Gravuristas de BH dividem ateliês e mostram que solidariedade é fundamental

Técnica sofisticada exige desafios como o investimento em infraestrutura e material

por Walter Sebastião 28/01/2014 07:00

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Rodrigo Clemente/EM/D. A Press
Artistas têm estabelecido processo de trabalho coletivo, que tem ajudado a fortalecer a gravura em metal em Minas Gerais (foto: Rodrigo Clemente/EM/D. A Press)
Durante muito tempo, o único lugar para se fazer gravura em metal eram os ateliês de escolas de arte. O que levava à interrupção das atividades depois que o estudante se formava. A situação começa a mudar. Novos autores estão investindo na criação de infraestrutura adequada às atividades. Basicamente, pequenas oficinas com prensa, mas também fabricação artesanal de tinta e equipamentos. Locais que se tornam também ponto de apoio e difusão da linguagem, por onde passam e atuam vários artistas. O projeto agora é ampliar os ateliês de forma que possam abrigar também pequenas exposições.


A multiplicação de oficinas é boa notícia, explica Carlos Pedrosa, de 35 anos, um dos curadores da mostra Resistência da técnica, apresentada na Galeria de Arte da Cemig em 2012. “Ateliê com infraestrutura técnica significa seriedade na dedicação à gravura, intercâmbio e compartilhamento de pesquisas”, explica. “Nosso desafio é criar um novo marco artístico, histórico e profissional para a gravura em metal”, afirma. Emblemas da “nova fase” e dos jovens gravadores são experimentação, densidade, busca de melhores condições de trabalho. O que, observa, anuncia maior circulação das obras.

Rafael Casamenor, de 31, mantém ateliê de impressão e uma tipografia no barracão dos fundos de sua casa. Ele estuda juntar sua oficina com a de Carlos Pedrosa. O objetivo é realizar o trabalho pessoal e imprimir também as obras dos colegas. “Sem infraestrutura não se faz gravura em metal. Por esse motivo são comuns ateliês quase coletivos”, explica. Rafael e seu grupo defendem o salto de qualidade de suas atividades. “O projeto é criar ações que deem visibilidade à gravura. Não é arte para ficar na mapoteca, ela tem que circular”, adverte.

Hortência Nunes Abreu, de 24, e Marina RB, de 23, do ateliê Arandela, já colocaram em prática o que Rafael pretende fazer. A oficina de impressão, que trabalha com várias técnicas, ficava numa sala do segundo andar de uma casa. Agora, está no barracão de fundos da residência. O ateliê, aliás, ganhou outro integrante: Ricardo Burgarelli. “Diante das dificuldades para fazer gravura em Belo Horizonte, só de conseguir ampliar o espaço e reunir parceiros para dividir os custos já é uma grande conquista”, explica Hortência Abreu.

FAZ TUDO
Pergunte a quem faz gravura em metal qual é o sonho de sua vida. Resposta: vender os trabalhos. Todos avisam que adoram o ofício, mas são realistas. A atividade exige prensa, ferramentas, papéis, tintas, local em que o artista possa realizar queimas com ácidos – equipamentos e materiais caros. Sem vender, não há como financiar a empreitada. Todos têm conseguido compradores. Mas para manter a pesquisa são obrigados a se dedicar a outras atividades. Dão aulas de arte, assinam projetos gráficos e ilustrações, montam exposições, atuam como técnicos de oficinas de gravura.

Alessandro Lima, de 33, constatou, ainda estudante, a dificuldade de acesso a materiais. Formado, deu vazão a algo que aprendeu na escola: fazer tintas coloridas. Ele fabrica também ferramentas, de forma artesanal. “Não sou solução, mas opção”, pondera. E avisa: quem faz gravura deve saber produzir tintas e ferramentas. “A multiplicação de ateliês prova que a gravura está viva, que temos bons gravadores. Estamos trabalhando para formar público e dentro de alguns anos vamos transformar o mercado”, afirma.

SEM OFICINA
Não há como produzir gravura em metal sem prensa e um local específico para praticar. Mas o artista se vira. “Certa vez, quando morava em Florianópolis, não tinha como trabalhar. Na maior cara de pau, bati na porta da universidade. Mostrei o que fazia. Abriram o ateliê para mim e me deram um curso. É muito bonito como os gravadores compreendem as dificuldades do ofício. Eles são solidários e abertos à troca de experiências”, conta Jaider Laerdson, de 40, há mais de 10 se dedicando ao ofício. Como não tem prensa, ele imprime trabalhos nas oficinas de amigos.


