Alfredo Volpi ganha exposição abrangente idealizada pela curadora Denise Mattar

As obras mostram como se desenvolveu a estética particular do aclamado "pintor das bandeirinhas"

por Walter Sebastião 13/04/2014 00:13

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Fotos: Almeida e Dale/reprodução
SÉRIE FACHADAS (foto: Fotos: Almeida e Dale/reprodução)
“Volpi é artista eterno, faz parte do para sempre”, afirma Denise Mattar. O suave sorriso de uma das mais importantes curadoras brasileiras é um indicador do quanto a obra de Alfredo Volpi (1896-1988) encanta – e não só intelectualmente. Por um ano, Denise conviveu com os trabalhos do pintor. Disso resultou a deslumbrante exposição Volpi – a emoção da cor, em cartaz até 29 de maio na galeria paulistana Almeida e Dale.

“Volpi é unanimidade nacional”, diz Denise Mattar. Singular pelo volume de obras, a mostra exibe 80 trabalhos criados entre os anos 1920 e 1970. Inéditos surgem ao lado de criações emblemáticas, permitindo perceber a formação e as transformações da linguagem do artista que dedicou meio século a seu ofício.

Apresentada em galeria privada, a exposição não tem peças à venda. Ali está o conjunto reunido por Denise Mattar com a colaboração de colecionadores de todo o país. Minas Gerais está presente com uma pintura pertencente a Segismundo Gontijo. Representantes de importantes instituições internacionais e de casas de leilões se interessaram por essa mostra. “Para eles, é o momento de conhecer a obra de Volpi”, explica a curadora.

“Volpi é um mestre da cor. Não a cor fria, mas a afetiva. O artista produziu a sua própria tinta, o que lhe permitiu fazer exatamente o que queria”, observa Denise, destacando a enfática autoconsciência estética desse operário da arte. O pintor morou a vida inteira no Cambucci, bairro próximo ao Centro de São Paulo, ao lado da mulher, Judite, e dos quatro filhos, três adotados. Ele mesmo cuidava dos chassis, de esticar as telas sobre eles. Preparava as tintas e fazia as molduras. Para Volpi, esses aspectos são parte do processo de pintar. “Eu não falo, eu pinto”, declarou ele certa vez. E ainda: “Para mim, só existe a cor…‘Assunto’ não é pintura”.

Levar Volpi a outros pontos do país até seria positivo, afirma Denise, mas a missão não é nada simples. “Pintura tem seguro caro. O colecionador tira a obra de dentro de casa e, com razão, quer a certeza de que ela estará segura e garantida”, observa. A falta de espaços expositivos com infraestrutura adequada é outro complicador para a itinerância de projetos dessa natureza. “A situação está mudando, temos visto a expansão de locais adequados. Só que os recursos para a arte e a cultura continuam restritos”, lamenta ela.

Mundo

A melhor inserção de Alfredo Volpi no cenário internacional ainda é algo a se concretizar. Mas a questão está posta, até porque ele mereceu, em vida, a atenção de teóricos importantes. Conta a lenda que o inglês Herbert Read forçou a concessão a ele do prêmio de melhor pintor na Bienal de 1953, dividido com Di Cavalcanti.

Neste momento em que a geometria brasileira é vista com interesse no mundo, Denise Mattar lembra que, na década de 1950, Volpi participou das primeiras exposições concretistas, ao lado de Hélio Oiticica e de Lygia Clark. A dupla de brasileiros desenvolveu a estética que, gradativamente, vem sendo entronizada na história da arte mundial.

Mergulho didático


Denise Mattar marca presença importante no cenário brasileiro. Exposições idealizadas por ela combinam observação de motivos plásticos e contextualização histórica. A curadora organizou mostras dedicadas a Ismael Nery, Aldo Bonadei, Mary Vieira e Flávio de Carvalho, entre outros autores.

“Gosto de fazer exposições que permitam ao visitante compreender o trabalho do artista, mergulhar na obra. Às vezes, é preciso mergulhar também na vida do autor”, afirma Denise Mattar.

Leva a assinatura dela a mostra Olhar modernista de JK, apresentada no Palácio das Artes em 2008. Trata-se da reconstituição de exposição realizada na capital mineira, em 1944, a maior dedicada à arte moderna até então. “Mostrei que o modernismo brasileiro tem três momentos: a Semana de Arte Moderna de 1930, em São Paulo; a exposição no Rio de Janeiro, em 1931; e a exposição de 1944, em BH”, explica. “Hoje, as pessoas começam a incluir a exposição de 1944 na bibliografia delas. Não se trata de dizer que não havia estudos. Consegui reunir as obras originais – e isso faz muita diferença”, defende.

A exposição dedicada a Volpi a partir do acervo de colecionadores de todo Brasil, inclusive de BH (Segismundo Gontijo) é a segunda com esse perfil realizada pela Galeria Almeida e Dale. A primeira foi dedicada ao pintor paulista Aldo Bonadei (1906-1974). Criado em 1995, o espaço pertence a Antônio Almeida, Ana e Carlos Dale.


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Da tipografia à Bienal de SP


Alfredo Volpi nasceu na cidade italiana de Lucca, em 14 de abril de 1896. Dois anos depois, chegou a São Paulo com a família. Ele frequentou a escola até os 12 anos, quando foi trabalhar numa tipografia. Ajudante de pintura decorativa em residências e decorador, ele criou suas primeiras obras de arte, sobre madeira e papelão, entre 1918 e 1925. Começou a participar de salões na década de 1930, integrando-se ao Grupo Santa Helena, uma espécie de ateliê livre.

Em 1939, Volpi conheceu o trabalho do pintor Emygdio de Souza, artista popular com linguagem despojada e sintética. Aos poucos, foi desenvolvendo o mesmo tipo de proposta em obras com tons religiosos e observações do universo popular. Fez sua primeira mostra individual em 1944, na Galeria Itá. Cada vez mais ousadas, suas simplificações e sínteses levaram às famosas bandeirinhas, às fachadas, aos mastros e a abstrações geométricas que encantaram articuladores do Movimento Concretista. Em 1953, Volpi dividiu com Di Cavalcante o prêmio de melhor pintor nacional concedido pela Bienal Internacional de São Paulo.

Duas perguntas para...

Antônio Almeida
Galerista


Qual a importância da exposição dedicada a Volpi?
O nosso objetivo não é a venda, mas romper barreiras. É um trabalho de formação de público e de educação para a arte. Nos últimos 10 anos, a situação das artes visuais melhorou, mas está longe do que gostaríamos. Essa exposição mostra que há colecionadores importantes espalhados por todo o Brasil. O mercado não se limita apenas a São Paulo, mas envolve Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Ceará.

Como você vê a chegada de galerias de outros países ao mercado brasileiro?
Isso é muito bom. Traz artistas importantes para o país e criadores brasileiros vão sendo descobertos por galeristas internacionais. O Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova York, tem uma coleção importante de brasileiros. Ter nossos artistas em galerias reputadas colabora para a divulgação e a valorização da cultura do país.


VOLPI – A EMOÇÃO DA COR

Galeria Almeida e Dale. Rua Caconde, 152, Jardim Paulista, (11) 3887-7130.

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