Teatro Invertido completa 10 anos, prepara turnê nacional e anuncia nova peça, 'Noturno'

Texto do espetáculo é de Sara Pinheiro e direção de Yara de Novaes e Mônica Ribeiro

por Carolina Braga 01/04/2014 06:00

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Ramon Freitas/EM/D.A Press
(foto: Ramon Freitas/EM/D.A Press)
Foi na cantina da universidade, lugar onde amizades se estreitam, os assuntos vão muito além da sala de aula e até os amores vêm e vão, que um grupo de três estudantes de artes cênicas começaram a perceber que o interesse pela pesquisa os unia. Leonardo Lessa e Rogério Araújo, então do terceiro ano, e Rita Maia, no segundo, tinham em comum o gosto pela experimentação.

“Para nós, era muito novo estar na universidade, mas havia pouca possibilidade de dar continuidade aos nossos interesses no formato de disciplinas acadêmicas. A pesquisa nos dava chance de verticalizar mais”, lembra Leonardo Lessa. “Considero que fiz a graduação com uma espécie de laboratório”, completa Rita. Daí surgiu o grupo Teatro Invertido. Na bagagem da faculdade, já havia um espetáculo: 'Nossa pequena Mahagonny' (2003), com direção de Lenine Martins.

O nome veio de uma intuição, mas como o negócio era pesquisa, a passividade do espectador foi o ponto pelo qual começaram a questionar papéis fixos na cadeia de um espetáculo. “Seja em palco italiano ou alternativo, toda peça provoca uma participação ativa do público. Com essa inversão de olhares, buscamos radicalizar. Não é só o espectador que me olha, também o observo. Estamos jogando com o outro o tempo inteiro”, diz a atriz Kelly Crifer.

A escolha por palcos menos convencionais continua sendo uma máxima. 'Mahagonny', o primogênito, foi de rua. Na sequência, 'Lugar cativo' (2004), 'Proibido retornar' (2009); 'Estado de coma' (2010) e 'Os ancestrais' (2013) foram apresentados em espaços alternativos, com a disposição da plateia diferente da habitual. 'Medeiazonamorta' (2006) radicalizou essa proposta ao ser encenada na zona boêmia de BH, com parte da encenação na rua.

Questionar o lugar da plateia, convidar as pessoas para serem também personagens de suas montagens era, no primeiro momento, o mais complexo que a companhia conseguia pensar sobre a inversão proposta no nome. Até hoje é assim, porém em outro patamar. Dos três integrantes iniciais, o Teatro Invertido é hoje um coletivo com sete artistas: Dimitrius Possidônio, Janaína Morse, Kelly Crifer, Leonardo Lessa, Maria Rita Fonseca, Rita Maia e Robson Vieira. “O conceito de inversão se expandiu muito, inclusive para o campo político. Fizemos a opção pelo trabalho coletivo, horizontal e compartilhado. Estamos vivendo um momento de abertura do grupo. Ideologicamente acreditamos na relação coletiva, não só no ponto de vista artístico, mas também de gestão”, propõe Lessa.

Quando não há espetáculos no Esquyna – Espaço Coletivo Teatral, do qual a companhia é uma das fundadoras, quem entrar no galpão vai se deparar com uma mesa redonda bem no centro do espaço. Ao redor dela, as conversas podem durar horas, até que se alcance o consenso. O mais recente diz respeito à próxima montagem, com a qual o Invertido pretende experimentar novas possibilidades. Ou melhor, inversões diferentes.

Depois de trabalhar com Grace Passô em 'Os ancestrais', a direção agora será compartilhada por Yara de Novaes e Mônica Ribeiro. “Acho que vai ser uma simbiose”, opina Yara. “Vem de um desejo de provocação. Quando um grupo se fecha entre quatro paredes acaba se acomodando. Para nós, desafiar é exatamente repensar a maneira de fazer. Deslocarmos de onde estamos frágeis”, diz Kelly.

Até chegar ao texto foram meses e meses de debate na mesa redonda. O objetivo inicial era trabalhar com uma dramaturgia que já estivesse pronta, mas que não fosse um clássico. O espectro se ampliou para o teatro escrito na América Latina. Foram mais de 100 autores argentinos, chilenos e colombianos analisados até que valeu a máxima de Tolstói: falar da sua aldeia para ser universal.

'Noturno', que já tem estreia marcada para novembro, foi escrito por Sara Pinheiro, dramaturga de Belo Horizonte, uma das idealizadoras do projeto Janela de Dramaturgia. “O Invertido é um grupo jovem e é muito legal que vá encontrando seus pares. É um conforto ter um grupo de teatro, porque é ali que você pode admitir todo tipo de experiência, de artesania, de erro. Então, é muito melhor encontrar quais são os pares do que pensar na língua do espetáculo ou se vai necessariamente dar certo”, comenta Yara.

A trama gira em torno de cinco amigos de classe média, que em uma tarde ensolarada, à beira da piscina, observam ao longe o fim do mundo. Ainda que seja cedo demais para pensar que tipo de deslocamentos a montagem vai demandar, os integrantes do grupo tomam essa história como mote para discutir valores em ruína. “Em 'Os ancestrais' falamos de uma classe pobre que está soterrada. Agora estamos falando de uma burguesia que está soterrada por esse mundo que já acabou”, detalha Kelly Criffer.

Em casa e na estrada

Bem ao estilo do Invertido, as comemorações dos 10 anos da companhia começam em um espaço público. Em 12 de abril, a partir das 15h, com o PicNicfesta, na Praça Nilo Peçanha, no Bairro Sagrada Família, colada no Esquyna Espaço Coletivo Teatral. “É uma maneira de se aproximar das pessoas do nosso bairro”, diz Kelly. “Estamos falando muito dessa coisa: como é estar em uma cidade. Então vamos para a praça. A rua tem que ser extensão do Esquyna”, completa Rita.

Logo depois da celebração em casa, os atores do Invertido pegam a estrada. Vencedores do Prêmio Funarte Myriam Muniz, entre março e junho o grupo apresenta 'Os ancestrais' em Caxias do Sul (RS), Florianópolis (SC), Itajaí (SC) e Santos (SP). Durante a turnê, ainda há temporada de um mês na Caixa Cultural São Paulo. A partir de julho, será o momento de revisitar o próprio repertório. 'Os ancestrais', 'Estado de coma' e 'Proibido retornar' voltam ao cartaz do Esquyna, em apresentações gratuitas, seguidas de debates.

Parceria

Paralelo às ações de pesquisa e montagens, o Teatro Invertido idealizou o projeto de formação artística batizado Teatro InCurso. O objetivo é contribuir com o desenvolvimento de grupos teatrais do interior de Minas, tanto do ponto de vista artístico como gerencial. Já participaram atores, diretores e produtores de cidades como Marliéria, São Pedro dos Ferros, Baixa Verde e São José do Goiabal, todas na região do Vale do Rio Doce.


• No palco


» 2003 – 'Nossa pequena Mahagonny', direção de Lenine Martins e dramaturgia do grupo
» 2004 – 'Lugar cativo', direção de Cristiano Peixoto e dramaturgia de Pollyana Costa
» 2006 – 'Medeiazonamorta', direção de Amaury Borges e dramaturgia de Letícia Andrade
» 2009 – 'Proibido retornar', direção e dramaturgia de Camilo Lélis, Kelly Crifer, Leonardo Lessa, Rita Maia e Rogério Araújo
» 2010 – 'Estado de coma', direção de Rogério Araújo e dramaturgia de Rita Maia
» 2013 – 'Os ancestrais', direção e dramaturgia de Grace Passô

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