Artistas plásticos e cenógrafos chamam a atenção com o sofisticado visual de 'Meu pedacinho de chão'

Keller Veiga e Raimundo Rodriguez são responsáveis pelo cenário da novela dirigida por Luiz Fernando Carvalho

por Ana Clara Brant 15/04/2014 07:00

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Tv Globo/Divulgação
(foto: Tv Globo/Divulgação)
Era uma vez uma cidade em que as casas e as demais construções não eram feitas de tijolo ou cimento, mas de sonho e fantasia. Um mundo lúdico que ao mesmo tempo é brinquedo e obra de arte. Apesar de ser cenário, a Vila de Santa Fé existe num espaço de aproximadamente 7 mil metros quadrados no Projac, a Central Globo de Produção, e vem encantando não só o público que assiste à novela das seis, 'Meu pedacinho de chão', como os próprios envolvidos na empreitada. “Quando faço qualquer coisa, crio um ambiente, tem que ser de verdade. Mesmo dentro de um projeto de ficção como uma novela ou um filme, aquilo é real. A gente tem que nivelar por cima. Tanto que nem chamo de a cidade cenográfica de Meu pedacinho de chão. Chamo simplesmente de ‘a cidade’”, destaca o artista plástico Raimundo Rodriguez, responsável pela direção de arte do folhetim.

Sandra Moraes/Divulgação
Raimundo Rodriguez diz que o cenário foi pensado como uma grande obra de arte cheia de detalhes (foto: Sandra Moraes/Divulgação )
A iniciativa idealizada por ele, pelo diretor Luiz Fernando Carvalho e pelo cenógrafo Keller Veiga começou a ganhar forma em maio de 2013. Um galpão/ateliê foi construído no Projac e é lá que fica toda a equipe de criação. Figurinistas, aderecistas, produtores de arte, artistas, artesãos, operários e cenógrafos trabalham integrados e um departamento vai “contaminando” o outro. “É um alto-forno de criatividade. Como todo mundo fica junto nesse ateliê, uma ideia puxa a outra e vira uma rede. O que a figurinista está usando pode me influenciar e vice-versa. O Luiz Fernando gosta muito dessa coisa do improviso e tudo funciona um pouco assim em Meu pedacinho de chão”, pontua o cenógrafo Keller Veiga.

As 28 construções da vila onde moram as crianças Serelepe (Tomás Sampaio), Pituca (Geytsa Garcia) e a professora Juliana (Bruna Linzmeyer) – entre casas dos personagens, igreja, comércio e estação de trem, sendo tudo entrecortado pela linha férrea –, foram feitas de um material com o qual Raimundo trabalha há anos: latas de tintas recicladas com técnica que ele batizou de “latifúndio materializado”. Sem falar que os latões também remetem à ideia do brinquedo antigo. “Depois de abertos esses latões, corto, amasso, prego e tinjo. Quando o Luiz propôs fazer a cidade desse modo, a princípio muita gente achou exagero. Porque aqui estão acostumados a fazer uma cidade cenográfica de forma industrial. Nunca fizeram nada assim. Foi uma empreitada árdua, mas valeu a pena”, destaca o artista plástico.

Keller, que está no ramo da cenografia há mais de 30 anos e participou de grandes produções da telinha, também ressalta o novo padrão que o diretor Luiz Fernando Carvalho trouxe com a Vila de Santa Fé. Ele explica que, geralmente, uma cidade cenográfica é utilizada como elemento a mais em trama e no caso de 'Meu pedacinho de chão' ela é praticamente um personagem e um dos itens principais da narrativa. “Ela é um microcosmo que contém dentro de si todo o universo para contar a história. A novela rola toda ali. E tudo foi possível pela própria dimensão que o Benedito Ruy Barbosa (autor) deu à trama. Menos capítulos, menos atores. Isso permitiu uma outra maneira de trabalhar a produção”, analisa.

Keller Veiga acrescenta que, como praticamente toda a ação acontece na cidade, a novela tem apenas dois estúdios: a casa do coronel Epa (Osmar Prado) e a de Pedro Falcão (Rodrigo Lombardi), bem diferente dos demais folhetins. Só para efeitos de comparação, o cenógrafo recorda que na última produção em que assinou o cenário, 'Aquele beijo', chegou a ter 180 estúdios montados. “Normalmente, uma novela tem de 30% a 35% de cenas externas, ou seja, a grande maioria das cenas é dentro dos estúdios. Em 'Meu pedacinho de chão' é justamente o contrário, para você ver a força que essa cidade cenográfica tem”, frisa.

