Rogéria celebra 50 anos de carreira em autobiografia

Pioneira, a diva revela que sempre foi consciente de sua sexualidade e jamais aceitou preconceito e humilhações

por Ana Clara Brant 03/03/2014 00:13

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Jorge Araújo/Folha Press
Aos 70, Rogéria avisa: "Eu sou terrível" (foto: Jorge Araújo/Folha Press)

Uma das características mais marcantes da personalidade de Rogéria, de 70 anos, é percebida logo de cara. Agendada para as 14h, a entrevista começa às 14h06. “Você está atrasada, meu bem”, reclama ela, sem alarde. “Sou britânica”, avisa. Na verdade, essa artista, um dos primeiros travestis brasileiros a se tornar estrela, não nasceu na Grã-Bretanha, mas em Cantagalo, município fluminense e terra de outra figura ilustre. “Em Cantagalo, nasceram a maior bicha do Brasil – no caso, eu – e o maior macho do Brasil, Euclides da Cunha”, diverte-se ela, referindo-se ao autor do clássico Os sertões.

Este ano, Rogéria completa meio século de carreira. Curiosamente, começou a dar os primeiros passos na vida artística quando estourou a ditadura militar. Engana-se quem pensa que a repressão política a prejudicou. “Estreei num momento complicado. Eles estavam caçando comunistas e artistas, mas nunca tive problema com militares nem me envolvi com política. Se gente não tivesse qualidade e talento, eles teriam cortado o nosso espetáculo. Fomos transgressoras”, conta. A estreia ocorreu em 29 de maio de 1964, dentro da Galeria Alaska, em Copacabana, mítico reduto gay.

Para celebrar suas cinco décadas de trajetória, Rogéria – ou Astolfo Barroso Pinto, na carteira de identidade – está escrevendo sua autobiografia. A data de lançamento ainda não foi definida. “O livro começa com o casamento dos meus pais. Minha mãe, de noiva, dizendo que se arrependeu de ter casado e que a única alegria de sua vida foi o meu nascimento. Ela foi infeliz no casamento. Conto como fui criada, minha infância, resgato tudo. Há mais de 20 anos as pessoas me cobram esse livro. Como tenho boa memória, chegou a hora”, justifica.

A diva explica que sua autobiografia não trará histórias sofridas. Até porque, Rogéria viveu uma infância alegre e, desde criança, é consciente de sua sexualidade. “Não tenho uma vida de bicha triste para contar. Subia em morro e em árvore, brincava com os garotos, dava porrada neles e protegia as meninas. Até hoje é assim. Nunca sofri bullying. Eu sou o bullying”, garante.

Rogéria começou sua carreira como maquiadora da TV Rio. Por suas mãos passaram ídolos como Fernanda Montenegro, Emilinha, Marlene, Dalva de Oliveira, Irene Ravache, Bibi Ferreira e Chico Anysio. A transformista, que sempre sonhou em estudar no Actor’s Studio, em Nova York, fez dali o seu Actor’s particular. “Todo mundo me incentivou a trocar os bastidores pelo palco. As grandes estrelas estavam ali, na TV. Atualmente, muita gente se acha estrela, mas não é”, alfineta.

Naquela época, Rogéria conheceu uma jovem baixa e magrinha de voz encantadora: Elis Regina. “Não sabia de quem se tratava. Fui maquiá-la, não fazia a menor ideia de que ela cantava no Beco das Garrafas. Quando Elis soltou a voz no programa do Paulo Gracindo, fiquei embasbacada. Disse a ela: ‘Menina, você vai ser a maior cantora deste país’”, relembra.


Celular

Alheia à tecnologia, Rogéria ignora o Facebook e o Twitter. Não carrega celular. “Tenho pavor dessas coisas”, confessa. Vedete de Carlos Machado, famoso produtor e diretor teatral, ela recebeu o Troféu Mambembe por sua atuação em espetáculo ao lado de Grande Otelo. A artista morou quatro anos no exterior, apresentou shows na África e na Europa. Na Espanha e na França, aconselharam-na a fazer cirurgia de mudança de sexo. “Achei um absurdo aquilo. Nunca tive vontade de tirar nada. Sou feliz do jeito que sou. Não é à toa que tenho pinto até no sobrenome”, brinca.

Durante a temporada no exterior, um episódio marcou Rogéria. Ela foi para o Cairo, no Egito, operar o apêndice. “Achei que o próprio faraó Ramsés estava me operando, pois o médico parecia uma múmia. Não me esqueço daquela fisionomia. Mas ele foi espetacular: salvou a minha vida”, revela.

Em cartaz às quartas-feiras com o espetáculo Divinas divas no Teatro Rival, no Centro do Rio de Janeiro, Rogéria está solteira – no momento. E jura: só teve um grande amor. Aos 19 anos, apaixonou-se perdidamente. O rapaz chegou a morar com ela e a mãe, dona Eloah. Quando a carreira começou a deslanchar, Rogéria foi para a Europa e o relacionamento acabou.

“Durou quatro anos. Não quero mais saber disso. Se não tivesse sido amada, a vida teria sido frustrante. Hoje, se quero alguém, vou à sauna. A escolha é minha, não quero que me escolham. Sou gêmeos com ascendente em leão, querida. Não sou fácil. Sou terrível”, conclui.

três perguntas para...

Rogéria
travesti e atriz

Qual é o momento de que você mais se orgulha em 50 anos de carreira?

Minha trajetória é maravilhosa. Um homem vestido de mulher fazer sucesso há 50 anos não é para qualquer um. Isso não existe em lugar nenhum. Ultrapassei essa coisa do travesti: ganhei o Prêmio Mambembe, fui a estrela máxima do Carlos Machado, fiz sucesso no Carrossel de Paris e na Espanha. Com quase 70 anos, fui convidada pela TV Globo para uma coisa fantástica: interpretar uma mãe e avó na novela Lado a lado. A personagem era Alzira Celeste. Aquilo foi algo inédito no mundo, acho. Um homem que não é operado interpretar uma mulher. Chorei de alegria. Foi fantástico, nunca vou esquecer.

Como surgiu o nome Rogéria?

No carnaval de 1964, ganhei um concurso de fantasias. Em vez de me chamarem de Astolfo, que fazia demais a ‘linha executivo’, disseram Rogério. O maquiador Rogério. Só que o povo começou a gritar Ro-gé-ria, Ro-gé-ria... Foi o povo que me deu esse nome, e pegou. Já fiz o primeiro teste como Rogéria. Até minha mãe me chamava de Rogéria.

Como você se sente aos 70 anos?

Não me sinto com essa idade. É uma coisa inacreditável. Em maio, faço 71. Durmo bem, acordo, faço espetáculo. Canto, danço, rodopio. Bette Davis dizia que 70 anos é a melhor idade. Adoro ter 70 e adoro ser Rogéria. Se pudesse voltar na outra vida, voltaria como Rogéria.


DIVINAS DIVAS


Em cartaz há 10 anos, a comédia Divinas divas vai virar filme. A diretora e atriz Leandra Leal rodou o documentário sobre a trajetória de Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios, pioneiras do show biz nacional. Em plena ditadura militar, esses travestis (foto) romperam tabus, questionaram padrões de sexualidade e desafiaram a moral da conservadora sociedade brasileira. Viabilizado pelo sistema de crowdfunding – a “vaquinha” virtual –, o filme está sendo montado.

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