'Um baile de máscaras' envolve público em interpretação viva, junto a Orquestra Sinfônica

Com cenas de conjunto que evocam a atmosfera da realeza, ópera de Verdi ganha dimensão dramática. Espetáculo continua em cartaz até o próximo fim de semana

por João Paulo 04/11/2013 07:20

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João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação
(foto: João Marcos Rosa/Nitro/Divulgação)

A ópera sempre foi considerada uma obra de arte total, pela integração da música, teatro, dança, literatura e artes visuais, numa expressão única. Giuseppe Verdi (1813 –1901), cujo bicentenário é celebrado em todo o mundo, é um dos compositores que melhor exploraram a dimensão múltipla e singular da ópera. 'Um baile máscaras', com direção musical de Marcelo Ramos e concepção cênica de Fernando Bicudo, é homenagem ao compositor italiano e à tradição do grande espetáculo.


A montagem que encerra a temporada lírica deste ano da Fundação Clóvis Salgado merece destaque pelo equilíbrio. Conduzido pela música, o melodrama em três atos trabalha de maneira eficiente todos os elementos que compõem o espetáculo operístico. O público é envolvido desde a abertura, numa interpretação viva da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, regida por Marcelo Ramos, que faz da música o elemento central de 'Um baile de máscaras'.


O regente reforça a musicalidade da peça, com suas melodias, árias de bel canto – permitindo que os solistas brilhem sem nunca exagerar – e a apresentação de motivos ligados a personagens e temas, que pontuam com eficiência o desenrolar do drama. Além do virtuosismo, a orquestra sabe criar instantes de pura diversão quando interpreta passagens mais ligeiras.
O momento especial da orquestra se dá quando três diferentes grupos fazem música, com pleno domínio por parte do regente: a orquestra principal, no fosso; uma banda de sopros, nos bastidores, indicando o baile fora do espaço do palco; e o pequeno grupo de câmara, com os músicos integrados à cena. A maior contribuição da direção musical, no entanto, é jogar sempre a favor do espetáculo, fazendo da música o fio condutor e um personagem a mais.


Os cantores, nos dois elencos que se revezam na temporada, valorizam a montagem tanto pelo desempenho individual como pela integração ao conjunto. Um baile de máscaras, embora tenha árias e momentos feitos sob medida para arrancar aplausos pelas dificuldades técnicas e coloraturas (o que ocorre várias vezes na montagem mineira), é uma peça em que há espaço para vários personagens além do trio central, formado por Gustavo III (Marc Heller e Paulo Mandarino), Amélia (Eiko Senda e Elaine de Morais) e Renato (Douglas Hahn e Leonardo Páscoa).


Os papéis de Ulrica (Ana Lúcia Benedetti e Symara Feitosa) e Oscar (Lina Mendes e Indaiara Patrocínio), por exemplo, em muitos momentos se sobressaem e assumem a condução da trama, exigindo expressividade dramática e técnica das cantoras (o personagem Oscar é interpretado por sopranos). O equilíbrio foi a tônica, inclusive na equalização das vozes, que nunca se afastam do mesmo registro emocional nas cenas de duo e trio, e também na integração com o Coral Lírico.

Shakespeare

A direção cênica de Fernando Bicudo ajuda a amarrar as várias pontas. A escolha da versão sueca da ópera, em vez da censurada, que se passa nos Estados Unidos, deu maior dimensão política à montagem. Verdi, como se sabe, gostava muito de Shakespeare (escreveu óperas baseadas em 'Othelo', 'Macbeth' e no personagem Falstaff), sobretudo pela junção de elementos românticos e políticos no mesmo enredo, sem deixar de fora o humor que faz pensar. 'Um baile de máscaras' é, nesse sentido, uma ópera shakespeariana.


A concepção cênica acentua a força da suspeita da traição, dando a ela a ambiguidade entre a quebra de confiança, o ciúme pessoal e a vingança política, juntando no mesmo movimento a dimensão privada e pública. Os políticos brasileiros de hoje têm muito que aprender com Verdi. Eles deveriam prestar atenção às mãos que apertam com interesse e desfaçatez, e que podem se voltar contra eles ao sabor do vento das conveniências. Enquanto segue o baile da corte e se comemoram possíveis conquistas com a certeza da fidelidade para a vida toda, as traições se enredam nos bastidores. Não se trata apenas da Suécia do século 18.


'Um baile de máscaras' é bom teatro, embora um tanto formal, feito no tempo da música e com cuidado para dar forma às cenas sem pressa. Os cantores mostram preparo para atuar de forma convincente. Em alguns momentos, para dar mais força à encenação, cantam em posições que dificultam a emissão da voz, sem prejudicar a performance. Em outros momentos, no entanto, o excesso de personagens no palco torna os grandes quadros muito pesados e estáticos. Falta expressividade sobretudo aos personagens ligados à conspiração, que deveriam ter marcação mais dinâmica, que fortalecesse a identidade visual das cenas de que participam.

UM BAILE DE MÁSCARAS
Ópera de Giuseppe Verdi, libreto de Antonio
Somma. Quarta, sexta-feira e sábado, às 20h30.
Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, entro, (31) 3236-7400.

Plateias 1 e 2: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia). Plateia superior: R$ 20 preço único promocional).

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