Adaptação para o palco do filme 'Sonata de Outorno', de Bergman, é atração do Festival de Teatro de Curitiba

Falta de apoio diminuiu participação mineira na mostra de artes cênicas

por Carolina Braga 31/03/2014 06:00

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Festival de Curitiba/Divulgação
As atrizes Cristina Banegas, María Onetto e Natacha Cordova levam para a cena o conflito central do filme, com elementos próprios do teatro (foto: Festival de Curitiba/Divulgação)
Curitiba
– O diretor argentino Daniel Veronese assegura que seu gosto pelos clássicos não é assim tão generalizado. Ele também não tem certas obsessões das quais o teatro contemporâneo brasileiro padece. Seus espetáculos têm cenário corriqueiro, como a casa da gente comum, pouca movimentação de cena e nem mesmo trocas de luz. “Uso o que é necessário. Se posso resolver o drama com os atores, ótimo. Se precisar reforçar com luzes ou música, também faço, mas trato de não abusar”, diz.


A aposta é no básico, naquilo que desde os gregos da era clássica continua sendo a potência de um espetáculo: a combinação de boas atuações e texto. Assim, nada mais instigante do que ver uma trama que o cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007) levou para o cinema em 1978 transformada em peça por ele, figura cada vez mais incensada nas artes cênicas da América Latina. É o teatro sem ação, com a força da palavra. Sorte do público de Curitiba.

'Sonata de otoño' é uma das apostas internacionais da 23ª edição do Festival de Teatro. É também uma das montagens mais esperadas, vide a combinação Veronese e Bergman. Com Cristina Banegas, María Onetto, Luis Ziembrowski e Natacha Cordova, a peça foi adaptada do roteiro do filme pelo próprio diretor argentino. Desde que decidiu contar a história de mãe e filha que se reencontram depois de um tenso afastamento de sete anos, o diretor não voltou a ver o clássico do cineasta.

“Cinema e teatro são muito distintos na hora de atuar e dirigir. Não vou encontrar coisas nos filmes para a minha direção. Posso olhar uma coisa e outra, mas na hora de produzir não me servirá”, assegura. A escolha é por um caminho próprio, com a devida admiração. Veronese reconhece que precisou sacrificar algo da trama original, mas foi para que a linha dramática do teatro não se perdesse.

“É um clássico, mas não de um autor popular. É controvertido e muitas vezes as pessoas sentem que é de difícil leitura. Vejo como algo muito íntimo e profundo”, comenta Veronese. Na versão teatral do argentino, 'Sonata de otoño' tem pouquíssima ação. Na verdade, um núcleo poderoso: o embate entre mãe e filha envolvendo inveja, ciúme e mágoas do passado. É aí que conta o talento em lidar com os atores e a percepção de que menos será sempre mais.

Assim como Bergman, Veronese também tem construído sua carreira entre duas artes. No momento, o teatro tem mais força. Como dramaturgo e diretor, atua em diferentes vertentes das artes cênicas de seu país. Faz desde produções comerciais, passando pelo teatro estudantil e chegando ao experimental. Ele, contudo, pensa em ampliar esse espectro. Curiosamente, é como ator que tem se aproximado da sétima arte.

Daniel Veronese é presença forte no elenco de 'La tercera orilla', longa dirigido por Celina Murga e produzido por Martin Scorcese. Por enquanto, o filme circula em festivais internacionais, com boa repercussão na crítica. É uma história sobre as descobertas e responsabilidades de um adolescente de classe média. Daniel interpreta um homem rude e machista, em drama de emoções veladas. “Faço muito teatro, aí comecei refletir sobre dirigir cinema. Vou pensar. Passei muito bem com essa experiência no set como de ator”, reconhece.

SEM APOIO Entra ano sai ano e a dinâmica no Festival de Curitiba permanece a mesma de um garimpo. O negócio é sair em busca do ouro que pode haver – ou não – escondido entre as mais de 400 peças do Fringe. Nos cinco primeiros dias há apenas candidatos ao posto. Um deles vem da Bahia e reforça a importância de mínima organização para o caos teatral que caracteriza a mostra paralela.

'Entre nós – uma comédia sobre a diversidade' faz parte do grupo de oito montagens que a Fundação Cultural da Bahia promove no Paraná. É espetáculo muito simples, escrito e dirigido por João Sanches com dois bons atores (Igor Epifânio e Anderson Dy Souza) e um músico (Leonardo Bittencourt). Ao abordar com humor os preconceitos sobre a homossexualidade, a montagem é a prova de que o teatro produzido na terra do axé passa longe dos clichês. Aliás, é esse o objetivo.

