Isso porque entre os 18 espetáculos internacionais convidados para esta edição, dois deles são, na verdade, produções da cidade com artistas estrangeiros. 'Memórias em tempos líquidos', apresentado no fim de semana passado, tem a uruguaia Jimena Castiglioni como idealizadora e atriz. O outro é 'La cena', da atriz italiana Anita Mosca, há três anos radicada no Brasil.

Por mais que a presença delas na programação internacional soe como um reforço desnecessário aos números de participação de estrangeiros, não há relação direta com o edital que o programa de fomento planeja lançar. São coisas e ações diferentes, embora tratem do mesmo tema: os intercâmbios necessários ao teatro local. “Fiquei um pouco perplexa com a polêmica. A questão da identidade é mais complexa do que morar três anos em uma cidade”, afirma Anita Mosca.

Diálogo 'La cena' estreou em outubro do ano passado na sede da Cia. Pierrot Lunar, no bairro Floresta. Quando o Fit abriu inscrições para montagens locais, Anita se inscreveu, já que a peça foi feita aqui. Mas a atriz também foi conversar com os responsáveis para explicar a particularidade do trabalho. “É difícil falar se é italiana ou brasileira. Minha formação e minhas experiências são todas de lá. La cena não pode ser considerada só uma coisa”, completa.

Depois disso, Anita recebeu com surpresa – e um certo constrangimento – a notícia de que entraria como uma coprodução Brasil/Itália na grade do Fit. “O argumento foi o de que seria parte de um programa que a Fundação Municipal de Cultura estaria pensando para criar pontes entre as culturas. Achei legal, mas claro que não me sinto brasileira. Estou tentando criar um diálogo com a classe daqui”, sustenta. O convite foi específico para a apresentação no Fit, sem qualquer ligação com outras possíveis parcerias de internacionalização. “Da minha parte, nem sei o que é o Intercena. Vou saber hoje.”

Apoio O caso de 'Memórias em tempos líquidos' é um pouco diferente, embora a sensação dos envolvidos seja a mesma. Assim como em La cena, a montagem protagonizada pela atriz uruguaia Jimena Castiglioni e o brasileiro Eliseu Custódio foi apresentada para a comissão que selecionou as montagens locais. O convite para integrar a grade internacional do Fit como coprodução entre Brasil e Uruguai veio com a promessa de que o festival apoiaria a ida do espetáculo ao país vizinho. Se o edital do Intercena nem foi lançado, como isso seria possível?

Diretor geral do Fit, Cássio Pinheiro explica que se trata de um convênio pontual com o Uruguai. Como produtora, Jimena Castiglioni já havia iniciado negociações com o Consulado de seu país em Minas Gerais para dar seguimento à circulação da peça. Como era interesse explícito do Fit fomentar coproduções desta natureza, a atriz aproximou as duas instituições. O festival, de certa forma, pega uma carona, já que foi ela quem correu atrás.

De acordo com Cássio Pinheiro, como havia uma ação da sociedade civil, o entendimento foi de que era preciso coroá-la. “É obrigação do poder público ter um olhar atento para o que está sendo feito pela sociedade civil e oferecer apoio. É bater palma e perguntar, como posso te ajudar?”, diz o gestor. A combinação foi de que o apoio à circulação de Memórias em tempos líquidos seria uma das ações do Intercena.

“Tinha entendido que ele destinaria uma verba para coproduções internacionais, e elas podem acontecer de diversas maneiras”, explica Jimena. Como uruguaia, ela tem trabalhado para estreitar os laços do país com a produção mineira. Foi por intermédio da atriz e produtora que montagens como Amores surdos, do Espanca, e Get out!, solo de Assis Benevenuto, do Quatroloscinco, fizeram temporadas no Uruguai.

O caso da coprodução de Memórias em tempos líquidos é particular e, portanto, segundo Jimena, seria outro tipo de ação para o fomento da internacionalização. Cássio Pinheiro reforça que, paralelamente aos editais, podem aparecer iniciativas pontuais que prescindem da concorrência. “O Intercena vai ter várias frentes de atuação, não é só a questão do edital”, reforça.

Negócios Pelo que foi divulgado, neste primeiro momento, a ação do Intercena dentro do Fit não envolve apoio financeiro direto. O que a Fundação Municipal de Cultura fez foi facilitar a vinda de 11 curadores internacionais e 10 nacionais, para que os artistas locais tivessem oportunidade de realizar rodadas de negócios. Os interessados em participar dos encontros fizeram inscrições prévias. A previsão de lançamento do edital é em outubro. O documento foi elaborado levando em consideração o calendário de eventos nacionais e internacionais. O montante a ser aplicado pela FMC também ainda não está definido.

FIT-BH
Até dia 25, em Belo Horizonte. Programação completa e endereços no www.fitbh.com.br. Ingressos para espetáculos de palco e espaço alternativo R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada), à venda no Mercado das Flores (Av. Afonso Pena com Rua da Bahia) ou pela intenet.


• Programação

HOJE
10h, 13h e 15h30 – Augenblick Dream, no Parque Municipal
19h30 – O caboclo Zé Vigia, CRAS Zilah Sposito
20h – Matéria-prima, no Teatro Francisco Nunes
20h – Orsini marionetes, Casa do Beco
20h – John e Joe, na Funarte MG
20h – As rosas no jardim de Zula, no Teatro da Cidade
20h30 – Pereiras – Festival de Ideias Brutas ep. 01 + Açougue dos Pereiras, Espaço Ambiente
21h15 – Fábrica de Nuvens, no Galpão Cine Horto


EM ESPANHOL

O destaque na programação do Fit de hoje são as estreias em espanhol. Matéria-prima, do grupo La Tristura, de Madri, é uma das grandes promessas. O elenco é formado por quatro garotos de 13 anos, tratando de temas adultos. A outra peça é Orsini marionetes, teatro de objeto feito pelo argentino Ruben Orsini, com dramaturgia em torno dos objetos feitos de resíduos coletados nas ruas. Matéria-prima estará em cartaz até domingo no Teatro Francisco Nunes; Orsini marionetes passará pela Casa do Beco, Centro Cultural Vila Fátima e Teatro da Cidade.


SAIBA MAIS
O que é o intercena

É um conjunto de ações pensadas para fomentar o intercâmbio interacional do teatro de Belo Horizonte. Entre elas está a rodada de negócios, que será promovida amanhã e depois, entre 10h e 13h, no Foyer do Teatro Francisco Nunes. Será o momento em que os artistas vão apresentar seus projetos para programadores nacionais e internacionais.


ESGOTADOS

Estão esgotados os ingressos para as apresentações do grupo argentino Timbre 4. Emília é um drama sobre estrutura familiar, contando a história do reencontro de um homem com sua babá da infância. O espetáculo será encenado nos dias 20 e 21, na sede da Funarte.

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