Grupos culturais se organizam e mostram arte independente em espaços de BH

Casarão em Santa Efigênia se tornou território de disputa pelos coletivos. Ativistas convocam população para manifestação neste sábado

por Ailton Magioli 01/11/2013 07:50

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Fotos: Ramon Lisboa/EM/D. A. Press
Artistas apostam na mobilização cultural para garantir funcionamento do Espaço Comum Luiz Estrela, no Bairro Santa Efigênia (foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D. A. Press )
Quatro meses depois das manifestações populares que acabaram rendendo severas críticas ao líder do Fora do Eixo, Pablo Capilé, o coletivismo continua em alta no país. Que o diga a capital mineira, onde a própria casa do coletivo acaba de ganhar uma nova sede, no Bairro Floresta, na Região Leste de Belo Horizonte. Anteriormente, a Casa Fora do Eixo BH funcionava em imóvel na Serra, Região Centro-Sul. Agora, coincidentemente, é vizinho das Brigadas Populares.

“Nossa principal vizinhança são os moradores de rua, que dormem debaixo do viaduto da Avenida Francisco Salles”, faz questão de ressaltar Raíssa Galvão, de 22 anos, responsável pelo contato do Fora do Eixo BH com as redes sociais. Ainda que a ordem judicial de desocupação do antigo imóvel da Rua Manaus, no Bairro Santa Efigênia, onde foi recentemente instalado o Espaço Comum Luiz Estrela, sinalize um problema para o sistema que prega o uso compartilhado dos espaços públicos, o movimento pró-coletivos prossegue.

Na mesma Região Leste, por exemplo, funciona o Georgette Zona Muda, que reúne sete coletivos de áreas distintas: Cachorro Vinagre (audiovisual), Maria Objetiva (fotografia, audiovisual, texto e reportagem), Não-Onda (música experimental), Mangrove-Tentactile (música, dança e performance), MUDA (arquitetura), AMI (arte gráfica) e Thais Mol (moda, artes plásticas e gastronomia).Também em funcionamento na cidade estão Casa Azul (música), Alcova Libertina (bloco carnavalesco e vídeo), Beleza da Margem (fotografia e vídeo) e Queijo Elétrico (vídeo), entre outros.

Há ainda organizações virtuais, como o Kasa Vazia – Galeria de Arte Itinerante, que realizam ocupações e exposições em imóveis abandonados. Produto do gênero, porém sem nenhuma ligação com o Kasa, o Espaço Comum Luiz Estrela é resultado da ocupação feita por artistas e ativistas interessados em transformar o antigo imóvel abandonado, de propriedade do estado, em algo proveitoso para a comunidade.

Desde 26 de outubro, cerca de 20 pessoas vêm se revezado na ocupação do espaço, cujo batismo é uma homenagem ao morador de rua, ator e poeta Luiz Estrela, brutalmente assassinado há quatro meses na capital. Não por acaso, ele também integrava o coletivo Gangue das Bonecas, ligado à defesa das vítimas do preconceito da diversidade sexual, além de ter atuado na Praia da Estação e no carnaval de rua da cidade.

Anteontem, ao som de música especialmente composta por Gustavito e Luiz Gabriel Lopes, do grupo Graveola e O Lixo Polifônico, Manu Pessoa dirigia músicos e atores em um animado vídeo promocional para ser veiculado nas redes sociais. “O sol que faz brotar a festa/ Todos têm de cor/ Estrela protegendo a testa/ Tô feliz de morar aqui”, dizem os versos da canção. “Acredito em uma nova forma de fazer cultura, que abranja todas as pessoas”, dizia a diretora teatral Manu Pessoa, pregando o fim do que ela chama de “cultura empresa”. Música, teatro, artes plásticas e fotografia integram a agenda do espaço, que é construída coletivamente.
RAMON LISBOA/EM/D. A. PRESS
Philipe Martins, Raíssa Galvão, Isadora Machado, Victor Maciel e Gabriel Murilo na Casa Fora do Eixo BH: criação cultural e divisão de tarefas (foto: RAMON LISBOA/EM/D. A. PRESS)

