Mostra que ocupa galerias de Belo Horizonte discute o projeto da modernidade

Palácio das Artes, do Centro de Arte Contemporânea e Fotografia e outros espaços públicos recebem a exposição 'Escavar o futuro'

por Ailton Magioli 11/12/2013 06:00

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Leandro Couri/EM/D.A. Press
'Se vende', de Carmela Gross: arte e provocação ao pensamento no Parque Municipal, ao lado do Palácio das Artes (foto: Leandro Couri/EM/D.A. Press )
Muito mais do que respostas, a exposição 'Escavar o futuro', que será aberta nesta quarta-feira, em Belo Horizonte, chega repleta de perguntas sobre o período de difícil diagnóstico pelo qual atravessa o mundo. “Vamos mostrar experiências da dúvida, da esperança e da crítica”, lista a professora Renata Marquez, da UFMG, que divide a curadoria da megamostra com o também professor Felipe Scovino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Cartaz das galerias Alberto da Veiga Guignard, Arlinda Corrêa e Genesco Murta, do Palácio das Artes, e do Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, da mesma instituição, a exposição também vai utilizar espaços públicos como o Parque Municipal e a Avenida Afonso Pena, todos no Centro, para investigar o presente do passado e do futuro.

Inspirada na obra 'Quinze lições sobre arte e história da arte – Apropriações: homenagens e equações', do crítico Frederico Morais, cuja primeira lição intitula-se 'Arqueologia do urbano: escavar o futuro', a exposição busca a escavação arqueológica do passado na tentativa de explicar o presente, além de promover uma prospecção sobre o que pensar e imaginar para o futuro.

Vinte e seis convidados, entre artistas plásticos e visuais, arquiteto, diretor de cinema, músico e cidadãos, participam do evento, que, além de incursões solo na arte, inclui também experiências em duo, trio e em grupos maiores. Fotografias, vídeos, videoclipes, instalação, painel de néon e outros suportes compõem a exposição, em que o letreiro gigante Se vende, da paulistana Carmela Gross, estará exposto no Parque Municipal, em gramado lateral ao Palácio das Artes.

Se já na década de 1970, ao ser convidado por Mari’Stella Tristão, então diretora do setor de artes plásticas do recém-inaugurado Palácio das Artes, o crítico Frederico Morais já havia optado por substituir a proposta de exposição sobre esculturas por 'Objeto e participação', que ocorreu paralelamente à lendária manifestação 'Do corpo à terra', no Parque Municipal, hoje os curadores repetem o tento com arquitetura e arte, promovendo uma exposição de práticas espaciais atuais.

Na pesquisa histórica, por exemplo, Renata Marquez e Felipe Scovino convidaram dois artistas disparadores da discussão, que apresentam trabalhos dos anos 1960-70. Trata-se do francês Marcel Gautherot, com a famosa série de fotos 'Moradia nos arredores da cidade/Sacolândia', sobre a construção de Brasília, quando operários construíam casas com sacos de cimento utilizados no Plano-Piloto; e a suíça naturalizada brasileira Claudia Andujar, com a não menos famosa série 'Rua Direita', feita em São Paulo, na qual fotografou pessoas de baixo para cima.

“O objetivo é promover uma conversa das ruas daquele período com as de hoje”, explica Renata Marquez, salientando o fato de ambos os trabalhos terem sido responsáveis por provocar por aqui a contradição da modernidade. As manifestações de junho comparecem em vídeos feitos por cidadãos que cederam material para a mostra.

Arte pública

Do cearense Vitor Cesar, o painel de néon 'Centro é cultural' está propositalmente exposto na fachada do Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, na Avenida Afonso Pena. Enquanto as palavras “centro” e “cultural” permanecem acesas continuamente, o verbo “é” apaga em um intervalo de tempo de cerca de cinco segundos.

Do artista paulistano Andre Komatsu, o público poderá conferir, em uma das galerias do Palácio das Artes, a obra 'O estado das coisas (Três poderes)', em que utiliza estratégias para discutir ideias como as de nação, território e fronteira. A instalação é composta por um mastro de bandeira e por um par de tênis, sugerindo um território de abandono e de desterro.

Já a também paulistana Graziela Kunsch, por sua vez, mostra série de fragmentos do 'Projeto Mutirão', no qual apresenta, por meio de pequenos vídeos, pessoas mudando a cidade com as próprias mãos. “Levo o arquivo de mais de 70 excertos que já fiz para exposições, escolas, ocupações de sem teto”, conta a jovem artista, que apresenta 12 excertos no Palácio das Artes.