Ele completa que uma das vantagens é que não é necessário ficar montando e desmontando toda hora, mas o processo tem outro tipo de exigências e cuidados. “Apesar de ela estar aqui fixa, a cidade está sempre em mutação. Vai ter mudanças de estação, a própria ação do sol e da chuva modificam as tonalidades e alguns objetos estão sendo criados a todo momento lá no ateliê para serem acrescentados. Há um maneira de filmar usando planos não convencionais, com vários posicionamentos de câmera. Justamente para não criar essa monotonia”, avisa Keller, que lembra que a cenografia não tem nenhum compromisso com a realidade, época, proporções ou estilo arquitetônico definido.

Keller Veiga/Divulgação
Keller Veiga e equipe se sentem em casa na cidade cenográfica (foto: Keller Veiga/Divulgação)
Pintura


Sem querer fazer trocadilho, cada pedacinho de chão, de casa, de loja e dos cenários foi minuciosamente pensado e trabalhado. Raimundo Rodriguez diz que vê o espaço construído como uma verdadeira obra de arte e por conta disso tem que ter o mesmo cuidado que um quadro, uma pintura, escultura ou algo do gênero. “Não tem nenhum lugar, nenhum cantinho daqui que não foi pensado dessa forma artística e revestido com muito carinho. E não importa se vai ser filmado ou não, se vai ter plano fechado ou aberto. É um cuidado de obra de arte e obra de arte tem que ser respeitada de todas as maneiras”, salienta. O artista ressalta que nenhuma das construções é igual à outra, assim como nenhuma porta, janela ou parede é semelhante e que levou em consideração o arquétipo e a personalidade de cada personagem. “É uma obra em processo de transformação e um novo conceito para mim. O que me interessa é a arte, estou aqui por ser artista”, resume.

Já para Keller Veiga, o diretor Luiz Fernando Carvalho criou uma expectativa dentro e fora da televisão. Além de propor uma plástica e uma estética da luz, ele cria sensações visuais muito bonitas e diferentes. “Luiz traz cores chapadas, de desenho animado, toy art e também esse pessoal que trabalha com arte de rua. Ele vislumbra muitas possibilidades no cenário. É uma coisa mágica, sensacional. E vou confessar a você: apesar de já estar há anos no ramo, a gente é casca grossa, mas tem dias em que saio daqui com lágrimas nos olhos, tamanha a emoção. Ainda mais que sou do interior de Minas e essa coisa do trem de ferro me traz uma memória afetiva, de infância. Não me canso de me encantar. É absolutamente maravilhoso”, entusiasma-se Keller.

Os criadores

Keller Veiga – Mineiro de Três Pontas, o cenógrafo, que está na TV Globo desde os anos 1980, é formado em arquitetura pela UFMG. Participou como cenógrafo titular ou como integrante das equipes de cenografia de 'Engraçadinha', 'Agosto', 'O fim do mundo', 'Incidente em Antares', 'Dalva e Herivelto', 'Que rei sou eu', 'Torre de Babel', 'O cravo e a rosa', 'Esperança', 'A farsa da boa preguiça', 'Aquele beijo', entre outras produções. Atualmente, além de ser responsável pela cenografia de 'Meu pedacinho de chão', está em 'Pé na cova'. Tem trabalhos para o teatro, cinema e shows.

Raimundo Rodriguez
– Artista plástico cearense, radicado no Rio, tem trabalhos com pintura, desenho, escultura, instalações e gravuras. Já trabalhou com o diretor Luiz Fernando Carvalho nos programas 'Hoje é dia de Maria', 'A pedra do reino', 'Capitu' e 'Alexandre e outros heróis'. Raimundo assume direção de arte na TV e no teatro. No ano passado, teve uma de suas obras na comissão de frente da Beija-Flor, um cavalo-robô montado por um São Jorge guerreiro e que encantou o público da Sapucaí.

Referências dos cenários

    Os pintores Van Gogh e Marc Chagall
    Os cineastas Akira Kurosawa e Tim Burton
    Histórias em quadrinhos

Fique de olho

    Árvores coloridas com mantas de crochê confeccionadas na cidade de Inconfidentes, no Sul de Minas
    Casa do coronel Epa, inspirada em castelos russos
    Ponte inspirada em quadro de Van Gogh
    Carrossel de esculturas de vacas denominado “curral-céu”
    Animais articulados que se movem, como o cavalo de Zelão, as galinhas, os gansos e os porcos
    Plantações e jardins artificiais feitos artesanalmente
    Foram 20 toneladas de latas utilizadas para construir a cidade cenográfica

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