“A curadoria é feita a partir da qualidade das montagens, mas preocupada em apresentar panorama da diversidade do teatro da Bahia que faça sentido no contexto do festival”, explica Maria Marighella, responsável pelo programa na Fundação Cultural da Bahia. Em 2014, os espetáculos foram selecionados pelo ator Lázaro Ramos, a partir de edital.

O investimento da Fundação Cultural da Bahia foi de R$ 160 mil, para grupo de 60 profissionais. Já é o segundo ano que a fundação banca a vinda de grupos para Curitiba. Maria Marighella diz que a inspiração veio da experiência proposta pelo Galpão Cine Horto, há cinco anos. “A mostra mineira é a mostra-mãe para os outros estados”, reconhece. Lamentavelmente, a ida conjunta dos espetáculos de Belo Horizonte foi interrompida em 2014 por falta de apoio dos órgãos públicos de cultura do estado e do município.

Bergman no palco

Enquanto o público do Festival de Curitiba assiste nesta segunda-feira a 'Sonata de otoño', de Daniel Veronese, os mineiros vão poder conferir outra adaptação de filme de Bergman para os palcos. Nos dias 22 e 23 de abril, às 19h, dentro da mostra 'Ingmar Bergman: instante e eternidade', será apresentada em primeira mão, no Palácio das Artes, a montagem Sarabanda, dirigida por Grace Passô e Ricardo Alves Jr., baseada no longa Saraband, do cineasta sueco. No elenco, Rita Clemente, Gustavo Werneck, Mariana Viana e Rômulo Romeu.

João Caldas/Divulgação
Débora Falabella e Yara de Novaes: um exercício sobre o poder num mundo sem saída (foto: João Caldas/Divulgação)
Sem lugar para a liberdade
Crítica

O texto de 'Contrações', espetáculo que Yara de Novaes e Débora Falabella apresentaram em Curitiba e a partir de 10 de abril levam para Belo Horizonte, é um achado. Escrito pelo inglês Mike Bartlett, é síntese do que se espera do teatro de hoje: o olhar de um dramaturgo de 33 anos – jovem, portanto – sobre a época de opressão em que vivemos. Mas ele não fala de guerra, política ou algo parecido, embora essas leituras sejam sempre possíveis em qualquer âmbito, Mas seria lugar-comum.

É do cotidiano, da confusão constante do que é público e privado, o que é individualidade e até que ponto ela está a nosso alcance que 'Contrações' trata, a partir de uma análise fria do ambiente corporativo. E lança perguntas: o que temos feito com nossa intimidade? Qual a relação de dependência e utilidade estabelecida com o trabalho em tempos de capitalismo feroz?

As paredes do cenário são feitas de pele humana. Estão ali como divisórias que delimitam o escritório da gerente (Yara de Novaes) de Emma (Débora Falabella). A funcionária exemplar é chamada para relembrar algumas regras de conduta da empresa. É quando se desenvolve um bem-humorado embate em torno de conceitos como romance, relações afetivas e sexuais e de que modo isso interfere na dinâmica da multinacional. A partir daí, o jogo entre a chefe e a subalterna ganha ares de absurdo. O humano, gente que sangra, não pode frequentar aquelas baias.

Grace Passô dirige o bate-bola entre Débora Falabella e Yara de Novas, respeitando a nítida sintonia entre as atrizes. 'Contrações' é o tipo de espetáculo que poderia perfeitamente abrir mão de efeitos mirabolantes – como Emma tocar bateria para extravasar a raiva da chefe ou o jogo de luzes – porque há uma potência na maneira como as coisas são ditas. Na maior parte do tempo, as atrizes ficam sentadas na mesa do escritório, o que não diminui o ritmo e o clima tenso da montagem. Não é fácil alcançar esse ponto.

A trilha sonora de Morris Picciotto acompanha as transformações de Emma. O mesmo ocorre com o cenário e, a reboque, com o figurino, com casacos felpudos, ambos de André Cortez. O ar-condicionado, tido aqui como um símbolo da corporação, congela desejos, anseios e pessoas. É, pois, uma contração, um encolhimento, um recado.

* A repórter viajou a convite do Festival de Curitiba

 

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