Em busca de diálogo com o governo do estado, proprietário da antiga casa, e a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), que entrou com mandado e ganhou a reintegração de posse do imóvel na Justiça, artistas e ativistas estão convocando a população para manifestação no local amanhã, a partir das 14h. Duas horas depois, eles prometem realizar um cortejo lúdico pelas ruas do Santa Efigênia, no qual os participantes deverão estar fantasiados, com estrelas na testa, um símbolo da ocupação.

Sem salário

Na recém-alugada casa da Avenida Francisco Salles, os integrantes do Fora do Eixo levam vida normal, cada qual em área específica. Uma das instituições que desenvolve ações dentro da Universidade Livre das Culturas (Unicult) no estado, o coletivo de projeção internacional tem casas em Juiz de Fora e Uberlândia (o espaço parceiro Casa Verde), além da capital.

Em BH, atualmente com 10 moradores, o imóvel de 10 cômodos, alugado a preço de mercado segundo Raíssa Galvão, sobrevive de um caixa coletivo local, diretamente ligado a um caixa coletivo nacional, nos quais não há salários especificados para os integrantes do Fora do Eixo. “Há um conselho das casas, cujas tecnologias foram se aprimorando no decorrer do tempo, já que não havia como pensar um processo que remunerasse a todos.”

Para Victor Maciel, de 26 anos, como os coletivos ainda passam por processo embrionário no Brasil, é preciso compartilhar para ter sustentabilidade. Gestor da residência cultural do Fora do Eixo BH, ele garante que na casa alugada pelo coletivo tudo é dividido entre moradores. Fazer almoço, passar pano no chão, lavar banheiro, tudo está devidamente estabelecido em uma planilha on-line à qual têm acesso diário. “Ontem (terça-feira), por exemplo, além de cuidar das redes sociais, recolhi o lixo da casa. Hoje (quarta-feira), vou fazer o jantar”, afirma Raíssa Galvão.

Em Belo Horizonte, o coletivo promove o Festival Fora do Eixo, normalmente em novembro, que além de integrar o Circuito Mineiro de Festivais Independentes também faz parte da Rede Brasil de Festivais. Neste fim de semana, além do Rock Rural, de Alfenas (Sul de Minas), está sendo realizado o Festival Marreco, de Patos de Minas (Região Central). “O foco principal é a música, mas as artes estão integradas nesses eventos”, esclarece Victor.

Natural de Uberlândia, Victor, Isadora Machado (Rio de Janeiro), Gabriel Murilo e Philipe Martins (BH) e Raíssa Galvão (Sete Lagoas), além de Gian Martins e Jazmine Giovannini (Juiz de Fora) e Cida Corrêa circulavam pela Casa Fora do Eixo BH no início da semana, onde dividiam as tarefas domésticas, paralelamente à atuação dentro do coletivo, que também integra as duas redes de comunicação independentes (Pós-TV e Ninja – Narrativas Independentes de Jornalismo e Ação) que ajudou a implantar.

Troca de experiências

A belga Dorothé Depeauw, de 30 anos, trouxe de Bruxelas para Belo Horizonte a experiência de um espaço interdisciplinar de trabalho. “Como já vinha de trabalho sem liderança e sem depender de governo, resolvi fazer o mesmo aqui”, conta a coreógrafa, que implantou na capital mineira o Mangrove-Tentactile, que desenvolve trabalho nas áreas de dança, música e performance. Para sobreviver, além de abrir as portas para artistas que chegam à cidade, a coreógrafa organiza atividades no espaço, como mostras e workshops. Dorothé elogia a iniciativa do Fora do Eixo, mas cobra maior abertura do espaço para atividades culturais em Belo Horizonte.

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