Artes plásticas se consagram como setor privilegiado do lazer de qualidade

Com ano cheio de recordes, novos espaços e festival de fotografia foram os destaques. Mérito não é só para grandes e panorâmicas exposições

por Walter Sebastião 23/12/2013 06:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Túlio Santos/EM/D.A Press
Maior sucesso do ano, amostra 'A magia de Escher' atraiu mais de 200 mil pessoas às galerias do Palácio das Artes (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
O mais importante personagem das artes visuais em 2013 foi… o público. Pessoas de todas as idades e faixas sociais fizeram filas na porta de instituições para ver exposições e não esconderam o seu encanto com o que viram. Movimento tão intenso que atingiu marca recorde em Belo Horizonte: quase meio milhão de visitantes. Se a conta incluir os sempre expressivos número dos que visitam Inhotim, na região metropolitana (315 mil pessoas), vai muito além dessa cifra. Estatística que fica incalculável se acrescida dos dezenas de milhares que, atenciosamente, curtiram 'A terra vista do céu', mostra de fotos do francês Yann Arthuis-Bertrand, caprichosamente instaladas nas grades do Parque Municipal.


O sucesso de público colocou em evidência o crescimento da qualidade da programação de artes visuais em 2013, talvez a mais expressiva e variada em décadas. Revelou também o quanto a boa divulgação e o bom atendimento ao público são ingredientes que contribuem para que exposições de arte se afirmem como lazer qualificado.

A exposição mais vista do ano foi 'A magia de Escher', no Palácio das Artes. Extensa e preciosa mostra da obra de artista singular, o holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972). Apresentação de face do modernismo pouco observada, que faz com que as formas tradicionais se voltem contra elas mesmas, como faz, por exemplo, o escritor tcheco Franz Kafka com as fábulas, lendas e mitos. Toda a longa tradição de figuração, ligada à precisão do registro, é usada por Escher para evidenciar mundos labirínticos. O sucesso da mostra veio movido também por discutível – mas não necessariamente negativo – uso de aparatos que criam ilusão de ótica. O que deixou sensação de espaço saturado, incômodo para observação das obras do artista.

Portinari

MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS
Painéis 'Guerra e Paz', de Candido Portinari, inauguraram o Cine Theatro Brasil Vallourec (foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)
O público consagrou também a exposição 'Guerra e paz', dedicada a painel que Portinari (1903-1962) fez para a Organização das Nações Unidas (ONU). Exposição de concepção sólida, bem fundamentada historicamente, que reafirmou o papel decisivo do artista no modernismo brasileiro. Proporcionou algo raro, o contato direto com conjunto expressivo de obras do artista. O que evidenciou aspecto que fica diluído em reproduções: o excepcional pintor e a qualidade da fatura pictórica. São pinturas de calculado impacto e que chamam a polêmica (daí toda a discussão que as obras provocam). Um certo acordo entre inovação e aspectos tradicionais é opção do artista, que vê na comunicação criativa com o espectador um valor político.

Fotografia

RODERIK HENDERSON / Divulgação
Trabalho de Roderik Henderson, que integrou mostra do Festival Internacional de Fotografia (foto: RODERIK HENDERSON / Divulgação )
Este ano, o público ganhou uma aula completa sobre fotografia moderna e contemporânea no Brasil. A parte histórica foi apresentada em duas mostras: 'As origens do fotojornalismo no Brasil: um olhar sobre O Cruzeiro' (1940-1960), no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia; e 'Coleção Itaú de fotografia', no Palácio das Artes. Um panorama mostrando caminhos atuais da fotografia veio com mostra especial, a melhor de 2013: o Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte, com imagens de 32 artistas de 19 países, em vários locais, entre eles as estações do metrô. E duas belas mostras solo: a de Pedro Motta, na Celma Albuquerque Galeria de Arte, e a de João Castilho, na Funarte. Em todos os casos, esteve em evidência o olhar sobre o mundo e, especialmente nos contemporâneos, a foto como arte.

Contemporâneos

Centre Pompidou/divulgação
'O quarto azul' (1923), de Suzanne Valadon, da exposição 'Elles', no Centro Cultural Banco do Brasil (foto: Centre Pompidou/divulgação )
O melhor da arte contemporânea veio de mostras que jogaram luz sobre artistas formados a partir dos anos 1960 e dos artistas que o moldaram, autores que vão ganhando, merecidamente, lugar importante na história da arte. Exposições que, voluntária ou involuntariamente, revelaram o olhar e a sensibilidade contemporânea, seja com relação ao passado ou ao presente. Como a mostra 'Elles' (CCBB), extenso panorama da produção de artistas notáveis (com direito a expressiva presença de autoras brasileiras), que sinalizou ainda o quanto o feminismo, que é contemporâneo ao nascimento do pós-moderno, contribuiu para ampliação de temas e conteúdos, e para o reconhecimento da singularidade de certas obras e visão mais aprofundada da história da arte.

Pop-art

WILTON MONTENEGRO/DIVULGAÇÃO
Obra da artista Wanda Pimentel, que integra a série 'Celebração', que esteve em cartaz na cidade (foto: WILTON MONTENEGRO/DIVULGAÇÃO)
A mesma perspectiva pôde ser vista na ótima retrospectiva da carioca Wanda Pimentel, na Manoel Macedo Galeria de Arte, com singular pintura que faz dialogar pop-art, discussão da imagem e feminismo. Ou na mostra de Amilcar de Castro (1920-2002), no CCBB, privilegiando pintura que está nos limites da geometria e pluralidade de gestos postos pela obra. A atenção contemporânea para imaginários não hegemônicos pôde ser vista também na mostra 'Mira!', no Centro Cultural UFMG, com 127 obras de 54 artistas, de 27 etnias e de cinco países – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru.

As pequenas

MARCOS BENJAMIN/DIVULGAÇÃO
O artista Marcos Coelho Benjamin surpreendeu e fez pensar com sua 'Borracharia Duchamp' (foto: MARCOS BENJAMIN/DIVULGAÇÃO)
Nem só de grandes e panorâmicas exposições viveu o ano de 2013. Mostras deliciosas pela pequena escala, excesso de compromissos históricos e estéticos, que proporcionaram observação concentrada da singularidade de certos autores foram: 'Borracharia Duchamp', de Marcos Coelho Benjamim, na galeria Murilo de Castro; e a de pinturas de Ricardo Homem, na AM Galeria de Arte. O mesmo espírito brilhou em homenagem ao centenário do escultor mineiro G. T. O. – Gilberto Teles de Oliveira (1913-1990), e em 'Universo Bordallo – Bordallianos no Brasil', no Museus de Artes e Ofícios. Esta com cerâmica do português Rafael Bordallo Pinheiro (1846-1905), que também foi chargista.

Números de visitantes

82.958
CCBB

83 mil
Cine Theatro Brasil Vallourec

329.606
Palácio das Artes

315 mil
Inhotim

Exposições mais vistas


203.668
'A magia de Escher' (Palácio das Artes)

83 mil
'Portinari' (Cine Theatro Brasil)

67.309
'Elles' (CCBB)

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS