Ferreira Gullar conversa com leitores no projeto Terças poéticas, em Belo Horizonte

Escritor anuncia o lançamento de novo livro com artigos críticos sobre artes visuais

por Ana Clara Brant 08/04/2014 08:00

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Ana Clara Brant/EM/D.A Press
(foto: Ana Clara Brant/EM/D.A Press)
Há pelo menos quatro anos Ferreira Gullar não escreve um poema inédito. E pode até ser que nem escreva mais um novo. Seu último livro dedicado ao gênero, 'Em alguma parte alguma', lançado em 2010, quando completou 80 anos, trazia versos que tratavam dessa angústia de criar poesia, como em “Fica o dito por não dito” (“o poema antes de ser escrito/ não é em mim/ mais que um aflito/ silêncio ante a página em branco/ ou melhor/ um rumor branco/ ou um grito que estanco/ já que o poeta que grita erra e/ como sabe bom poeta (ou cabrito) não berra”). “Nem sei por que não escrevi mais poemas… Mas escrevi outras coisas, como ensaios, crônicas, tenho feito colagens. Poesia não é uma coisa que você decide. Ah, hoje eu vou fazer poesia. Tem que estar no clima. Caso contrário, sai bobagem”, analisa Gullar.

Considerado o último grande poeta brasileiro nas palavras de Vinicius de Moraes, o maranhense de 83 anos é a atração desta terça-feira à noite do projeto Terças poéticas, no auditório do câmpus da Una na Rua Aimorés. O encontro presta homenagem ao ícone da literatura brasileira e sua mais conhecida obra, 'Poema sujo'. Entrada franca, mediante distribuição de senha, que será feita uma hora antes do evento.

Gullar participou do mesmo projeto em 2010, ano em que foi agraciado com o Prêmio Luís de Camões, o mais importante da comunidade de países de língua portuguesa. Agora, ele retorna para comemorar os 10 anos do projeto. “Gosto muito desses encontros tête-à-tête com o público, desses debates com as pessoas. Imagino que gostam muito de mim, porque tenho sido convidado com frequência para participar desses eventos (risos). É bacana, porque levantam questões pertinentes e interessantes”, comenta.

Com tantas participações em feiras literárias, encontros de poesias, debates e afins, Ferreira Gullar acabou se transformando em uma celebridade a contragosto. Ele, que também é crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e dramaturgo, revela que costuma receber textos de jovens poetas, seja nas ruas ou por e-mail e até cartas. “Muita gente me aborda nas ruas, seja para me cumprimentar, tirar fotos, pedir autógrafos ou mesmo pedir opinião sobre um determinado poema. Brinco que, lamentavelmente, estou virando um popstar. Às vezes me perturba, mas no geral é simpático”, garante.

Sem andar de avião há muitos anos, o poeta já está acostumado a fazer suas viagens de carro. E mesmo com seus 83 anos não se cansa de enfrentar as péssimas condições das estradas brasileiras. “É um pouco cansativo, tanto que estou até diminuindo o ritmo. Mas como não viajo de avião, é o preço que a gente paga. Mas se for para viajar, prefiro o chão”, frisa.

Poços


Gullar virá hoje e já amanhã cedo volta para o Rio de Janeiro, onde mora. No fim do mês ele retorna a Minas para ser o grande homenageado do Festival de Literatura de Poços de Caldas. Em sua nona edição, a Flipoços terá como temas a cultura popular na arte da literatura e os 50 anos do golpe militar. E suas vindas às Gerais este ano não param por aí. Como foi o ganhador do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2013 pelo conjunto da obra, Ferreira Gullar voltará ao estado para participar da cerimônia oficial de premiação. A data ainda não foi definida.

“Fico lisonjeado tanto com esse prêmio quanto com a homenagem. Minas e os mineiros sempre me trataram muito bem. E o carinho e o respeito são recíprocos. Além de admirar Carlos Drummond, Murilo Mendes e tantos outros, sempre tive uma relação muito forte de admiração e amizade com Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Amílcar de Castro”, pontua.

Se por enquanto não há nenhum livro de poemas em vista, Gullar adianta que devem chegar ao mercado, ainda este ano, publicações de colagens e uma obra no estilo de 'Relâmpagos', que reúne ensaios sobre artes plásticas escritos ao longo de quase 50 anos, onde cada texto é acompanhado pela reprodução da obra analisada. “O livro se chama 'Alquimia do ver' e traz textos mais poéticos do que críticos”, diz.

Saiba mais

Poema sujo


Publicado em 1975, Poema sujo é considerada a obra mais ousada de Ferreira Gullar. Produzido no exílio, em Buenos Aires, surgiu da necessidade de “escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”. Numa época de forte repressão política, Gullar se sentia acossado pela ânsia de rememorar o passado e a dificuldade de expressar, em linguagem poética, o universo interior, o que transparece logo nos primeiros versos do texto. A obra, escrita durante o regime militar, foi inicialmente lida pelo autor na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires, a pedido do poeta Vinicius de Moraes, que gravou o recital e, a partir daí, promoveu uma série de recitais onde os versos eram ouvidos por plateias diversas.

Terças Poéticas com Ferreira Gullar
Nesta terça-feira, às 19h, no auditório do câmpus da Una (Rua Aimorés, 1.451, Lourdes). Os ingressos serão distribuídos gratuitamente com uma hora de antecedência. Informações: (31)3235-7314 ou pelo e-mail: contato@casauna.com.br

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