Casa Daros se transforma em grande caixa preta para receber trabalhos de Julio le Parc

Mostra do argentino explora o jogo de luz e escuridão em espaço de exposições, no Rio de Janeiro

por Sérgio Rodrigo Reis 18/10/2013 08:00

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Fotos: Adrian Fritschi/Divulgação
Artista argentino radicado na França há quase 60 anos, Julio le Parc ocupa espaços com seus "seres" iluminados (foto: Fotos: Adrian Fritschi/Divulgação)
O edifício neoclássico de 1886, tombado pelo patrimônio histórico do Rio de Janeiro, onde funciona desde março a Casa Daros – instituição internacional voltada para a difusão e reflexão da arte contemporânea latino-americana –, volta a surpreender. Para receber as obras do argentino Julio le Parc, radicado há quase 60 anos em Paris, França, a instituição se transformou internamente numa enorme caixa preta, com total ausência de luz. Exceções são feixes difusos e os efeitos produzidos por pequenas máquinas e engenhocas cinéticas criadas a mão pelo artista, agora remontadas no lugar. O resultado da exposição, que pode ser visitada até 23 de fevereiro, é alucinante.













O impacto inicial da ausência de luz é o incômodo. Passada a sensação, depois que os olhos se acostumam com a escuridão, revela-se universo mágico de onde brotam “seres” iluminados ocupando todo o ambiente. Depois da primeira sala, a cada novo espaço o artista oferece um deleite para a imaginação: ora intrigando o espectador a ver o entorno ora o colocando dentro das obras. A estratégia funciona e, ao longo do caminho, vai guiando o público para uma lógica diferente da de lá de fora, a ponto de se ver o público ao fim do percurso, não raras vezes, comentando ter perdido as referências do tempo e do espaço. “O animado jogo de luz transforma o lugar, ao dissolvê-lo e recriá-lo continuamente, tornando o espectador parte integral de uma obra de arte total”, diz o curador Hans-Michael Herzog.

Nascido em 1928, em Mendonza, Argentina, Julio le Parc impressiona pela vitalidade. Em visita à exposição, ele confere cada detalhe, brinca com o público e volta a se divertir e a experimentar as sensações de ver os trabalhos em funcionamento. Produzidas em sua maioria nos anos 1960, as máquinas de luz surgiram de processo de ruptura. Na época, ao lado de colegas do Groupe de Recherche d’Art Visuel (GRAV), Le Parc decidiu romper com convenções artísticas, rejeitando as imagens estáticas em favor de dinamismo capaz de colocar as obras em fluxo constante. A proposta foi eliminar a possibilidade de pontos de vista fixos. A pesquisa o notabilizou, dando origem à maior parte de sua produção mais conhecida.
 
Fotos: Adrian Fritschi/Divulgação
(foto: Fotos: Adrian Fritschi/Divulgação)
DESAFIOS


A mostra da Casa Daros exigiu longo período de pesquisa. Há 12 anos, como lembra o curador, eles iniciaram as visitas ao ateliê de Le Parc em Paris. “Suas obras consistem em pequenas máquinas mecânicas bastante simples. Como reativá-las foi nosso grande desafio.” Como quando começou a inventar as máquinas ele não tinha meios para comprar motores mais sofisticados, teve que inventar. “Os resultados e os efeitos sempre foram mais importantes do que os meios utilizados para produzi-los”, explica o artista. O curador conta que essa preocupação não se perdeu no tempo. “Os fenômenos provocados pelas obras se desconstroem no ar em questões como luz, espaço e tempo. A desorientação provocada nos leva a sentir algo transcendental. Ao fim, nos tornamos parte da obra.”

A democratização da arte está na origem do pensamento. “A ideia, desde os anos 1960, foi criar algo que seja disponível a todos. Não somente às elites”, salienta Le Parc. Observando as reações, ele considera que os trabalhos conseguiram superar a passagem do tempo. “Parece-me que os espectadores de hoje têm a mesma resposta daqueles que iam às minhas exposições na década de 1960.” Como sempre questionou o sistema de arte, Le Parc ainda se posiciona diante de temas urgentes. Para ele, houve hoje na arte um desvirtuamento. “Quem é tido como melhor é quem vende mais caro.” A preocupação sempre foi outra. “Desde quando comecei, procurei mostrar que havia outras possibilidades para além daquelas de quem detinha o poder dos meios”, conclui.

* O repórter viajou a convite da Casa Daros


Le Parc Lumière
Exposição de obras cinéticas da Coleção Daros Latinoamerica. Até 23 de fevereiro. Casa Daros, Rua General Severiano, 159, Botafogo. Aberta de quarta a sábado, das 11h às 19h; domingo e feriados, das 11h às 18h. Ingressos: R$ 12 (inteira). Informações: (21) 2138-0850.

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