Da sugestiva mudança de batismo de uma avenida de São Paulo até a adesão à campanha do passe livre, a artista apresenta projeto que não é obra acabada, mas que precisa das pessoas para existir. Graziela trabalha com a prática documentária, urbana e educativa. Do veterano fotógrafo Wilson Baptista ('Abertura da Avenida Amazonas') ao multiartista Zé do Poço ('Não tem coisa mais feia do que mudança de pobre num caminhão Chevrolet'), passando por Pedro Motta ('Fachada cega'), Paulo Nazareth ('Árvore do esquecimento') e João Castilho ('Erupção'), Minas Gerais está representada desde o pioneirismo da fotografia até o cenário das artes visuais contemporâneas.

Vitor Cesar ('Recepção'), Sara Lambranho ('O peso de uma casa'), Projeto Maxacali-Pataxó e Marco Scarassatti e Fernando Ancil ('Rio elétrico') são os únicos artistas que fizeram obras exclusivamente para a mostra.

Os artistas e suas obras

MARCEL GAUTHEROT – Moradia nos arredores da cidade, 1960
CARMELA GROSS – Se vende, 2008
ANGELA DETANICO E RAFAEL LAIN – Utopia (JK), 2001 a 2013
SARA LAMBRANHO – O peso de uma casa, 2013
CINTHIA MARCELLE – Automóvel, 2012
CINTHIA MARCELLE e TIAGO MATA MACHADO – O século, 2011
MILTON MACHADO – História do futuro, nômade, módulo de destruição na posição alfa, 1978 a 2013
PEDRO MOTTA – Fachada cega, 2003-2004
GRAZIELA KUNSCH – 12 excertos do Projeto Mutirão, desde 1996
PAULO NAZARETH – Árvore do esquecimento, 2013
WILSON BAPTISTA – Abertura da Avenida Amazonas, 1941
LUIZA BALDAN – Natal no Minhocão, 2009
MARCO SCARASSATTI + FERNANDO ANCIL – (_) rio elétrico, 2013
LEON FERRARI – Autopista del Sur, Passarelas, Rond Point II, Cruces, Gente, Cidade (1980 a 2007)
EDUARDO COIMBRA ANDRÉ WELLER DAVID PACHECO – Você não enxerga o que eu não vejo, 2011 a 2013
CLÁUDIA ANDUJAR – Rua Direita, 1960/70
MAURO RESTIFFE – Empossamento, 2003
JOÃO CASTILHO – Erupção, 2013
VITOR CESAR – Centro é cultural/ Recepção
GUGA FERRAZ – Pedestre, Limousine, Ônibus, Céu, Até onde o mar vinha, até onde o Rio ia
PATRÍCIA AZEVEDO – Santos sujos: retratos do vazio, 2002
ZÉ DO POÇO – Não tem coisa mais feia do que mudança de pobre num caminhão Chevrolet, 1997
DANIEL CARNEIRO – Os brutos, 2013
ANDRÉ KOMATSU – Choque de ordem 2, O estado das coisas 2
PISEAGRAMA – Escavar o futuro (livro), 2013

Projeto de Convivência e ancestralidade no território Tikmu’unMaxakalíCosmopista Maxakalí-Pataxó, 2013

Três perguntas para...

Wilson Baptista
Fotógrafo


O senhor ainda fotografa?

Fiz 100 anos no dia 15 de julho, sob protestos. Vivo aqui em Belo Horizonte praticamente desde que nasci. Não posso dizer que não fotografo. Ainda, de vez em quando, pego a Olympus e fotografo alguma coisa que me interessa. Mas as limitações da idade e uma certa saturação não me animam a grandes aventuras. Devo salientar que a fotografia foi para mim um hobby, não a atividade principal.

O que levou o senhor a fotografar a Avenida Amazonas?


 Eu havia trabalhado no gabinete do prefeito José Oswaldo de Araujo, como taquígrafo, e mostrei algumas fotografias para o chefe. Acabei mesmo fazendo um album para lá. Com a entrada do prefeito Juscelino Kubitschek, e tendo eu saído do gabinete, fui procurado por um funcionário de lá perguntando se eu faria um trabalho para eles sobre a abertura da Amazonas. Concordei. Chegando lá, de acordo com meu feitio, entusiasmei-me muito mais como aspecto plástico do que com o puramente documental.

Qual era o cenário do local antes da avenida?


Nunca havia andado por lá, mas a impressão é de que eram morros cobertos de vegetação rasteira, com algumas casas.


ESCAVAR O FUTURO
. Palácio das Artes (Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard; Galeria Arlinda Corrêa Lima; Galeria Genesco Murta), Av. Afonso Pena, 1.537; Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, Av. Afonso Pena, 737, Centro; e Parque Municipal e Avenida Afonso Pena. De terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h. Domingo, das 16h às 21h. Horário de visitação do Parque Municipal: de terça a domingo, das 6h às 18h. Informações: (31) 3236-7400. De hoje até 2 de fevereiro.

. Conversa de Frederico Morais, Felipe Scovino, Renata Marquez e Rita Velloso. Hoje, às 19h, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. Entrada franca.

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