Retrospectiva da obra de Wilma Martins chega ao Centro Cultural Minas Tênis Clube

O cotidiano e o sonho da ilustradora, pintora e desenhista estão retratados em mostra que chega a BH depois de sucesso no Rio de Janeiro

por Mariana Peixoto 17/03/2014 06:00

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Wilton Montenegro/Divulgação
(foto: Wilton Montenegro/Divulgação)
Corria o ano de 1957. Munido de algum dinheiro graças à venda de livros, Frederico Morais, então com não mais de 21 anos, partiu para Fernando de Noronha. Ia encontrar um parente militar, que lhe falou sobre o lugar e as tartarugas. Só tinha a verba para a ida, não conseguiu entrar no arquipélago, então fez o caminho de volta como pôde. Pernambuco, Bahia... Vendeu mais livros, a maioria sobre cinema, passou uma temporada com Glauber Rocha. Chegou a Belo Horizonte três meses após a partida. Era véspera de réveillon. Encontrou, sem querer, Wilma Martins. Já a conhecia de vista, como ela a ele. Resolveu dar uma incerta: “Quer ir numa festa de ano-novo?”. Surpreendentemente (para ele), ela aceitou. Um ano e meio mais tarde estavam casados. Na casa de adobe (só o quarto tinha tijolos), na região do Coração de Jesus (hoje Luxemburgo), ela começou a desenhar árvores, folhas, o ambiente que a cercava. “Lembra bastante os pintores desenhistas das missões culturais que vieram ao Brasil, como Rugendas. Muito documental e preciso, mas sem excluir um pouco da poesia”, define Morais – definição, diga-se, que traduz toda a carreira da artista.


Cinquenta e quatro anos de casamento, 80 de vida (dela) e 78 (dele) estão reunidos na exposição 'Wilma Martins: Retrospectiva. Cotidiano e sonho', em cartaz na galeria do Minas Tênis Clube. Vinda do Paço Imperial, no Rio de Janeiro (cidade que elegeu a mostra como uma das melhores de 2013), a exposição reúne 140 obras da pintora, desenhista e ilustradora nascida em BH e radicada, desde 1966, no Rio de Janeiro. Para reunir o material, que ainda inclui livros, cadernos, jornais e documentos (com obras do próprio acervo da artista, colecionadores particulares e museus, como o MAM-RJ), Morais trabalhou durante quatro anos, sem a colaboração de Wilma. “Ele impôs, né? Porque para mim, exposição é muito chato. Meu negócio é fazer, não tenho essa coisa toda que envolve... Na verdade, gosto de ficar no meu canto, sempre fui bem recolhida. Extrapolo a coisa do caramujo”, afirmou ela, que veio para a abertura da retrospectiva depois de décadas sem aparecer na cidade onde nasceu.

Homenagem

A fala é econômica, o sorriso é farto. O trabalho fala por ele mesmo. Algumas das obras mais conhecidas de Wilma revelam bem o cotidiano dela, tanto que é esse o título de várias acrílicas sobre tela. Podem ser focas dentro de um quarto de empregada; animais que saem de uma caixa de ovos jogadas no chão da cozinha; um rio que sai de dentro de um balde. A cor vem sempre do objeto estranho àquele ambiente, que por seu lado exibe diferentes tons de cinza. “Você fica bem com uma pia cheia de louça para lavar? Se não inventar coisas, enlouquece. A cor para mim é fuga. O irreal é que é colorido, porque a realidade é muito chata”, explica. A exemplo do que fez no início da vida, continuou pintando e desenhando o que via de sua janela. Tanto por isso, é farta a coleção de imagens do Rio de Janeiro, principalmente de Santa Teresa, bairro onde vive com Morais há mais de 20 anos.

O crítico de arte, curador, jornalista e professor tinha duas questões bem delineadas quando começou a trabalhar na ideia da exposição. “A primeira é uma homenagem a Wilma, e insisto muito em dizer isso. A ideia foi totalmente minha e foi muito difícil convencê-la. Não sei até agora se ela está convencida. Wilma nunca teve preocupação em vender, como também nunca foi de lutar por espaço. Por isso, achei que era hora de fazer uma releitura do trabalho dela.” Tanto que além da obra mais conhecida – e reconhecida, por meio de prêmios e participações em salões e bienais – ele buscou lançar luzes sobre trabalhos que pouco tinham sido mostrados.

