Escritor paulista critica desigualdade brasileira na Feira de Frankfurt

Ao fazer duras críticas ao país, Luiz Ruffato foi aplaudido de pé pela plateia

por Agência Estado 09/10/2013 11:40

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Ronaldo de Oliveira/CB/DA PRESS
O escritor e jornalista Luiz Ruffato - declarações polêmicas ovacionadas em Frankfurt (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/DA PRESS)
Antes de embarcar para Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato, um dos preferidos dos leitores alemães, já tinha dito que seu discurso de abertura da 65.ª edição da maior feira de livros do mundo incomodaria. E incomodou na mesma medida em que encantou o público ao fazer referências à história e à situação atual do país. Pouco depois, em sua fala, o vice-presidente Michel Temer acabou vaiado por parte da plateia que compareceu ao evento.



“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” Foi assim que Ruffato começou sua fala, em que resgatou as raízes do país e tratou da violência e da discriminação em todas as suas formas. “Nascemos sob a égide do genocídio”, disse. E foi além: “Se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.”

O escritor não economizou em estatísticas de violência e de suas consequências, sem deixar de ressaltar que houve avanços. E terminou seu discurso dizendo que acreditava, “talvez ingenuamente”, no papel transformador da literatura. “Filho de uma lavadeira analfabeta e de um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. (...) E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade.”

Ruffato foi aplaudido por exatamente um minuto - algumas pessoas aplaudiram de pé. Nenhum dos presentes - a maior autoridade da Alemanha foi Guido Westerwelle, ministro das Relações Exteriores que defendeu uma cadeira permanente para o Brasil no Comitê de Segurança da ONU e elogiou o recente discurso sobre espionagem feito pela presidente Dilma Rousseff nos Estados Unidos -, conseguiu tal feito.

O vice-presidente Michel Temer, por sua vez, foi até vaiado ao final de sua fala. Talvez inspirado pelo discurso de Ruffato, talvez para responder às firmes críticas que o escritor fez ao Brasil, Temer decidiu contar parte de sua história de vida, mais precisamente a de sua transformação em leitor. Foi uma professora que dizia que a literatura o levaria para longe de onde morava a sua grande inspiradora.

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