Fotógrafo mineiro Pedro David lança livro com imagens feitas no interior de Minas

O Brasil em mutação é o cenário de poética viagem pelas contradições do mundo contemporâneo

por Walter Sebastião 10/03/2014 06:00

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Pedro David / Divulgação
Fotografias que integram o livro 'Rota raiz' e que poderão ser vistas na exposição 'Impressão em processo' (foto: Pedro David / Divulgação)
“O que está nas fotos é o meu sertão”, avisa o fotógrafo Pedro David. As imagens criadas por ele evitam identificações muito localizadas, tematizam questões universais e buscam mais expressão pessoal do que registro documental. Essa proposta está no livro 'Rota raiz' e na exposição 'Impressão em processo', que será aberta quarta-feira no Espaço Experimental de Arte, em Belo Horizonte.


Artista plástico respeitado, Pedro David forma com os colegas Pedro Motta e João Castilho o trio ilustre que assina uma obra clássica da fotografia no Brasil: o celebradíssimo ensaio 'Paisagem submersa' (2008).

As imagens de 'Rota raiz' foram feitas durante as andanças de Pedro pelo Norte e Nordeste de Minas Gerais, entre 2002 e 2008.  O artista explica que elas traduzem sua imersão em um universo interiorano que faz parte de sua infância e adolescência. Helena David, mãe de Pedro, veio do sertão do Bahia para Belo Horizonte. Nas férias, levava o filho para a fazenda do irmão, no interior baiano.

O designer Alceu Castelo Branco, pai do fotógrafo, participou de projeto no Norte de Minas Gerais dedicado a buscar soluções para problemas de pequenas comunidades. “Ele viajava e voltava maravilhado, trazendo histórias e presentes”, recorda Pedro, citando canivetes, facões, chocalhos de cascavel e bússolas recolhidos por Alceu.

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
“Sou filho de colecionadores compulsivos de pequenas coisas do interior, dadas como presentes. Isso me levou a viajar, queria ver as fontes das histórias que ouvia”, explica. Alimentado por esse desejo e munido de câmaras, ele percorreu Minas Gerais. “Quando cheguei, vi o interior em mutação, desenvolvendo-se e se transformando rapidamente. Decidi não ficar buscando as histórias antigas dos meus pais, mas fazer o meu sertão. Adorei tudo, mas também observei os problemas, entendendo a importância do desenvolvimento e lamentando perdas”, conta. O fotógrafo confessa: “Fiquei até egoísta. Lamentava a chegada da luz elétrica, mesmo sabendo que ela é importante para as comunidades. São contradições que a gente não resolve”, brinca.

“Minhas fotos mostram o sertão contemporâneo”, resume Pedro David. As imagens trazem o vaqueiro e o couro, mas também meninas com roupa de náilon em poses de modelo. “Ainda tem o pequizeiro na frente da casa, mas os vasos estão enfeitados com flores de plástico. Há muitas ruínas e o eucalipto vai destruindo a vegetação nativa. Essa vivência me permitiu distanciamento do dia a dia, o mergulho num mundo diferente, o que sempre traz novidades. O interior foi o meu campo de pesquisa, depois de muita leitura.”  

Às vezes, Pedro considera 'Rota raiz' um diário, pois o livro reúne fotos do momento em que vagava sem objetivo, reunindo elementos e construindo a coleção de imagens que, segundo ele, só agora ganham sentido. “Estava resolvendo a infância e a adolescência, me tornando adulto.”

Por mais que seu objetivo seja a expressão e as fotos traduzam anseios pessoais, elas mostram o Brasil da primeira década dos anos 2000, enfatiza Pedro David. Mas se deter no real não foi a preocupação dele. “A fotografia leva ao real, mas, no meu caso, isso se dá sem querer. O ponto de partida era fazer as imagens que tinha na mente, alimentadas pelas histórias e pelos presentes que ganhei dos meus pais”, explica.

Nas imagens não há a intenção de denúncia, observa o fotógrafo. “O tom, quando não é irônico, é de afeto: há nessas fotos uma nostalgia brasileira, de quem vive de promessas que não se cumprem”, afirma.

SAIBA MAIS

OLHAR SINGULAR


Pedro David, de 36 anos, nasceu em Santos Dumont, na Zona da Mata. Formado em jornalismo pela PUC Minas, é pós-graduado em artes plásticas e contemporaneidade pela Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais. A opção pela fotografia se deve ao ambiente familiar. Os pais tinham o hábito de fotografar os filhos, revelar e ampliar as imagens em casa. “Ainda garoto, conheci, encantado, todo o processo fotográfico”, relembra. O fotógrafo lançou os livros Paisagem submersa (2008), em parceria com Pedro Motta e João Castilho, e O jardim (2012). O mineiro ganhou importantes prêmios de fotografia, como o Pierre Verger (2010) e o Porto Seguro (2005). Obras dele integram as coleções Pirelli e Sérgio Carvalho (DF). Em agosto, sua obra vai ganhar exposição no Museu Mineiro, em Belo Horizonte.

AS FOLHAS


A exposição que será aberta em BH traz 16 trabalhos gráficos criados a partir das folhas usadas como teste para a impressão do livro Rota raiz. Estão superpostos textos, imagens e rasuras. “Trabalho fazendo edição concisa e cuidadosa, organizando tudo. Ver as folhas de teste do livro, com tudo misturado, era um pesadelo, mas achei que ficou bom, muito interessante. São outras possibilidades da imagem”, conta, encantado com os caminhos abertos pela impressão. “Entendo a fotografia como gravura”, conclui.

IMPRESSÃO EM PROCESSO


Fotografia. Abertura quarta-feira, às 19h. Espaço Experimental de Arte, Rua Tomé de Souza, 814, Savassi, (31)2516-9678. De segunda a sexta-feira, das 14h às 19h. Até dia 22. Lançamento do livro 'Rota raiz'. O volume traz 70 fotos, com edição de imagens e textos de Rui Cezar dos Santos. Preço: R$ 80.

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