“Caso de algumas gravuras, por exemplo. Como parei de fazer gravura em 1970, não me lembrava de muita coisa”, ela admite. E Morais conseguiu reunir todas as xilogravuras – à exceção de duas – que Wilma realizou. Sobre esse viés do trabalho da mulher, o crítico comenta: “O que tinha certeza que iria impactar na exposição era a parte da gravura. Quando saímos de Minas e fomos para o Rio, ela se dedicou à xilogravura. A xilo é muito econômica, despojada, exige muita síntese e não há possibilidade de erro. Não é necessário um ateliê grande para fazê-la. E isso traz algo do caráter dela, meio estoico. Dessa economia, da aparente pobreza de recursos, ela criou um mundo muito particular”, explicou Morais sobre a série que está exposta na primeira parte da galeria do Minas.


Multiplicidade
Foi a partir da década de 1970 que Wilma passou para o desenho e a pintura. Paralelamente a esse trabalho, sobre o qual ela diz hoje em dia só se debruçar raramente, a artista sempre teve múltiplas atividades, a maior parte delas na própria casa. Construiu quase todos os móveis da residência em que vive com Morais. Cama, mesa, bancos, estantes. “Se você tem que ter uma coisa e não tem como pagar na hora, faz. O Frederico não ajuda. Na última estante, até que ajudou, queimou com maçarico e ficou muito orgulhoso do feito.” O marido acrescenta. “Wilma só compra o que é absolutamente impossível para ela fazer. Como foi filha única, sozinha, e os pais não eram pessoas cultas, tinha que tomar a iniciativa. Tudo o que fez foi iniciativa dela, ninguém sugeriu. Tanto que não aceita ordem de ninguém.”

Seja como for, o marido conseguiu convencê-la, com algum custo (até chantagem da parte dela, Morais assume), a fazer a retrospectiva. É uma questão, aliás, que permeou toda a carreira. Morais se lembra de uma exposição de Wilma em que ela teve que assinar no contrato cláusula que previa a própria presença na vernissage. E mais ainda será feito. Depois de BH, onde a exposição fica em cartaz até meados de junho, a retrospectiva segue, em julho, para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Morais prevê também a produção de três livros. “Nunca interferi para usar meu prestígio, tanto que levei 15 anos para escrever o primeiro texto crítico sobre a Wilma. Pouca gente sabia que eu sou casado com ela”, concluiu.

Desenho, a base de tudo

Aluna de Guignard, como boa parte dos artistas mineiros de sua geração, Wilma Martins frequentou a Escola do Parque ao lado de Yara Tupynambá e Álvaro Apocalypse. “O Guignard, na época, já estava meio assim, mais para lá do que para cá. Aparecia, de vez em quando sumia, dava algumas dicas e depois fazia a crítica... Era gentil”, ela comenta. Cidade pequena a Belo Horizonte dos anos 1950, Wilma não demorou a se envolver com outras áreas. Fez trabalhos para o Teatro Universitário e o Teatro Experimental (como a cenografia para a peça infantil 'A revolta dos brinquedos', de João Marshner). Com Klauss Vianna, criou os figurinos para o espetáculo de dança 'Caso do vestido', inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade.

Na primeira metade da década de 1960, chegou à imprensa. Como ilustradora, trabalhou na revista Alterosa e no Estado de Minas. No jornal, onde Frederico Morais também trabalhava, foi diagramadora dos cadernos Agropecuário e Suplemento dominical. Mas se destacou como ilustradora. “Seu auge em termos de jornal foram duas séries: uma da Rio/Bahia e outra das cidades do ouro e do barroco”, comentou Morais. O casal, ao lado do fotógrafo Evandro Santiago, e a bordo de um jipe (horrendo, nas palavras dele), viajou por 200 localidades mineiras. O marido escrevia, Santiago fotografava e Wilma ilustrava.

A exposição traz algumas cópias das edições do EM com o trabalho do trio, que acabou levando prêmio Esso na categoria regional. “Foram 23 reportagens em que ela demonstra sua capacidade de captar as estruturas das cidades, os arruamentos. Conseguia ser documental em relação a igrejas, ruas, mas também com um pouco de fantasia. Mostra o quanto é boa desenhista, e isso mostra que aprendeu muito com Guignard, que insistia que o desenho é a base de tudo.”


WILMA MARTINS: RETROSPECTIVA. COTIDIANO E SONHO
Em cartaz na galeria de arte do Centro Cultural Minas Tênis Clube, Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Visitação de terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h. Entrada franca. Até 22 de junho.

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