Pequenas pinturas históricas são expostas em museu de Juiz de Fora

Coleção de pinturas em miniatura pertencentes à viscondessa de Cavalcanti reúne obras de artistas de destaque no século 19. Pesquisa e catálogo destacam a importância deste acervo

por Walter Sebastião 31/12/2013 00:13

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Cássio André Rodrigues Ferreira/reprodução
(foto: Cássio André Rodrigues Ferreira/reprodução)
Importante e singular coleção mineira ganha o primeiro estudo e catálogo. O conjunto reúne pinturas em miniatura pertencentes a Amélia Machado Cavalcanti de Albuquerque, a viscondessa de Cavalcanti, e se encontra no Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora. As 104 obras – todas com menos de 10cm – são assinadas por nomes muito considerados em sua época.


Realizada por Angelita Ferrari para mestrado na área de história para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa ganhou livro editado pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), ligada à Prefeitura de Juiz de Fora. O trabalho joga luz sobre uma personalidade fascinante: famosa por sua beleza e elegância, a viscondessa de Cavalcanti era poliglota e escritora. Sua casa se tornou ponto de encontro de artistas famosos e personalidades influentes.

Colecionadora numa época em que tal prática era monopólio masculino, Amélia doou – ainda em vida – suas peças para museus brasileiros e franceses. Angelita Ferrari informa que a coleção de pinturas em miniatura da viscondessa é a maior do Brasil pertencente a apenas uma pessoa.

“A importância desse acervo está na diversidade de técnicas e temas, o que demonstra o cuidado da colecionadora em reunir não apenas um conjunto de miniaturas. Excluindo a pintura histórica, todos os outros temas são encontrados ali: retratos, animais, pinturas de gênero, paisagens e naturezas-mortas”, explica Angelita. Tamanha pluralização é singular diante de coleções da época, que privilegiavam retratos.

Criteriosa, a viscondessa montou seu acervo de maneira organizada. Os pintores identificados, em sua maioria franceses, eram nomes valorizados e premiados em salões. Alguns deles foram agraciados como cavaleiros da Legião de Honra da França. Angelita Ferrari lembra que autores amadores também foram contemplados. É o caso da amiga de Amélia, a arquiduquesa da Áustria Marie Alice, que a presenteou com uma espécie de ilustração científica, um galho de flores desabrochando. No verso, a artista escreveu um bilhete agradecendo os conselhos da brasileira.

A coleção viscondessa de Cavalcanti foi doada ao Museu Mariano Procópio por volta da década de 1930. A maioria das obras não está assinada ou tem assinaturas ilegíveis. “No entanto, os pintores identificados representam a importância desse conjunto. Tinham renome internacional. Valorizados, alguns eram contratados por autoridades como Napoleão Bonaparte e sua corte”, informa Angelita.

A pesquisadora ressalta que não há registro de grandes coleções de pinturas em miniatura no Brasil, onde se encontram conjuntos menores. Alguns museus exibem três ou quatro peças. No exterior, são comuns acervos dessa natureza. Angelita destaca, por exemplo, as 160 peças da condessa Zubov abrigadas no Museu Nacional de Arte Decorativa de Buenos Aires, na Argentina.


DUAS PERGUNTAS PARA...
. Angelita Ferrari
. Pesquisadora
Qual é a importância de coleções como a da viscondessa de Cavalcanti?
Elas retratam o gosto da época e as práticas colecionistas de pessoas de posses. Era comum elas reunirem convidados nos salões de suas residências para admirar as novas aquisições. Na época da viscondessa de Cavalcanti, outros colecionadores importantes eram os barões de São Joaquim e Salvador de Mendonça. A partir de acervos assim muitos museus foram formados, inclusive por meio de doações. Os colecionadores buscavam a perpetuação de seus nomes por meio dessas instituições.
 
Qual a importância do acervo do Museu Mariano Procópio?
Ele é riquíssimo, pois seu fundador, Alfredo Ferreira Lage, era um conhecido colecionador e admirador da monarquia. Com o fim do Segundo Império, Alfredo arrematou diversas peças que pertenceram à família real, como obras de arte, ornamentos, utensílios domésticos, armas, mobiliário e roupas. Também agregou coleções de seu círculo de amizades, como foi o caso de sua prima-irmã, a viscondessa de Cavalcanti.


SAIBA MAIS
A pioneira

A carioca Amélia Machado Cavalcanti de Albuquerque (1852-1946) foi a sexta mulher a ingressar no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Dama de destaque na corte de dom Pedro II, era casada com o deputado, senador e ministro Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (1829-1899). Intelectual e incentivadora das artes, Amélia apoiava eventos de caridade. “Ela não era a fútil mulher de um político importante que de vez em quanto abria o salão”, explica a pesquisadora Angelita Ferrari. A viscondessa destinou suas coleções de moedas, leques e miniaturas ao Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, instituição que ajudou a criar.


ANÁLISE DA NOTÍCIA
Portas fechadas

É muito bem-vinda a notícia de que o prodigioso acervo de cerca de 50 mil objetos do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, está ganhando pesquisas e estudos – um gesto de consideração com a história e a arte brasileiras. Mas isso não esconde algo constrangedor: a instituição está fechada desde 2008. Se o problema, como foi dito até agora, é a falta de verbas para conclusão de obras, instala-se a dúvida quanto à eficácia das propaladas políticas de incentivo à cultura, à arte e ao patrimônio nos planos municipal, estadual e federal. Surpreende o fato de lideranças políticas e culturais não equacionarem o problema de forma a resolvê-lo. Nada justifica o público não ter acesso ao acervo de uma das instituições museológicas mais importantes do Brasil. (WS)

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