Bruno Lanza, de 25, imprime suas obras em Sete Lagoas, na prensa pertencente à professora Conceição Bicalho. O equipamento é usado também por Leandro Figueiredo. “Conceição sempre colabora e nos apoia”, conta. Bruno vê com satisfação a multiplicação das oficinas. “Essa ampliação da infraestrutura é necessária para se fazer gravura”, explica.

Realidade e sonho
O que pensam os gravuristas de BH

 “A realidade, especialmente em Belo Horizonte, é a dura luta por condições de trabalho, acesso a material e a equipamentos, sobretudo a prensa. Essa luta inclui o espaço para trabalhar. Os gravadores de BH conquistaram prêmios, inclusive internacionais, mas continuam sem ver seus trabalhos distribuídos no mercado de arte. O sonho é a gente viver do que faz.”
Alessandro Lima


“A realidade é a consciência de que não dá para fazer só gravura. Crio meus trabalhos no tempo que sobra da atividade como ilustrador. Mais do que ganhar dinheiro, o sonho é ver o reconhecimento de uma técnica preciosa, que as pessoas nem percebem.”
Bruno Lanza

“A realidade é viver há mais de 30 anos num contexto de grande produção, sem um livro que registre essa atividade. Muita coisa se perde ou fica na gaveta dos artistas. O sonho é patrocínio, pessoas interessadas em trabalhar com o artista, edições de gravuras e livros. E também chegar ao público.”
Carlos Pedrosa


“A realidade é a gravura ser arte pouco difundida, pouco abordada pela história da arte. As pessoas não conhecem essa linguagem como conhecem a pintura, o desenho e a escultura. O sonho é o reconhecimento do alto nível artístico da gravura, a formação de público e que álbuns sejam editados.”
Fernanda Coimbra

 “A realidade é a falta de espaço para comercializar a sua arte, ter de financiar as atividades, conseguir formas de manter o ateliê. Sonho com mais locais de compartilhamento e para expor. E que haja a valorização da arte sobre papel.”
Hortência Nunes

“A realidade é o desafio de ter de enfrentar um contexto em que, diante de muitos meios de reprodução, nem reconhece mais as técnicas da gravura. O sonho é o reconhecimento público dessa técnica que traz muito de alquimia, movido pela busca de um resultado que você nem sabe se vai conseguir. Essa é a mágica que te leva à pesquisa.”
Jaider Laerdson

“A realidade é a luta para fazer a sua arte e conseguir espaço para ela. Isso não é simples para um jovem artista. Gravura é arte tradicional e vivemos um momento de valorização de outras manifestações. Fazer gravura é coisa de teimoso, de quem adora essa linguagem. Sonho em ver o trabalho circular. A internet tem sido uma aliada.”
Luiz Matuto

“A realidade é o trabalho para conseguir espaço e equipamentos. O sonho é a reversão da herança que vê a gravura apenas como forma de multiplicação de imagens ou espaço na grade de exposições. Que a gravura receba a mesma atenção concedida a outras linguagens.”
Rafael Casamenor

“A realidade é produzir sabendo que o retorno só virá a longo prazo. É preciso disciplina para produzir continuamente, para não deixar que outras atividades sufoquem as horas sagradas de dedicação ao trabalho. O sonho é vender as obras, viver do que faço. É difícil, mas não impossível.”
Thiago Pena

Saiba mais
Gravura em metal

Técnica de impressão de imagens a partir de desenhos gravados com ácidos ou incisão direta sobre matrizes de cobre, latão ou alumínio. É linguagem muito conhecida devido a artistas que fizeram obras-primas da história da arte com a técnica. Como os famosos 'Quatro cavaleiros do Apocalipse', do alemão Albrecht Durer (1471-1528), ou extensa série de imagens do espanhol Goya (1746-1828), considerado um mestre no assunto. Em Belo Horizonte há grandes gravadores, veteranos ou jovens, com produção notável, mas ainda longe dos olhos do público e sem livro que registre o caminho deste técnica em Minas Gerais.

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