Defensor do teatro de repertório, o dramaturgo, diretor e ator José Luiz Ribeiro celebra 50 anos de carreira

Grupo Divulgação encena desde clássicos nacionais e mundiais a textos de sua autoria

por Ailton Magioli 19/01/2014 06:00

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Márcia Dolabella/Divulgação
(foto: Márcia Dolabella/Divulgação)
O teatro para ele é uma forma de estar com Deus. “Ele me faz aprimorar, diante do julgamento do público, de não capitalizar nada. O sucesso de hoje não reflete o de amanhã”, afirma José Luiz Ribeiro, de 71 anos, 50 dos quais dedicados à arte da direção, interpretação e autoria, desde 1971 no Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação, mantido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), no Fórum da Cultura, na cidade da Zona da Mata.

A carreira (“amadora”) teve início em 1963, quando ele escreveu e dirigiu o espetáculo 'Brasil, espaço 63', que classifica de “desvario de um adolescente louco”, reunindo operários e universitários para contar a história do Brasil. “Depois de um ano de ensaios, fizemos apenas duas apresentações”, recorda o autor e diretor, salientando que a carreira foi construída sem pretensão. “Meu sonho era estudar e aprender teatro”, reconhece o artista, cuja trajetória vitoriosa está registrada no livro 'José Luiz Ribeiro – 50 anos de teatro', que teve lançamento recente.

Organizado por Iêda Alcântara, ex-atriz do Divulgação, por onde passaram, principalmente, estudantes de comunicação social, faculdade da UFJF na qual José Luiz deu aulas por muitos anos, o livro, ricamente ilustrado com fotografias das montagens do Grupo Divulgação, traz o resumo de uma vida inteiramente dedicada ao teatro, na qual não faltou a experiência da censura, em plena ditadura militar. Peça adaptada por Rubem Rocha Filho, 'O diário de um louco', de Nicolai Gogol, foi a primeira delas.

Protagonizado pelo artista e dirigido pela mulher dele, Malu Ribeiro, o espetáculo de 1969 foi proibido na hora em que o público chegava ao teatro para vê-lo. Para explorar devida e oportunamente o fato, na pele do funcionário Antonio Barnabé, José Luiz simplesmente tapava a boca com um lenço branco nas falas cortadas pela censura. Em pleno 1968, quando o Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi baixado, José Luiz encena 'Bodas de sangue', de García Lorca, no Círculo Militar de Juiz de Fora, seguida da montagem de Electra, de Sófocles, cuja estreia contou com a presença de censores na plateia.

Desde 'Sinfonia de uma favela', também de sua autoria, ele passou a entrar em cena, mesmo consciente de que não tinha dotes de ator. “De repente, tudo foi acrescentando e acabei tendo uma carreira de ator junto à de diretor e autor”, explica José Luiz Ribeiro, que, de compositor a cartazista, passou a fazer de tudo no grupo. Atualmente, além dos 15 universitários que integram o Grupo Divulgação, ele tem sob sua responsabilidade um núcleo de 25 atores de terceira idade, além do mesmo número de adolescentes.

Um artista nato

Duas manifestações influenciaram decisivamente a formação do homem de teatro José Luiz Ribeiro. O rádio, por meio do qual desenvolveu imaginação fértil, graças aos programas infantis que ouvia, e o cinema, vizinho a sua casa de infância, no qual assistia às temporadas de operetas, além de séries como 'Flash Gordon'. O contato com as artes cênicas veio com o circo, onde, depois da exibição do trapezista, era religiosamente exibido um drama. Paralelamente, José Luiz, que foi criado ao lado do Museu Mariano Procópio, fez daquele espaço praticamente o seu quintal.

Depois, na escola, vieram as leituras. “Aos 13 anos, tive acesso a uma coleção dos clássicos de William Shakespeare, que, mesmo sem entender, passei a ler”, recorda José Luiz. Passou também a acompanhar concertos mensais da orquestra filarmônica de sua cidade e a temporada de óperas, além dos espetáculos das academias de dança. Antes disso, estudou música e chegou a pintar quadros, participando de vários salões de artes plásticas. “De repente, tudo isso foi canalizado para o teatro”, conta.

Ao conhecer o teatrólogo e diplomata Pascoal Carlos Magno (1906-1980), na década de 1970, José Luiz Ribeiro enfim ultrapassou os limites de Juiz de Fora com o seu teatro, participando de grandes festivais nacionais do gênero. Responsável pela criação e organização da Caravana da Cultura, a bordo de uma barca (Barca da Cultura), Pascoal levou elencos como o do Divulgação a se apresentar em 57 cidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com a participação de mais de 200 artistas.

“Ele dimensionou o nosso trabalho, nos indicando ao 1º Festival Nacional de Teatro Amador (Fenata), em Ponta Grossa, no qual ganhamos oito dos nove prêmios com a montagem de 'Seis personagens à procura de um autor', de Pirandello”, recorda, orgulhoso. Ele dirigiu A morta, de Oswald de Andrade, que deu o prêmio de melhor atriz à então estudante de jornalismo Leda Nagle, que mais tarde trocaria Juiz de Fora pelo Rio para se projetar na carreira jornalística. Para o festival de Federação de Teatro de Minas Gerais (Fetemig), José Luiz preparava estreias especiais de espetáculos, com os quais circulava o estado, posteriormente.


IDEOLOGIA O teatro mais ideológico, feito com universitários, lembra o diretor, foi desaparecendo aos poucos. “Hoje, o estudante vai direto para o curso de teatro, enquanto naquela época tínhamos alunos de direito, filosofia, pedagogia, medicina, jornalismo e de outros cursos no grupo. Havia um amor pelo teatro ideológico”, recorda. Para José Luiz, a própria militância política passou por mudanças no decorrer do tempo.

“Naquela época, ela era feita via diretórios acadêmicos. Hoje, as comunidades, por exemplo, elegem seus vereadores”, compara, lembrando que atores como Paulo Autran, que fez direito, e Sérgio Britto, medicina, são exemplos da época, com certo lastro de formação. “Hoje, os atores e grupos de teatro sobrevivem de projetos”, critica as desgastadas leis de incentivo à cultura, salientando que a opção pelo teatro amador vem desde então.

Resultado: o Divulgação é exemplo vivo do hoje abandonado teatro de repertório, encenando desde os clássicos mundiais (Sófocles, Schiller, Genet, Goldoni, Goethe, Molière e Camus) até os brasileiros (Oswald de Andrade, Joaquim Cardoso, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Nelson Rodrigues), passando pelos textos do próprio José Luiz Ribeiro.

 No momento, ele aguarda necessárias obras de reforma no Teatro do Fórum da Cultura, sede do grupo, para iniciar a nova temporada do Divulgação. “São 67 degraus de escada que acabam afastando o público”, lamenta a realidade da antiga construção, à espera de elevador e rampa, além do ar-condicionado. “Como estamos fora do câmpus, o Fórum da Cultura não é uma prioridade para a UFJF”, conclui.

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