Exposição 'Elas, Madalenas' lança olhar sobre vida cotidiana de travestis e transexuais em BH

Mostra do fotógrafo Lucas Ávila entra em cartaz no Memorial Minas Gerais Vale

por Bossuet Alvim 09/04/2014 08:10

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Lucas Ávila/Divulgação
Fotos de Lucas Ávila combatem estereótipo sobre travestis, transexuais e transgêneros: ''Quis mostrar o que não se relaciona ao sexo, o que faz parte da vida de todo mundo'' (foto: Lucas Ávila/Divulgação)
Curiosidade pelo cotidiano alheio foi o primeiro passo na aproximação do fotógrafo Lucas Ávila com as personagens intensas que ilustram suas imagens. "Eu via as travestis na rua durante a noite e sempre tive muito interesse de saber como era a vida delas durante o dia. Para matar minha curiosidade eu coloquei a fotografia no meio", explica o artista, que inaugura a exposição 'Elas, Madalenas', na noite desta quarta-feira, 9, no Memorial Minas Gerais Vale.

 

Nos registros de Ávila, travestis, mulheres transexuais, drag queens e andróginos aparecem em situações corriqueiras, envolvidas em trabalhos domésticos e outras ações do dia a dia. As lentes do fotógrafo trabalham para combater o estereótipo que reduz a população trans aos papéis sexuais. "Quis mostrar o que não se relaciona ao sexo, o que faz parte da vida de todo mundo", ele conta. Formado em jornalismo e com experiência em outros retratos de grupos com repertório cultural e comportamental específico — já fotografou prostitutas, acampamentos sem-terra e tribos indígenas — Lucas precisou do apoio de suas modelos para o projeto, uma vez que os retratos dizem respeito à intimidade de cada uma.

 

Lucas Ávila/Divulgação
Retratos de gestos cotidianos revelam intimidade das modelos (foto: Lucas Ávila/Divulgação)
A princípio, as retratadas estranharam a ideia. "As travestis em geral gostam de fotos muito produzidas e glamourizadas. No começo não entenderam muito a proposta, mas fui esclarecendo minha intenção: mostrar que elas tinham uma vida como qualquer outra pessoa", relata o autor, que fez mais de três mil cliques até chegar às 16 imagens selecionadas para a mostra. 

 

O artista admite ter percebido nas modelos travestis e trans "um pouco de medo de serem retratadas de alguma forma que não fosse deixá-las bonitas", mas relaciona a origem da resistência de suas personagens a problemas sociais bem mais graves, como a intolerância. "São pessoas que recebem o 'não' por todos os lados", ele reflete.

 

"Dentro de casa, muitas são expulsas com 12, 13 anos pelas famílias, quando começam a assumir a identidade de gênero. Depois recebem um não nas escolas, que não estão preparadas para receber esse público, e também dos hospitais, que não as tratam pelo nome social", exemplifica. A convivência com pessoas trans e travestis lhe rendeu a percepção de que "também recebem não da polícia e  da mídia, que sempre retrata essa parte da população vinculada a situações marginais".

 

Por levar em conta o histórico de opressão comum à maioria das pessoas fotografadas, Lucas Ávila não se impressionou quando as travestis e transexuais se recusaram a posar. "Seria muita ingenuidade da minha parte se achasse que seria facilmente recebido logo ao chegar. Demorei uns seis meses para conseguir a primeira foto", conta o artista, que dedicou-se por três anos à relação com suas retratadas. "Acabei fazendo grandes amigas. Criamos uma relação de muito respeito e, depois de um ano e meio de projeto, eu já fotografava tranquilamente", narra o autor da exposição.

Lucas Ávila/Divulgação
Anyky Lima, 59, posou para as lentes de Ávila e tornou-se grande incentivadora do projeto: ''Precisamos ocupar todos os espaços a que temos direito'', declara a militante (foto: Lucas Ávila/Divulgação)
"Não somos máquinas de fazer sexo"

Representante em Minas da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Anyky Lima foi uma das retratadas em 'Elas, Madalenas' e se encantou pela ideia. "Essa iniciativa do Lucas Ávila caiu do céu para mostrar ao público o outro lado das travestis e das trans", ela comenta. Em sua opinião, a opinião pública "nos trata como objetos sexuais, mas somos pessoas como outras quaisquer. Somos seres humanos que cozinham, trabalham em casa, cuidam do cachorro", observa.

 

Anyky comemora a proposta das fotos de Lucas, que mostram transexuais e travestis em "uma vida normal como outra qualquer. Não somos máquinas de fazer sexo, somos seres humanos". Para a militante, o contato com as fotos pode ajudar a sociedade a desmistificar a relação desta parte da população com o exercício da prostituição. "É preciso perceber que o espaço da travesti não é só na esquina. Este é um direito dela, se é ali onde ela trabalha, mas todas têm que ser vistas como seres humanos completos", opina Lima.

 

Com boa parte de seus 59 anos dedicados à luta pelos direitos de LGBTs, Anyky tornou-se personalidade influente entre as travestis de Belo Horizonte. Presidente do Centro de Luta Livre Orientação Sexual (Cellos), principal representação da população LGBT no estado, foi ela quem apresentou a ideia de Ávila a várias modelos do projeto. "No começo elas ficaram meio desconfiadas, porque são pessoas que não estão acostumadas com alguém que faça algo por elas. Mas depois que viram outras topando e posando, quiseram fazer também", explica a ativista.

 

Fábio Lamounier/Arquivo pessoal
Lucas Ávila apostou no 'crowdfunding' para financiar exposição e obteve o dobro do resultado esperado (foto: Fábio Lamounier/Arquivo pessoal)
Financiamento coletivo
O fascínio de Lucas Ávila pelo tema levou à produção intensa de imagens, que ganharam corpo como um projeto único. Ele explica que, a princípio, não tinha certeza de como organizar o material. "Inicialmente eu não pensava em expôr estas fotos, mas passei a conhecer cada vez mais pessoas", relembra. "Aí tive a ideia do crowdfunding, pensando em arrecadar o suficiente para uma exposição", conta o artista.

 

Divulgada pela internet, a proposta de financiamento coletivo conquistou apoiadores e reuniu o dobro do valor estipulado. "Pedi R$ 6,5 mil e recebi mais de R$ 14 mil no fim das contas", explica o fotógrafo, que aproveitou a vantagem para aprimorar o material apresentado.

 

"Pude rodar um programa da exposição e melhorar a qualidade da impressão. O que sobrou, em torno de R$ 2 mil, vou doar para a Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)", revela Lucas.

 

O fotógrafo declara-se admirador do trabalho promovido pela instituição, que combate a transfobia — discriminação ou opressão de pessoas com identidade de gênero diferente daquele registrado em nascimento. De expressão nacional, a Antra oferece apoio jurídico à população transexual e transgênera, além de apoiar iniciativas de integração social, como cursos de capacitação profissional.

 

'Elas, Madalenas'

Exposição de Lucas Ávila no Memorial Minas Gerais Vale (Praça da Liberdade). De 9 a 29 de abril. Funcionamento: terça-feira, quarta, sexta e sábado, das 10h às 17h30; quinta-feira de 10h às 21h30; domingo de 10h às 14h. Abertura nesta quarta-feira, 9, com show de Dolly Piercing e mesa de debates sobre visibilidade de travestis e transexuais. Entrada franca.



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